quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A NOVELA DAS OITO

[Especial Telenovela - parte 2]

Foi a invenção do videotape que possibilitou às emissoras transformar as telenovelas em programa diário. Mais: os produtores perceberam que para segurar o público era necessário mantê-lo diante do aparelho de TV todas as noites, no mesmo horário. Assim surgiu a popularmente conhecida “novela das oito” (atualmente, transmitida às 21h).

No início, ali na primeira metade da década de 1960, as telenovelas brasileiras nada tinham de... brasileiras. Adaptadas de obras mexicanas, argentinas e cubanas, as histórias eram ambientadas em lugares estranhos à realidade nacional, como Marrocos e Japão, e os personagens eram condes, duques e ciganos. Nesse cenário, o principal nome da época foi Glória Magadan, cubana que chegou a comandar o núcleo de teledramaturgia da TV Globo nos anos de 1960. Foi o estilo melodramático de Magadan que marcou todo o período inicial das telenovelas nacionais. Desse período, o folhetim de maior sucesso foi “O Direito de Nascer” (1965), escrita pelo cubano Félix Caignet e adaptada por Talma de Oliveira e Teixeira Filho para a TV Tupi. Entre 1966 e 1968, a TV Excelsior apresentou “Redenção”, de Raimundo Lopes – até hoje a mais longa novela da televisão brasileira, com 596 capítulos.

Com a consolidação do gênero, ainda faltava transformar as telenovelas em produto genuinamente brasileiro. A iniciativa partiu da TV Tupi. Entre 1968 e 1969, a emissora colocou no ar “Antônio Maria”, escrita por Geraldo Vietri. A história do milionário português que vem para o Brasil, finge-se de pobre e se apaixona pela filha do seu patrão conquistou os telespectadores. Mas foi com “Beto Rockfeller” (1969), idealizada por Cassiano Gabus Mendes e escrita por Bráulio Pedroso, que as telenovelas ganharam definitivamente a linguagem e o colorido do cotidiano brasileiro.

Foram muitas as inovações inauguradas por “Beto Rockfeller”: os diálogos se tornaram coloquiais, a interpretação ficou mais natural e a trilha sonora de temas orquestrais cedeu lugar a sucessos pop da época. A telenovela também foi pioneira em merchandising. Como o personagem-título bebia muito uísque, o ator que o interpretava, Luiz Gustavo, fez acordo com um fabricante de remédio contra ressaca, o Engov, e faturava toda vez que engolia o produto em cena. Atualmente, sabe-se que só esse tipo de propaganda é capaz de pagar o custo de uma telenovela. Cada merchandising em um folhetim global custa em torno de R$ 900 mil, sem contar cachês. A novela “Senhora do Destino” (2005) apresentou 107. Faça as contas.

Realidade brasileira na telinha

A partir de 1970, já não havia mais espaço para os dramalhões latinos na TV brasileira. Todas as emissoras passam a investir em autores nacionais, com histórias ambientadas na realidade do país. A TV Globo se reestrutura. Demite Glória Magadan, cria um padrão próprio de produção e, com a derrocada da concorrência, torna-se líder absoluta da teledramaturgia nacional. Daqui em diante, as telenovelas – já definitivamente inseridas no nosso dia-a-dia – ainda sofrem algumas mudanças de linguagem, mas sem grandes variações em sua linha narrativa.

Líder na produção de telenovelas durante a década de 1960, a TV Excelsior fecha suas portas no início dos anos de 1970. Nesse período, apenas duas emissoras, Globo e Tupi, continuam na disputa pela audiência dos noveleiros. Vale lembrar que a Record sempre investiu mais em música, com seus grandes festivais de MPB. É certo dizer que foi nessa época que a telenovela brasileira realmente atingiu o seu ápice. São desse período obras memoráveis como “Mulheres de Areia”, “Ídolo de Pano”, “Irmãos Coragem”, “Pecado Capital”, “Selva de Pedra”, “O Bem Amado”, “Saramandaia”, “Dancin’ Days” e “Gabriela”.

No final da década de 1970 é a vez da TV Tupi ir à bancarrota. Soberana, a Globo continua investindo pesado em teledramaturgia, mas as obras não mantêm o mesmo brilho. Nos anos de 1980, destacam-se apenas “Vale Tudo”, “Que Rei Sou Eu?”, “Guerra dos Sexos” e “Roque Santeiro”. Esta última um dos maiores fenômenos da dramaturgia nacional. Censurada em 1975, a novela escrita por Dias Gomes, em parceria com Aguinaldo Silva, foi ao ar dez anos depois e cativou os telespectadores com sua sátira apimentada à política, religião e costumes brasileiros. Nessa época, a teledramaturgia – ancorada no chamado “padrão Globo de qualidade” – já era grande indústria. E assim o é até hoje.

De qualidade sempre discutível, a emissora de Silvio Santos, o SBT, passou a importar e transmitir dramalhões mexicanos ali na década de 1990. Assumidamente popular, a rede tentava abocanhar um pedaço desse rentável mercado. Mais do que audiência, o SBT conseguiu apenas criar uma espécie de modismo ao contrário: hoje, quando se fala em teledramaturgia ruim, logo nos vêm à cabeça suas novelas de títulos esdrúxulos: “Café com Aroma de Mulher”, “Canavial de Paixões”, “Maria do Bairro”, “A Usurpadora”, entre outros.

A telenovela, bem mais do que simples entretenimento, virou “retrato” do Brasil. Dita moda, discute os problemas nacionais, imortaliza personagens, acompanha a evolução comportamental, polemiza. Nesses mais de 50 anos de existência, são vários os momentos em que o país se viu “prisioneiro” de algum folhetim. Qual outro produto cultural gera tanto barulho, envolvendo praticamente todos os extratos da sociedade?

[Especial Telenovela]
Parte 4 - Química Perfeita 
Parte 5 - Autores

Nenhum comentário:

Postar um comentário