sábado, 25 de setembro de 2010

As garotas da laje na revista Wallpaper

Ensaio da Garotas da Laje para a Wallpaper

A edição de junho de 2010 da revista "Wallpaper" foi dedicada inteiramente ao Brasil: “o mais excitante país do mundo”, segundo a publicação. Intitulada “Born in Brazil”, a edição foi feita durante as semanas que o staff da revista permaneceu por aqui, na ponte-aérea entre São Paulo e Rio de Janeiro. A Wallpaper descreve-se como “uma revista internacional de design e lifestyle para quem gosta de conhecer tendências modernas e globais”. É revista com estética de galeria de arte: “limpinha”, “bonitinha” e “moderninha” como seus leitores.

A intenção da "Wallpaper" era fazer “o retrato de um país extraordinário em um momento extraordinário de transição”. Para isso, os editores preferiram não correr riscos e selecionaram obviedades como Alex Atala, os irmãos Campana, Oscar Niemeyer, Vik Muniz – nomes conhecidos lá fora, mas que estão longe de representar qualquer “transição”. Assim como Eike Batista, o bilionário. E Ana Beatriz Barros, a garota da capa.

O máximo de “ousadia” e lucidez que a "Wallpaper" se permitiu foi subir o morro do Vidigal, no RJ, para fotografar as participantes do concurso Garotas da Laje, em que a premiação da vencedora é um carro usado – genial! Mas essa opção da revista parece que desagradou os “fashionistas envergonhados”. 

Ao navegar por blogs e sites de moda brasileiros que falaram sobre o lançamento da edição “made in Brazil” da "Wallpaper", descobri que boa parte dos internautas não gostou nem um pouco de ver meninas suburbanas protagonizando o editorial de moda praia da revista. Os comentários, em sua maioria, repetem o mesmo queixume de sempre: “o Brasil não é só bunda”.

Pois eu acho que o Brasil – devido à sua deselegância natural – é, sim, bunda. E, principalmente, bunda de periferia, das mulheres-frutas, da Cadillac e do “Conga la Conga” da Gretchen. Pelo menos nisso, a "Wallpaper" acertou. Ou você acha que Gisele é “a cara do Brasil”? Que o “bom moço” Kaká representa a maioria dos brasileiros?

De resto, a revista manteve sua estética “limpinha” e mostrou um Brasil de “exceções”, formado por nomes que pertencem à elite cultural e econômica do país. Personalidades com “lifestyle”, que fazem bonito lá fora e, por isso, os “vira-latas” acham ok quando elas são “chamadas” para nos representar. Sentem-se orgulhosos de serem “conterrâneos” de Alex Atala ou Oscar Niemeyer, mas se assustam quando olham para o lado e veem que o Brasil real – o Brasil das Garotas da Laje –, é bem menos importante e muito mais feio.

Desta vez foi a "Wallpaper". Nos próximos anos, com Copa do Mundo e Olimpíadas a serem realizadas por aqui, vai aumentar ainda mais o interesse do planeta pelo nosso país. Espero que outras publicações sejam mais honestas e realistas do que a "Wallpaper", mostrando o Brasil sem o patrocínio “higiênico” do shopping Iguatemi. Um Brasil sujo, congestionado, cafona e, por isso mesmo, bem mais interessante do que esse “paraíso tropical” retratado pela revista inglesa.

Pra finalizar, uma pergunta: que “momento extraordinário de transição” é esse que o Brasil está vivendo? Alguém sabe?

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