Junho 03, 2012

Monsieur Lazhar e a dor da perda


Muito cruel a professora que resolve cometer suicídio logo na sala de aula onde lecionava para crianças de 12 anos. Mas é isso que faz a professora do filme “Monsieur Lazhar”, desencadeando uma onda de questionamentos sobre perda, dor e culpa entre as crianças.

Encarregado de substituir a professora suicida, Lazhar Bachir (Mohamed Fellag) é um imigrante argelino exilado no Canadá depois que sua família é assassinada por terroristas. Lazhar ainda corre o risco de ser mandado de volta para a Argélia e, como as crianças, também busca superar a sua perda.

“Monsieur Lazhar” é um filme sério e sentimental. Mohamed Fellag é ótimo ator, e o diretor franco-canadense Phillippe Falardeau consegue extrair excelentes interpretações dos atores mirins. O longa concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012.  

Juntos, professor e alunos, tentam compreender e aceitar suas perdas. Mas a transformação, claro, não é imediata. Vai acontecendo aos poucos, num processo de cura gradual e sofrida, do mesmo modo que o ocorre com a gente quando a morte de alguém próximo nos atropela.

"Monsieur Lazhar" não é sensacional. É um bom filme. E uma cena do menino que se sente culpado pelo suicídio da professora é de emocionar até uma pedra de gelo.  

do not disturb


Qual mulher não gosta de receber flores?

Foto: Lissy Elle

Era manhã de uma quinta-feira qualquer. 

Fernando, assim que acordou, lembrou da nova namorada e resolveu surpreendê-la pela primeira vez. No caminho para o escritório, parou em uma floricultura e encomendou as mais belas rosas colombianas para alegrar o dia da mulher amada.

– Pode deixar, senhor. Vou pedir para entregá-las agora mesmo – avisou a dona da floricultura, com um sorriso de cumplicidade no canto da boca.

– Você acha que ela vai gostar?

– Ah, qual mulher não gosta de receber flores?

*****  

Quando Helena abriu a porta e viu o buquê de rosas colombianas nas mãos do entregador de flores, arregalou os olhos de pavor e congelou.

O entregador de flores percebeu o mal-estar súbito da mulher.

– A senhora está bem?

Helena nada respondeu. Em pânico, completamente descontrolada, arrancou o buquê das mãos do rapaz, jogou-o no chão e, com gritos histéricos e enfurecidos, pisoteou as rosas até despedaçá-las todas.

Espantado com a atitude inesperada da mulher, o entregador de flores ficou sem saber como reagir à situação. Desnorteada, indiferente ao rapaz, a mulher correu para dentro da casa e fechou a porta na cara dele.

Recuperado do susto, o entregador de flores deu de ombros, montou na bicicleta e foi embora sem entender nada.

Dentro da casa, Helena, com o coração apertado, trancou-se no quarto. Havia jurado para si mesma que jamais voltaria a ser refém do homem que passara anos lhe enviando rosas colombianas após espancá-la com socos e pontapés.

Aterrorizada, ingeriu 60 comprimidos para dormir, deitou-se sobre a cama impecavelmente arrumada e permaneceu ali para sempre.

*****

No escritório, Fernando aguardava ansioso por um telefonema da nova namorada lhe agradecendo feliz por receber rosas colombianas na manhã daquela quinta-feira qualquer.

*da série histórias inspiradas em imagens.

Junho 02, 2012

Wagner Moura, Legião e uma emocionante sessão de descarrego


Pode me julgar.

Assisti ao Tributo a Legião Urbana na MTV e não consegui não me comover. Quase, por muito pouco não chorei ao acompanhar aquele coro de 8 mil vozes cantando todas as canções da banda.

Aquilo não foi um show. Foi um culto, uma sessão de descarrego.

O ator Wagner Moura, responsável por reunir Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá para o tributo, pode até não ser grande cantor, pode até ter desafinado em alguns momentos, mas ninguém pode duvidar da sua integridade, da sua emoção ao interpretar aquelas canções.

O cara estava em estado de graça. Foi bonito de ver. E eu até me arrependo um pouquinho de não ter ido ver ao vivo.

Embora a Legião Urbana seja muito esnobada pela crítica e pelos envergonhados, é legal perceber que tem uma multidão de gente que não está nem aí para a opinião alheia. Curte o que gosta e dane-se quem não gosta.

De qualquer forma, gostando ou não da Legião, acho que não dá para ignorar a beleza de uma canção como "Giz": 

Musicas para ouvir online

E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém aparecer
Ou quando quero
Quando quero

Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És parte ainda do que me faz forte
E, pra ser honesto,
Só um pouquinho infeliz...

Mas tudo bem
Tudo bem, tudo bem... (2x)
Lá vem, lá vem, lá vem
De novo...
Acho que estou gostando de alguém
E é de ti que não me esquecerei

(Quando quero....
Quando quero...
Quando quero...
Eu rabisco o sol que a chuva apagou...
Acho que estou gostando de alguém...)

a moda agora é ser gay


Parece estupidez. E é.

De uns tempos pra cá, toda vez que a imprensa noticia avanços conquistados pela comunidade LGBTT, surgem inúmeros comentários do tipo: “a moda agora é ser gay”.

Alguns desocupados de miolo mole vão além: “argumentam” que vai chegar o dia em que todo mundo “será obrigado a virar gay”.

Olha, ser gay não é moda, não. É condição. Assim como a estupidez de quem fala asneiras desse tipo.

E ninguém é ou será obrigado a virar gay – a não ser, claro, que se descubra gay. Aí, pode assumir que será bem-vindo na comunidade.

Também não há porra de “ditadura gay” nenhuma no Brasil. Muito pelo contrário. Nós é quem somos agredidos e cerceados pela mão de ferro dos "bolsonarossauros".     

O que há hoje, acredito eu, é um debate mais amplo, lúcido e aberto na sociedade sobre as questões homossexuais. Talvez estejamos vivenciando a culminância de uma luta que vem de longe. Talvez tenha chegado o momento de os homossexuais, enfim, conquistarem os seus direitos plenos.

Esse debate, claro, reverbera nos meios de comunicação e de produção audiovisual. Exemplo: faz um bom tempo que as novelas da Globo incluem personagens gays em suas tramas. Em “Cheias de Charme”, tudo indica que Sidney (Daniel Dantas) é gay. Em “Avenida Brasil”, através do personagem Roni (Daniel Rocha), parece que o autor, João Emanuel Carneiro, vai discutir a homossexualidade no futebol.   

Estamos em evidência, conquistamos maior visibilidade e é isso que está provocando essas reações cretinas e histéricas.

Se, antes, obedecíamos à intolerância e vivíamos escondidos em guetos, agora não mais. Agora, mostramos a cara e reivindicamos igualdade. E existem os trogloditas que não se conformam com tal desobediência, assim como ainda existem trogloditas que não respeitam a emancipação feminina.

Se você é da laia dos que acreditam que os gays querem dominar o mundo, é melhor rever os seus conceitos e escolher o lado certo desse embate para não ser ultrapassado e engolido pela história. Avançamos e isso não tem volta. Avançaremos ainda mais e você, com sua cabeça dinossauro, vai virar entulho.

Por fim, saiba que nós não queremos acabar com a humanidade. Queremos torná-la mais justa. Não queremos dominar o mundo. Queremos apenas fazer parte dele. 

Pense nisso.