quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Dia mundial sem carro

Congestionamento em São Paulo

Em 2012, São Paulo vai parar. Isso de acordo com os cálculos de um professor da USP. Motivo: o excesso de carros. Atualmente, a capital paulista recebe quase 1.200 novos automóveis diariamente. Segundo dados do Detran-SP, a frota de automóveis no Estado mais rico do país cresceu 64% nos últimos 12 anos. Nesse período, o número de carros em circulação passou de 8,1 milhões para 13,3 milhões.

Nos horários de pico, a paulicéia motorizada se move em câmera lenta, com velocidade média de 15 km/h. E não há mais “atalhos” por onde escapar. Esse inferno urbano – cada vez pior devido ao crescimento da deslumbrada classe média – deveria sinalizar o esgotamento desse meio de transporte ultrapassado. Quem sabe a substituição progressiva da “cultura do automóvel” por alternativas de transporte menos excludentes.

Sinto avisar. Mas a realidade é outra.

Numa quinta-feira qualquer, resolvi verificar a saúde financeira da indústria automobilística através dos comerciais de TV. O resultado é assustador. Em poucas horas de programação noturna, assisti a 29 anúncios de carros. Em praticamente todos os intervalos comerciais, um novo modelo é apresentado ao consumidor. Conclusão: se há tanta oferta é porque a procura continua grande. E se a procura continua grande é porque as pessoas permanecem com a cabeça ligada ao século XX – quando o automóvel, no Brasil, virou “paixão nacional”. Pior: o carro continua sinônimo de status, uma representação de que o sujeito é bem-sucedido. Ô, gente atrasada!

Mas se o carro se mantém entre os itens mais desejados pelos brasileiros e ninguém mais se importa de perder 3 horas por dia em engarrafamentos (essa é a média paulistana), mais absurdo ainda é perceber que caminhamos para uma “militarização” do trânsito à moda americana. Repare: é cada vez maior o número de carros tipo 4X4 nas grandes cidades. Carros grandes, robustos, altos, blindados, pouco econômicos e que ocupam mais espaço do que deveriam.

Sempre que um desses “carrões” estaciona ao meu lado, tenho a sensação de que o dono quer dizer alguma coisa ao exibi-lo para os demais motoristas. Algo do tipo: “Sabe com quem está falando?”. Ou: “Sai fora, baixinho, que a rua a minha!”. É isso que chamo de “militarização” do trânsito. A proliferação de carros que mais parecem “tanques de guerra” prontos para destruir o que encontrar pela frente. Não duvide: homens – e, principalmente, mulheres – que compram carros 4X4 para circular na cidade são capazes de passar por cima de você sem pensar duas vezes.

É o mesmo tipo de gente que estaciona em vaga reservada para deficientes ou idosos. Para o carro em fila dupla quando vai buscar o filhinho na escola. E morre de medo do moleque que vende chicletes no cruzamento.

Quer uma descrição mais precisa? Pois bem. Quando estiver no trânsito e um desses “brutamontes” parar ao seu lado, repare no(a) motorista: ele ou ela terá sempre cara de paisagem, de nojo, do tipo “os outros que se fodam! a cidade é minha!”.

Hoje, o mundo celebra o Dia Mundial sem Carro. Mas, no Brasil, ninguém leva esse papo ambiental muito a sério. Por isso, quero que chegue logo 2012. 

Quero ver São Paulo parar! 

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