terça-feira, 21 de setembro de 2010

As putas e o turismo sexual

"Exploração sexual por meio do turismo"

Estão horrorizados porque os gringos vêm para o Brasil comer as nossas putas. Que mal há nisso? Que crime cometem duas pessoas adultas que decidem livremente ter uma relação sexual paga? No Brasil, prostituição não é ilegal. Então, por que tanto barulho quando o pagamento é feito em moeda estrangeira? Em real pode?

O turismo sexual, dizem os nacionalistas envergonhados, é ruim para a imagem do país. Mas não foram os órgãos oficiais que durante décadas “exportaram” a bunda das brasileiras como uma de nossas belezas naturais? E o carnaval: o que é senão chamariz para turista “mal intencionado”? No Rio, agora proibiram cartões-postais com moças de biquíni naquele “doce balanço, a caminho do mar”. Tarde demais. Fez a fama, deita na cama. No guia "Rio For Parties", de Cristiano Nogueira, as cariocas são comparadas a “máquinas de sexo”. A publicação irritou feministas e carolas – sempre prontos para acabar com a festa dos outros –, mas nada faz além de repisar o senso comum.

A Organização Mundial de Turismo (OMT) nem gosta de usar a expressão “turismo sexual” para não legitimar a prática. Prefere “exploração sexual por meio do turismo”. E quer proteger as putas dos “colonizadores tarados”. A questão é: quem disse que as putas querem ser protegidas? Elas, na verdade, estão loucas para dar para os gringos. Afinal, vivem disso. É vendendo o corpo que escapam da indigência. E se recebem em dólar ou euro, melhor. País do futebol pode. País do samba pode. País das cirurgias plásticas pode. País das supermodelos pode. Por que “país das putas mais quentes do planeta” não pode?

É esse moralismo tacanho que fez com que a polícia prendesse um grupo de norte-americanos que se divertia em um barco cheio de mulheres gostosas na baía de Guanabara. Todas eram profissionais e maiores de idade. Ressentimento do macho nativo contra os “invasores” que vêm para cá comer nossas mulheres? É uma boa explicação...

A Ásia, com destaque para Tailândia e Filipinas, continua o principal destino do turismo sexual. Em seguida vêm América Central, Caribe e América do Sul. E entre os lugares mais procurados no continente americano estão México, Cuba e Brasil. Aqui, homens ávidos por mulheres “seminuas, receptivas e sensuais” costumam desembarcar em cidades como Rio de Janeiro, Natal, Recife, Salvador e Fortaleza. Esta última descrita pelo deputado federal Ciro Gomes como “um puteiro a céu aberto”. É quase isso. Nos calçadões das praias da capital cearense, é comum ver turistas excitados com garotas que os abordam sem qualquer inibição e arriscando um “fuck you, baby” para não deixar qualquer dúvida sobre suas intenções.

Aqueles que defendem o combate ao turismo sexual – e que batalham para transformar o mundo em um lugar cada vez mais chato – argumentam que a prática envolve crimes como aliciamento de menores, pedofilia e tráfico de seres humanos. Ok, esses crimes são repulsivos e devem mesmo ser combatidos com rigor. Mas coibir o turismo sexual por causa da pedofilia não seria o mesmo que coibir o sexo por causa dos estupros?

Em um estudo realizado em Fortaleza, a antropóloga Adriana Piscitelli, pesquisadora e coordenadora associada do Núcleo de Estudos de Gênero (Pagu) da Unicamp, ampliou a discussão sobre o assunto: “No Brasil, há uma tendência a considerar o turismo sexual o mesmo que prostituição e abuso sexual de crianças. É uma maneira muito simplista de se referir ao tema. Na verdade, o turismo sexual não pode ser vinculado exclusivamente à prostituição. As práticas se cruzam em certo ponto, mas o turismo sexual a extrapola”, disse a antropóloga em entrevista para a "Folha de S.Paulo". Seu estudo concluiu que, em muitos casos, é a ilusão de migrar para um país desenvolvido e, com isso, ascender socialmente, que motiva o envolvimento de mulheres brasileiras com turistas estrangeiros que vêm ao país em busca de sexo.

