quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Boi azul, boi vermelho

Festa de Parintins

A música é sempre estridente. Há “churrasquinho de gato” e outras iguarias suspeitas para saciar a fome. Vinho vagabundo virou hit: fica-se bêbado bem mais rápido. Os risos são histéricos. Cheiro de xixi, obrigatório. Ambulantes e catadores de lata pedem passagem. As meninas vestem trajes mínimos. Os rapazes arrancam a camisa. A pegação é geral. Bichas enlouquecidas aproveitam para abalar. Turistas abobalhados aproveitam para fotografar. No empurra-empurra: “Opa, cadê meu celular?!”. A temperatura sobe. As maquiagens borram. As fantasias se desmancham. É dia de festa em algum lugar do Brasil, e festa popular no Brasil é tudo igual, só muda de endereço.

Em ritmo de samba, forró ou axé; no Rio, em São Paulo ou Salvador, é a tal alegria dos brasileiros o que realmente conta. Não importa qual seja a festividade: Carnaval, micareta, boi-bumbá, parada gay, festa junina. Depois de alguns minutos de sassarico, oba-oba e cerveja morna, qualquer folia, em qualquer região do país, vira descarrego, aglomeração, suadeira, excitação dos sentidos. Em Parintins não é diferente. Município localizado na ilha de Tupinambarana, a 420 quilômetros de Manaus, é ali que acontece, sempre no último fim de semana de junho, o Festival Folclórico de Parintins. A reportagem de MAG! foi conferir o que essa festa tem de especial.

Há duas maneiras de chegar lá: de barco, saindo de Manaus, percorre-se o caudaloso rio Amazonas numa viagem que demora mais de 12 horas, sendo a melhor opção para apreciar a maior floresta tropical do planeta. Quem for avesso a deslocamentos fluviais, que vá de avião. Em meia hora, também saindo de Manaus, desembarca-se no aeroporto Júlio Belém. Primeira impressão: calor de 40 graus na sombra.

Parintins é cidade qualquer. Embora abrigue a segunda maior população do Estado, com pouco mais de 100 mil habitantes, é interiorana, desconjuntada e previsível como grande parte dos municípios brasileiros. Por estar cercada de água, tem aquele ar desleixado de cidade litorânea. Há internet, antenas de TV por assinatura, escolas de inglês. A energia elétrica é gerada por uma usina de força movida a diesel. Há poucos carros e muitas motos. Outro meio de transporte são os triciclos – bicicletas adaptadas que funcionam como mercadinhos ambulantes ou para transporte de passageiros. Basta combinar o preço (uma pechincha) para um passeio. Mas ver o “motorista” esbaforido, com a língua de fora, a mil pedaladas por minuto, deve causar um puta constrangimento a quem é carregado. Lei da selva, “jeitinho” parintinense de sobrevivência.

Nos três dias de festival, a cidade se divide. De um lado da igreja matriz de Parintins, tudo é azul. Do outro, vermelho. As cores representam, respectivamente, os grupos de boi-bumbá Caprichoso e Garantido. E é da rivalidade entre essas duas agremiações que surgiu o Festival Folclórico, inaugurado oficialmente em 1966. Hoje, o evento é considerado a segunda maior festa popular do país e atrai milhares de visitantes. Virou um grande negócio, com transmissão pela TV e apoio de patrocinadores de peso, que espalham seus cartazes publicitários por toda parte. No lado Caprichoso da cidade, até a Coca-Cola é azul.

O palco principal do festival é o bumbódromo, uma arena que acomoda 35 mil pessoas. É ali que as duas agremiações desfilam suas alegorias carnavalescas inspiradas em lendas, costumes e tradições da Amazônia. Nem tente entender o significado das fantasias, das coreografias e dos carros alegóricos. Assim como os desfiles das escolas de samba, é coisa para quem conhece o riscado – uma turma de estudiosos de arte, cultura e folclore brasileiros vindos de várias partes do país. Mais de 20 itens são julgados. Depois da apuração, o grupo com maior pontuação nas três noites de apresentação é proclamado campeão. Na 43a edição do festival, ocorrida em 2008, o boi Caprichoso foi o vencedor.

NA PAVULAGEM

A rixa entre Caprichoso e Garantido guarda algumas curiosidades: para se referir ao opositor, usa-se sempre a denominação “contrário”, nunca o nome do boi concorrente; durante as apresentações, é proibido se manifestar enquanto o adversário desfila. As luzes são apagadas e metade do público que lota o bumbódromo permanece muda, imóvel, sonolenta. Qualquer reação é punida com a perda de pontos – regra que faz com que a festa dentro da arena nunca seja completa. É uma meia-festa, em que, a cada três horas (tempo de duração dos desfiles), parte do público vibra em coreografias ensaiadas, enquanto a outra torcida é obrigada a ficar quieta, assistindo impassível à apresentação dos brincantes (foliões) do boi contrário.

Do lado de fora da arena, os “excluídos” da festa oficial fazem a sua própria algazarra. E é mais divertido perambular pelas imediações do bumbódromo do que acompanhar horas intermináveis de toadas, com profusão de penas, plumas e paetês. Para quem busca algo além, a saída é conversar com os foliões da rua, trombar com bêbados, pisar na lama, perder-se pelas quebradas de Parintins. Longe da “pavulagem” (pessoa com ar de superioridade, no linguajar local) está a alegria mais alegre. Desdentada, sofrida, calejada, mas sem vergonha de se mostrar como é.

Para Parintins, cidade que se desenvolveu a partir dos ciclos da borracha e da juta (esta levada por imigrantes japoneses), o Festival Folclórico é um grande lance. Além de promover o turismo na região amazônica, movimenta a economia municipal e todos faturam com o evento. Para quem pretende ir para lá, vale se estender por outros programas. Em plena Amazônia – a selva fetiche que continua sendo desmatada por bandidos de motosserra em punho – há afluentes, lagos, encostas, várzeas, furos e paranás que nos levam a paragens menos óbvias. Espetáculo por espetáculo, prefiro o entardecer às margens do Grande Rio. 

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!
 

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