domingo, 26 de setembro de 2010

Cinco minutos de atenção

Grigori Perelman

Assim começa o texto de Elio Gaspari, intitulado “Perelman é doido, ou entendeu tudo”, publicado na "Folha" em 24 de março:

“Em 2008, quando Lady Gaga gravou seu primeiro álbum, já se tinham passados seis anos do dia em que Grigori Perelman resolvera a Conjectura de Poincaré, um dos maiores mistérios da matemática. Num mundo que consome celebridades, a história de Perelman merece cinco minutos de atenção.”

No texto, Gaspari conta a história do russo de 43 anos que “já passou meses sem trocar de roupa, raramente corta as unhas, a barba ou o cabelo. Vive com a mãe em São Petersburgo, tem horror a jornalistas e viveu sete anos praticamente recluso”. Por ter desvendado um problema matemático que desafiava especialistas por longos 100 anos, o Instituto Clay de Matemática (Cambridge) ofereceu a ele prêmio de US$ 1 milhão. Perelman recusou. E, ao esnobar vultosa quantia, virou notícia.

Poucos se interessaram pelos cálculos de Perelman – poucos, na verdade, entendem o que ele fez. O que espantou mesmo foi sua recusa em receber o prêmio. Como alguém pode simplesmente abrir mão de US$ 1 milhão? Perelman pode. Ele é um excêntrico, sujeito que vive em outra dimensão, à distancia segura das bobagens a que se agarram as pessoas comuns. Para ele, interessa a matemática. Nada mais. “Escolheu uma vida de total integridade, sem concessões a coisa alguma.”

Perelman, enfim, teve seus cinco minutos de atenção. Fora do restrito círculo dos sábios, ninguém mais vai falar dele. Afinal, temos assuntos mais importantes na pauta do dia:  "Angélica, Claudia Leitte e mais famosos curtiram Drake Bell no Rio", "Lindsay Lohan paga fiança e passa apenas 15 horas na prisão", "Viviane Araújo se empolga no samba e é traída por vestido curto", "Japão nega entrada de Paris Hilton no país"...

Agora pare, pense e responda: Quem aproveita melhor a vida? O cara que parece maluco e se dedica integralmente a assunto que realmente o interessa – ou nós, que desperdiçamos boa parte do tempo acompanhando o que fazem ou deixam de fazer (o que é pior) as celebridades? Note que não me excluo do exército de seguidores de Lady Gaga e cia. Também sou imprestável em administrar prioridades. Também me pego maldizendo a vida de quem nem conheço. Também sigo as asneiras que são postadas no Twitter. Também assisto ao "Big Brother". E, para parecer inteligente, também fico inventando desculpas para justificar o meu interesse por assuntos absolutamente inúteis.

A história de Grigori Perelman tem muito a ensinar, como salienta Gaspari em seu artigo. Ele não precisa de US$ 1 milhão para viver uma vida plena. Pão preto, iogurte e matemática são suficientes. Enquanto isso, nós, que nem sabemos como usar aquele monte de botões do mais novo celular que compramos, queremos sempre mais. E nesse querer insaciável, deixamos a vida passar enquanto decidimos se Lady Gaga é a “nova Madonna” ou não? 

Nenhum comentário:

Postar um comentário