quarta-feira, 29 de setembro de 2010

LILIAN

Lilian era atriz e professora de arte dramática em um teatro de renome nacional. Tinha atuado em todo o mundo e sabia tudo o que havia para saber sobre autocontrole. Entretanto, ela estava sentada em meu consultório porque seu velho inimigo – o medo – a tinha em suas garras.

Seu terror atual advinha do fato de, algumas semanas antes, ter recebido um diagnóstico de câncer no rim. Enquanto eu explorava seu passado, contou-me que seu pai a estuprara em várias ocasiões quando ela era criança. A impotência que Lilian sentia ao se confrontar com sua doença era, provavelmente, em parte, eco do que havia passado na infância, quando não tinha recursos para escapar de seu horrendo apuro.

Ela nunca esqueceu do dia em que, com seis anos, se machucou na parte de dentro da coxa em uma cerca. Seu pai a levou ao consultório médico e se sentou ao seu lado enquanto ela tomava pontos da coxa ao púbis, sem anestesia. De volta à casa, o pai a deitara de barriga para baixo e, mantendo-a assim deitada, e com a mão em seu pescoço, estuprou-a pela primeira vez.

Lilian começou por me dizer que, no decorrer de vários anos de terapia convencional, falara longamente sobre incesto e de sua relação com o pai. Ela não achava que seria útil voltar àquelas velhas memórias. “Já superei isso”, disse.

Mas a relação entre essa cena de infância – combinando os temas da doença, impotência total e temor – e a ansiedade que Lilian sentia a respeito de seu câncer parecia, para mim, forte demais para pôr a questão de lado. Ela por fim concordou em evocar as memórias novamente.

Com a primeira sequência de movimentos oculares, todo o corpo expressou seu terror de infância mais uma vez. Uma ideia passou feito um raio por sua mente: “Não tinha sido culpa minha? Tudo não começou com minha queda no quintal e o fato de que meu pai viu minha genitália no consultório do médico?” Como a maioria das vítimas de abuso sexual, Lilian sentiu-se parcialmente responsável por aqueles atos medonhos. Apenas lhe pedi que continuasse pensando sobre o que tinha dito e passasse por outra série de movimentos oculares durante trinta segundos. Após essa sequência, disse-me que podia ver que não fora por sua culpa. Ela era apenas uma garotinha e o papel de seu pai era o de cuidar dela e de protegê-la.

Esse fato estava agora perfeitamente claro. De modo nenhum ela fora responsável pela agressão. Tinha simplesmente caído enquanto brincava. O que poderia ser mais comum para uma menina cheia de vida e louca por aventuras? Ante meus olhos, o ponto de vista adulto estava começando a formar um elo com a distorção que havia sido preservada no cérebro emocional de Lilian.

Durante a curta sequência seguinte de movimentos oculares, sua emoção mudou. O temor deu lugar a uma raiva justa. “Como ele pode ter feito uma coisa dessas comigo? Como minha mãe permitiu que ele continuasse com isso durante anos?” Suas sensações físicas, que expressavam tanto quanto suas palavras, também mudaram. A pressão na base da nuca e o temor na boca do estômago – que ela tinha sentido minutos antes – cederam lugar a tensões poderosas em seu peito e na mandíbula, subprodutos comuns da raiva.

Após mais algumas sequências de movimentos oculares, Lilian se viu como a menininha que tinha sido emocionalmente abandonada e sexualmente abusada. Sentiu uma tristeza profunda e enorme compaixão por aquela pequena garota. Como se estivesse seguindo os estágios do luto descritos por Elisabeth Kubler-Ross, sua raiva se transformou em tristeza. Lilian percebeu que o adulto competente que ela havia se tornado podia tomar conta dessa criança. Pensou na ferocidade com que tinha protegido seus próprios filhos - "como uma leoa", disse ela. Finalmente, pouco a pouco, contou a história do pai. Durante a Segunda Guerra, na Holanda, ele fora capturado e torturado. Quando pequena, Lilian ouvira sua mãe e seus avós contarem que, depois da guerra, ele nunca mais havia sido o mesmo. Uma onda de pena e compaixão por ele crescia dentro dela - muito mais que isso, de compreensão. Ela agora o via como um homem com uma sede imensa de amor e compaixão que a esposa, rude e emocionalmente endurecida pela vida, muito parecida com os pais dele, tinha lhe negado. Eles todos ficaram presos em uma tradição cultural que não deixava espaço para emoções.

Alguns minutos mais tarde, Lilian viu seu pai como uma alma perdida, um homem que tinha passado por realidades tão duras que "foram suficientes para levá-lo à beira da loucura". Por fim, ela o viu como "um velho que mal podia andar. Ele tem uma vida tão dura. Eu fico triste por ele".

Depois de pouco mais de uma hora, o terror de Lilian como uma criança vitimida de estupro mudou para aceitação e até mesmo compaixão por seu agressor - a perspectiva adulta mais concebível possível. Em pouco tempo, ela passara por todas as etapas conhecidas de luto.

Lilian tinha sido até capaz de revisitar a memória do primeiro estupro e depois examiná-la resolutamente. "É como se agora eu fosse apenas uma observadora", disse ela. "Estou olhando para isso de longe. É só uma memória, apenas uma imagem".

Três anos após essas poucas sessões, Lilian está mais viva do que nunca - talvez até mais - apesar da cirurgia, da quimioterapia e da radioterapia. Em virtude da sua experiência com essa doença e da sua força interior, ela até transmite um brilho especial. Está atuando novamente e já voltou às aulas. E está ansiosa por continuar assim por muitos anos mais.


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Do livro “Curar – O stress, a ansiedade e a depressão sem medicamento nem psicanálise”, David Servan-Schreiber, tradução Luis Manuel Louceiro, Sá Editora, 2004.

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