quarta-feira, 22 de setembro de 2010

É melhor morrer de vodka do que de tédio

Foto: Casper Dalhoff

Em um momento histórico em que as liberdades individuais estão sob vigilância de quem dita regras corretas, morais ou caretas, é espantoso saber que existe um lugar como o E-huset: dramático, solitário e aparentemente incompreensível. Mas um lugar completamente livre da vigilância dos chatos. Lá, ninguém está a fim de salvar ninguém de nada. Quem habita um quarto do E-huset sabe o que quer: continuar a beber. Mais do que isso: beber até morrer. De modo existencialista, sem dar importância ao fato de viver ou de tentar sobreviver. Simples assim. E que se danem a vida saudável, os arrependidos do AA, as políticas públicas contra “os vícios que nos humanizam”.

Descobrimos o E-huset através do ensaio fotográfico de Casper Dalhoff – intitulado The Last Inn (A Última Hospedagem). É ele quem nos leva a Copenhague, na Dinamarca, para conhecer a instituição que, segundo o fotógrafo, deve ser única no mundo. Certamente. Afinal, qual sociedade, além da hiperliberal sociedade dinamarquesa, para aceitar – sem pregações nem escândalos – o funcionamento de um abrigo que recebe dependentes do álcool dispostos a encher a cara até o fim? O reino da Dinamarca, vale lembrar, foi o primeiro país a autorizar o casamento civil entre homossexuais, em 1989; casais gays têm direitos iguais de adoção; espetáculos com animais selvagens são proibidos; e é a nação com o mais rígido compromisso de reduzir suas emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa.

(Tem mais: existe também o asilo Kildegaarden, em Skanderborg, cidade a cerca de 160 quilômetros de Copenhague, onde os residentes recebem “visitas íntimas” de prostitutas. Bastou um dos velhinhos “atacar” uma das enfermeiras para a diretora liberar geral. Os bobões defensores da moral chiaram, mas como a rainha Margreth II, soberana dos dinamarqueses desde 1972, não tem mentalidade de padre ou de pastor a “farra dos  velhinhos doidões” continua.)

CLIMA MEIO HEAVY

Bancado pelo governo local, o E-huset funciona em um prédio em estilo típico da Copenhague dos anos 1940. Tem três andares e, de acordo com Casper, “gente vivendo em cada um deles na mais absoluta bagunça”. Ele soube da existência do lugar por meio de uma amiga de sua mulher, que trabalhava lá. Resolveu checar pessoalmente. “Na primeira vez que entrei, achei estranho, perturbador. Os internos ficam sentados o dia todo, bebendo, sem notar nada do que acontece ao redor, numa vida triste, apenas esperando para morrer.” Claro que a maioria apresenta problemas de osteoporose, confusão mental e desnutrição, sintomas quase finais na existência de quem bebe com frequência, digamos, mil pontos acima da média.

O fotógrafo visitou a instituição por dez vezes, no período de seis meses. Na época, 20 pessoas moravam lá. Cada abrigado tem seu próprio quarto. Os outros ambientes da casa são de uso comum – inclusive os banheiros. E num lugar onde as pessoas estão altas o tempo todo, sem reflexo para acertar o alvo, dá para imaginar a situação dos banheiros depois de dezenas de dry martinis, cervejas e um vomitão eventual. Arranca-rabos também são constantes: “A quantidade de álcool no sangue deles é imensa. Assim, o clima vai pesando ao longo do dia. Tem muita gritaria, xingatório e agressão”. Nem poderia ser diferente.

O grupo de internos dispõe de uma equipe de dez enfermeiros para cuidar da bagunça e, segundo Casper, “eles realizam uma tarefa exemplar, fazendo o melhor para atender cada pessoa da instituição”. A rotina no E-huset começa por volta das 8 horas, quando é servido o café da manhã. Apenas alguns se alimentam. Uma hora depois, reunidos na grande sala de estar, eles pegam a cota diária de dinheiro. Pausa para esclarecimento: quando vão morar no E-huset, as pessoas deixam o dinheiro que têm com a administração. Todo dia, recebem uma quantia (mais ou menos US$ 20) para comprar a marvada. Quem não tem grana conta com a ajuda do governo. Fim do esclarecimento. Assim que pegam o dinheiro, eles saem em disparada – ou com a rapidez que as ressacas permitem – à loja de bebidas mais próxima. Voltam carregados. A bebedeira, como uma cerimônia, tem início. E só termina lá pelas 21 horas, quando, já tortos, começam a apagar. “Depois desse horário, só os durões na queda continuam de pé.” Pelo menos a vodka nórdica é boa. Sem falar do Aquavit, o destilado de batata com mais de 50º de álcool, a bebida favorita dos dinamarqueses.

Está no E-huset quem assim escolheu. São pessoas de diferentes classes sociais, com problemas crônicos de alcoolismo e idade em torno dos 50 anos. Algumas morrem depois de poucas semanas de “internação”, outras já estão no E-huset há oito ou dez anos. De acordo com Casper, essas pessoas abandonaram todo tipo de tratamento para alcoólatras e, quando perceberam que nada mais podia ser feito para salvá-las ou que viver sem beber não teria graça, escolheram morrer bebendo. “Não sei dizer se eles entram na casa conscientes de que vão morrer. O álcool já danificou seus cérebros de tal maneira que provavelmente não se dão conta do que está acontecendo.” O isolamento é grande. Poucos recebem visitas. O excesso etílico mais os preconceitos sociais afastam amigos e familiares.

A GOTA FINAL

Formado em jornalismo em 1998, Casper Dalhoff, 36, passou algum tempo como freelancer. Hoje é fotógrafo do jornal dinamarquês Jyllands-Posten, conhecido por publicar, em 2005, a polêmica charge do profeta Maomé, fato que causou protestos violentos de comunidades islâmicas em diversas embaixadas da Dinamarca. Muitas foram queimadas e os diplomatas obrigados a sair dos países.

Ao retratar a vida dos “internos” do E-huset, Casper não fez apenas um incrível ensaio documental. Através de sua lente, mostrou que ainda existem lugares onde as escolhas de cada um são respeitadas. “A vida é minha e eu faço dela o que eu quiser”, parecem bradar os bêbados do E-huset em sua liberdade cheirando a vodka.

Melancólico, talvez. Chocante, constrangedor, pesado. Seja qual for a palavra para descrever a instituição, sabe-se que as sociedades atuais vão demorar a aceitar esse livre-arbítrio de “beber até o fim”. Por isso, se quiserem beber, que bebam. Se quiserem fumar, que fumem. Se quiserem morrer, que morram. E ninguém tem nada a ver com isso.

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!

Um comentário:

  1. Quer dizer que eu encontrei o meu lugar no mundo, é isso? hahaha! Adorei a matéria! Não conhecia ainda, confesso que fiquei deslumbrado!!

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