quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Me apaixonei por uma boneca

Boneca de silicone da Orient Industry

O filme é uma delícia. Chama-se “A Garota Ideal” (Lars and the Real Girl, 2007). Dirigido pelo novato Craig Gillespie, o longa conta a história de Lars (Ryan Gosling), um homem profundamente desiludido que, para escapar da solidão, compra uma sex doll pela internet e desenvolve com ela uma relação pouco convencional. Ok, até aqui nada demais. Afinal, quantos solitários mundo afora não devem ter a sua própria boneca de silicone escondida dentro do armário?

A diferença é que Lars não esconde a sua. Muito pelo contrário. Relaciona-se com a boneca, chamada Bianca, como se ela fosse uma “garota real” e a apresenta para todos como sua nova namorada. O divertido é que seus amigos e familiares embarcam nessa loucura e aceitam a relação dos dois numa boa – não sem antes uma impagável expressão de espanto. Drama com ótimas situações de humor, o filme foi indicado ao Academy Award 2008 na categoria de Melhor Roteiro Original. Perdeu para “Juno”, outro bom exemplo do cinema independente feito em Hollywood.

A estranha paixão de Lars por Bianca é obra de ficção, fantasia saída da cabeça da roteirista Nancy Oliver. Mas uma breve consulta no Google mostra que o mercado de bonecas de silicone é movimentado. E se há companhias que vendem, é porque existem pessoas que compram, certo? Certíssimo! E o Japão é o lugar onde elas são campeãs de audiência.

A empresa Orient Industry, principal fabricante do país, produz bonecas de cair o queixo, réplicas quase perfeitas de jovens garotas ready-to-use. Elas têm tamanho real – de 1,40 a 1,50 metro de altura – e nomes fofos: Nano, Pure, Petit Jewel e por aí vai. O preço é alto, mas pelo menos elas não reclamam de dor de cabeça, nem se interessam em discutir a relação. Os menos otimistas podem reclamar do silicone, mas em tempos de Mulher Melão e outras do gênero, tal textura já deve servir bem à maioria dos homens. A Orient produz cerca de 80 bonecas por mês.

O mais perturbador é que, durante muito tempo, as bonecas infláveis (versão anterior às de silicone) atendiam principalmente a idosos ou portadores de deficiência física. Desde o final do século XX, no entanto, boa parte dos compradores é formada por homens entre 30 e 40 anos. São pessoas que, como o protagonista de “A Garota Ideal”, nutrem sentimentos afetivos pelas sex dolls. Para agradar esses consumidores, a Orient Industry oferece um bizarro serviço extra: as bonecas descartadas têm direito à realização de um funeral budista em sua memória, realizado duas vezes por ano no templo de Shimizu Kannondo, a deusa da compaixão.

Conhecidos por suas extravagâncias sexuais, os japoneses não param de surpreender. Em Tóquio, há uma empresa chamada Doll no Mori. É o primeiro serviço de acompanhantes do mundo que oferece bonecas de silicone aos clientes. Em um ano, de 2004 a 2005, a empresa cresceu de forma espantosa. Hoje, há várias unidades espalhadas pelo Japão.

DO LADO DE CÁ

Sim, os japoneses são tarados por natureza. Mas eles estão longe de serem os únicos. Bonecas e outros apetrechos para fins sexuais existem há muito tempo, em toda parte do planeta. Foram se desenvolvendo ao longo dos anos. Novos materiais foram surgindo e, num futuro não muito distante, há quem acredite no aparecimento dos robôs sexuais. Falo disso mais à frente. Antes, vamos até os Estados Unidos, país de origem do artista plástico Matt McMullen, o inventor das bonecas de silicone.

