sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O direito de morrer

John, na Dignitas

Gosto de questões polêmicas. Dessas que obrigam as pessoas a descer do muro e assumir posição. Nada mais brochante do que gente bunda-mole, sem opinião sobre coisa alguma. Em março, o extinto caderno Mais!, da "Folha", publicou reportagem interessante sobre uma instituição suíça que oferece um serviço bem polêmico: recebe pessoas de todo o mundo que buscam o suicídio assistido. Chamada Dignitas, a associação foi fundada em 1998 e, até 2009, 1.041 pessoas morreram com a sua ajuda.

O suicídio assistido ocorre quando uma pessoa não consegue concretizar sozinha a sua intenção de morrer e pede o auxílio de outro indivíduo. Quatro países – Suíça, Holanda, Luxemburgo e Bélgica –, mais os estados americanos de Oregon e Washington, permitem que um doente terminal escolha a hora de morrer. Na Dignitas, com a aplicação de um coquetel de barbitúricos, a morte chega em não mais do que 30 minutos.

Creio que a maioria das pessoas é contra o suicídio assistido. Essa mesma maioria deve ser contra a eutanásia e o aborto. A vida, para essa maioria, é o bem mais precioso, dádiva divina, e não podemos de modo algum interrompê-la por livre e espontânea vontade. Muito pelo contrário, temos o dever de defendê-la até o derradeiro suspiro – “não desistir nunca”, “dar a volta por cima”, “vencer os obstáculos”, “viver cada minuto como se fosse o último”. No final de cada capítulo da novela "Viver a Vida", histórias de superação “ensinavam” como devemos agir diante das desgraças que podem nos atropelar a qualquer momento.

Sim, é admirável o poder de superação do ser humano. Mesmo quando a vida está uma merda, consegue enxergar, com otimismo inabalável, uma fagulha qualquer de esperança. Assim, de tropeço em tropeço, segue em frente, cabeça erguida e todo orgulhoso de vencer mais uma batalha. “Sou brasileiro, não desisto nunca”.

Pois bem. Acho que valorizamos demais a vida. Acho a vida bem chatinha a maior parte do tempo. Acho que a Dignitas realiza um trabalho exemplar. Acho que todos temos o direito de desistir.

A mesma reportagem publicada na "Folha" conta a história do britânico John Close. Acometido por uma doença neurológica que causa degeneração do sistema nervoso, ele resolveu procurar a instituição suíça. Morreu em 2003, depois de receber uma injeção de barbitúricos. Fim do sofrimento.

Muitos ficam chocados com histórias assim. Sentem-se no direito de se intrometer em assunto alheio. Acreditam que John poderia aguentar mais um pouco. Não, não podia. A opção pela morte, creio eu, é solução final, só levada a cabo depois que todas as outras opções falharam. Não significa desapego pela vida, nem falta de coragem para enfrentá-la. Quem decide morrer, em circunstâncias como a de John, assim decidiu porque a vida perdeu o sentido – se é que existe algum sentido na vida.

Apesar de certa e inevitável, a morte continua assunto tabu. Para evitá-la – ou, pelo menos, atrasar a sua chegada – nos agarramos em qualquer promessa de "vida eterna". Se dizem que o queijo branco faz bem à saúde, prolongando nossa permanência no mundo, lá vamos nós ao supermercado mais próximo comprar quilos de queijo branco. A academia de ginástica também é refúgio daqueles que buscam a "imortalidade". E o que querem antitabagistas e vegetarianos? Morrer por último.

É natural que lutemos pela vida. É também natural que ela um dia acabe. Às vezes, porque decidimos que chegou a hora.

Um comentário:

  1. Impressionante! Que bom saber que uma pessoa pensa como eu, sem remorsos, sem dar uma de politicamente correto. Fiquei bem feliz em poder discutir esse assunto com você, Marcos!

    Nunca tentei me matar, mas às vezes, a gente pensa que a vida é um saco, mesmo. É inevitável evitar o suicídio de alguém que realmente não aguenta mais.

    Da mesma forma, é muito válido que alguém que "viva" em estado vegetativo decida desligar os aparelhos. Pra que esperar 20 anos só pra ver se alguém vai acordar de um coma? Sofrimento pra pessoa e, mais ainda, pros seus familiares.

    Também não como mais de algo só porque aumenta a expectativa de vida. Não faço exercícios por preguiça. A hora que tiver que morrer, a gente morre.

    Já tive duas doenças gravíssimas e tô aqui ainda. Quer dizer, talvez demore pra eu sair daqui.

    Bem, sempre que achar a vida chatinha, só dar um toque. Quem sabe eu ajude a deixá-la um pouco mais feliz ^^

    Fique bem e bom dia dos mortos :)
    Beijão!! =****

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