sexta-feira, 24 de setembro de 2010

entrevistei: Paulo Cesar de Araújo

Odair José

Paulo Cesar de Araújo é jornalista e historiador. Em 2002, lançou o livro “Eu não sou cachorro, não” pela editora Record. A obra centra seu estudo nos artistas “cafonas” da década de 1970, época em que o Brasil era comandado pelos militares. De acordo com a tese de Araújo, esses artistas não eram tão alienados ou adesistas como muitos acreditam. Leia a entrevista:

Qual a repercussão que o seu livro causou?
Levando-se em conta que o livro é uma tese acadêmica com 458 páginas e mais de 650 notas, foi um sucesso de público e de crítica. Caetano Veloso, Nelson Motta, Washington Olivetto e Pedro Bial elogiaram a obra, que foi adotada em universidades brasileiras. Enfim, o livro ajudou a alargar a visão da cultura das elites culturais. E eu o fiz com esse objetivo. Eu queria, sim, falar para historiadores, pesquisadores, críticos musicais, jornalistas, estudantes universitários etc. Pretendia mostrar o quanto eles são autoritários, excludentes e de que maneira criaram uma muralha que deixa de fora artistas de grande importância para a vida de milhões de brasileiros. Eu quis botar o dedo nessa ferida.

Da música dita cafona dos anos 70, para qual artista você daria mais destaque?
O cantor e compositor Odair José. Ele foi um cantor corajoso, provocador e contestador na época do regime militar. Ao contrario de artistas como Caetano Veloso e Milton Nascimento, que atingiam um segmento de classe média, universitário, progressista, Odair falava para os baixos estratos da população, um público majoritariamente católico, conservador, apegado aos tabus, aos valores sociais vigentes. As suas composições convidavam o ouvinte à reflexão e ao questionamento.

Em seu livro, você cita Peninha, Agepê, Sidney Magal como a terceira geração de cantores bregas, do início dos anos 80. Depois deles, o que aconteceu com esse gênero musical?
Está nas paradas a quarta geração de cantores considerados bregas: Zezé Di Camargo e Luciano, Leonardo, KLB e outros semelhantes. Como mostro no livro, todo artista popular que as elites culturais não identificam à tradição – ou seja, ao folclore, às raízes do samba – e nem à modernidade – ou seja, às influências da bossa nova ou do tropicalismo – é tachado de brega ou cafona. Vai para o ralo comum, porque não se enquadra em nenhuma das duas vertentes. Era o que acontecia com Paulo Sergio ou Evaldo Braga; é o que acontece hoje com cantores como Daniel ou Leonardo.

Mas, hoje, sertanejos e pagodeiros também são consumidos pela classe média.
Realmente, artistas como Zezé Di Camargo, ao contrário dos cafonas dos anos 70, têm hoje uma aceitação maior dos setores médios da sociedade e até merecem especiais da Rede Globo, coisa impensável para a geração de 70, até porque naquela época a Globo foi monopólio da MPB. Essa mudança é consequência da ampliação do mercado consumidor com o Plano Real, da emergência dos novos ricos. Assim, os chamados “breganejos” dos anos 90 – embora também desprezados pela crítica – conquistaram um segmento de público mais amplo e diversificado, não sendo apenas associados às “empregadas domésticas”, como é a geração dos anos 70.

Esse “culto” a artistas como Sidney Magal e Gretchen tem algum outro significado além do deboche?
É curioso que hoje alguns desses cantores sejam chamados de “cult”, mas este termo, quando aplicado aos bregas, não faz qualquer referência ao valor artístico, mas ao seu lado caricatural; está mais uma vez ligado à gozação. Ninguém leva a sério. Por que as pessoas não afirmam que Nelson Sargento é “cult”? Porque ele não é, e não seria de bom tom brincar com um artista identificado às chamadas raízes do samba. Na visão das elites culturais, Nelson Sargento pertencia a uma instância superior da hierarquia musical do país. O que é uma grande bobagem. Odair José ou Nelson Ned não são menos importantes do que foram ou são muitos desses compositores ligados ao mundo do samba. De uma maneira geral, a música brega continua sendo tratada em tom de pilhéria, de gozação, de escracho. O [extinto] seriado “Os Normais”, por exemplo, usou como tema de abertura a canção “Você é Doida Demais”, de Lindomar Castilho. “Os Normais” era uma comédia, e os produtores consideraram esse tema suficientemente engraçado para ilustrá-la. Num seriado de temática séria jamais teriam usado uma canção brega como tema de abertura.

Quando Caetano Veloso regrava Fernando Mendes, o que era considerado “brega” parece receber um “selo de qualidade”. As pessoas precisam do aval de alguém como Caetano pra assumir o seu lado brega?
Isso está relacionado àquele fato anteriormente citado. Caetano está identificado à modernidade, e tudo o que canta ganha status de moderno, soa novo. Isso se verificou também quando ele regravou “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, de Roberto Carlos. Essa música, que estava praticamente esquecida, ressurgiu com toda força, ganhando status de grande canção, principalmente depois da revelação de que fora composta por Roberto em homenagem a Caetano, quando este estava exilado em Londres. Isso mostra que são vários os aspectos que determinam a valorização de um trabalho artístico, e estes aspectos muitas vezes são exteriores a obra em si.

Ser brega não é algo que faz parte da “alma” do brasileiro?
Eu diria que faz parte da alma do latino. E isso está expresso no bolero, na guarânia, na rumba, na conga, enfim, nos mais populares gêneros e ritmos musicais da América Latina. Não por acaso, esses ritmos são considerados de mau gosto pelas elites culturais.

Entrevista publicada originalmente na revista Vivo. 

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