Em 1996, aproveitando-se do tremendo sucesso das modelos que criava para vitrines de lojas e exposições, ele teve uma ideia brilhante: transformá-las em objetos sexuais. Assim, criou a Real Doll. E, de lá para cá, já faturou milhões com a sua invenção. Tão impressionantes quanto àquelas fabricadas pelos japoneses, as bonecas de McMullen são feitas de silicone, aço e plástico PVC. São impermeáveis, bóiam e aguentam 300 quilos. Suas juntas de aço inox são dobráveis em ângulos de até 180 graus. Preço: de US$ 6 mil a US$ 10 mil. Para as mulheres, há uma versão masculina: Charlie, um moreno alto, bonito e sensual, equipado com um pênis ao gosto da freguesa: flácido (ignoro a utilidade), pequeno, médio ou extra large. Como opção: uma entrada anal. Fabricadas pela empresa americana Abyss Creations, com sede na Califórnia, as real dolls já conquistaram admiradores famosos. Howard Stern, o polêmico radialista americano, comprou, usou e adorou: “É a melhor transa que já tive! Minha esposa não era tão boa quanto ela. Me sinto completo. Sou capaz de me apaixonar por esses produtos.”

PACIÊNCIA ILIMITADA

O inglês David Levy, 62, é um cientista especializado em inteligência artificial. O cara é sério e lançou um livro intitulado “Love and Sex with Robots: The Evolution of Human-Robot Relationships”. Levy afirma que “a ocorrência de relacionamentos sexuais e amorosos entre robôs e seres humanos é inevitável”. Presidente da Associação Internacional de Jogos de Computador, o cientista, em entrevista para o “NYT”, diz acreditar que os robôs oferecerão melhor sexo e melhor relacionamento aos humanos em apenas 40 anos: “Vamos amá-los e respeitá-los e confiaremos a eles os nossos mais íntimos segredos”. Outro que segue o mesmo raciocínio é Timothy Hornyak, jornalista especializado em tecnologia e autor do livro “Loving the Machine – The Art and Science of Japanese Robots”: “Consigo imaginar isso acontecendo primeiro no Japão, onde as pessoas têm uma visão positiva das máquinas”.

Atualmente, o mais próximos que estamos de um andróide que, no futuro, poderia se transformar em um robô sexual é a Repliee. Apresentada durante uma feira de robótica no Japão, em 2005, a criação de Hiroshi Ishiguro apareceu usando provocante roupa de vinil. Graças a 42 ativadores movidos por ar comprimido, ela pode reagir de forma parecida com os humanos. “Repliee pode piscar, parece respirar, move as mãos como uma pessoa e responde ao toque”, explica Levy.

Mas enquanto esse admirável mundo novo não chega, quem quiser ir treinando que se contente com as bonecas de silicone. Além de Japão e Estados Unidos, na Alemanha também existe uma empresa especializada em sex dolls. É a First Androids, com sede em Neumarkt, perto de Nuremberg. A bonecas alemãs, segundo a fabricante, tem “paciência ilimitada” e vêm com diversos opcionais. Entre eles, “sistema de aquecimento com controles ajustáveis” para aumentar a temperatura do corpo.

Lá no passado, em suas viagens pelo globo, os marinheiros holandeses compartilhavam suas camas com bonecas de couro costuradas à mão. Vem daí a expressão “esposas holandesas”, como também são chamadas as bonecas sexuais. Já os cientistas japoneses contavam com “Antarctica”, uma boneca que levavam para a estação de pesquisa Showa a fim de se aquecerem durante o longo inverno no pólo sul. Como se vê, esse comportamento – esquisito para muitos – não é nenhuma novidade. Que venham os robôs!

Texto publicado originalmente na revista SPOT. 

2 comentários:

  1. Bom, já que tocou neste assunto, uma leitura obrigatória e horripilante de tão boa é o Sandman de ETA Hoffman, escritor alemão do séc. 18. Interessante a abordagem dele sobre esse mesmo tema há tantos anos atrás, o autômato.
    must read, totally. Mto legal seu blog.
    Andrea

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