Autoridades e senhoras de boa vontade: cercear esse encontro que pode resultar em finais felizes é bom para quem? Se as garotas recebem esses turistas com alegria, por que proibi-las de exercer a sua profissão?

A internet é o principal veículo de divulgação do turismo sexual. Em fóruns de discussão on-line, onde os estrangeiros trocam confidências e dicas sobre o talento sexual das brasileiras, as postagens são explícitas. Falam em “sexo fácil e barato”, avisam sobre os cuidados com as profissionais (“que roubam o dinheiro do cliente”) e mencionam o Brasil repetidamente como “paraíso para a prática do turismo sexual”. Entre os que visitam o país com mais frequência – e tesão nas alturas – estão italianos, portugueses, holandeses, alemães e norte-americanos. A maioria de classe média, entre 20 e 40 anos.

E o que faz essa turma viajar para tão longe atrás de sexo, congestionando ainda mais as rotas do turismo de massa, essa praga que tornou viajar um pesadelo? Resposta óbvia: nesses países bagunçados onde o turismo sexual pegou (Brasil incluído), eles são recepcionados como “reis”. Desejados não pelo que são, mas por aquilo que supostamente representam (riqueza, cidadania, higiene, educação etc.), vivem dias de “celebridade”. Desde, claro, que tragam na carteira algum dinheiro para gastar. E o dinheiro, como se sabe, compra tudo: os seres e as coisas – principalmente em regiões onde a desigualdade social inferniza a realidade de milhares de pessoas. É nessa relação entre dominador e dominado, Casa Grande e Senzala, civilização e barbárie, que o turismo sexual se propaga. Para o visitante teso por sexo fácil, estar no Brasil ou em Cuba ou nas Filipinas é como dispor, o tempo todo, de “serviçais” preparadas para realizar os seus desejos mais “sujos” e secretos. Distantes de casa, onde têm uma “reputação” a zelar, esses “devassos” experimentam uma permissividade única. E na passagem de um país para outro, rompem também uma fronteira moral. Aqui, podem tudo. Até ignorar que a “acompanhante” seja mais que um corpo.

É essa “exploração da miséria alheia” que incomoda aqueles que ainda não se conformaram com a ideia de que o mundo não é – nem nunca será – um lugar perfeito. Coisa que as putas descobriram há muito tempo. “O mundo não é feito de vítimas. Todos negociam”, escreve Gabriela Leite no livro "Filha, Mãe, Avó e Puta", com a sabedoria de quem bateu ponto por anos em uma das mais conhecidas zonas de prostituição do Rio: a Vila Mimosa.

Combater o turismo sexual é batalha perdida. Desde o dia em que Cabral avistou, entre coqueiros e papagaios, indiazinhas sem nada que “lhes cobrisse suas vergonhas”, a sacanagem entre “colonizadores” e “selvagens” foi estabelecida. De lá para cá, mudaram apenas o tempo e o custo da viagem. Ficou bem mais fácil gozar em terras estrangeiras. E quem goza – por cima ou por baixo – é sempre mais feliz que quem patrulha.

Aprender a conviver com o turismo sexual, reduzindo os seus danos, talvez seja a melhor alternativa para países que estão na rota da prostituição globalizada. Para isso, é preciso deixar a indignação moral de lado e reconhecer a importância das putas para o equilíbrio da libido mundial. Sem elas, onde os homens descarregariam suas frustrações?

4 comentários:

  1. Até que enfim ...Você escreveu direitinho.

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  2. Absurdo! Rapaz, turismo sexual é gerador de miséria. Ainda mais turismo sexual. Essas regiões que você citou serão sempre e para sempre miseráveis... focos de exploração, corrupção e presas do crime organizado e sua característica principal: oprimir para controlar.

    Afinal, não podemos comparar o turista que vai com a familia conhecer o museu do louvre com aviões repletos de hulligans em busca de drogas e sexo mais baratos que em seu país de origem.

    abraço!

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  3. Interessante colocação. Contudo, reduzir a pobreza e equalizar a renda pode diminuir a incidência. A demanda e oferta se encontram no preço. Se o preço subir, porque nos países desenvolvidos também há prostituição, a demanda cai. Talvez aí, o Brasil pode deixar de ser destino de turismo sexual. Não podemos achar que a brasileira é puta por natureza.

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