domingo, 5 de setembro de 2010

O medo de viver engorda

A "noviça rebelde" Julie Andrews

Eu trabalhava em um banco, no setor de abertura de cadernetas de poupança. Certa vez, um homem negro, com aparência de pai de santo, me chamou de “noviço rebelde”, sorriu e foi embora. Não sei por qual razão, nunca mais esqueci desse episódio. Na época, eu tinha uns 18 ou 19 anos. Ainda experimentava a vida, sem saber direito o que fazer com ela.

Até hoje, tento entender porque aquele homem com aparência de pai de santo me chamou de “noviço rebelde”. Eu não era a Julie Andrews e nunca havia me rebelado contra nada. Ao contrário da espevitada noviça do filme, sempre fui rapaz cordato e obediente. Pode perguntar pra minha mãe!

Lembro que apareci de porre em casa uma única vez. Foi um Deus-nos-Acuda. Mas foi uma única vez. E era carnaval. Na escola, repeti apenas um ano. E fumei alguns baseados, indo parar na cadeia por porte. Nada grave. Saí de lá depois que o delegado “confiscou” meu dinheiro. Nem fichado eu fui.

Ao olhar para trás e lembrar do homem com aparência de pai de santo, percebo que, para mim, viver nunca foi perigoso. Mas uma sucessão de acontecimentos controlados, previsíveis e desinteressantes. Sim, eu queria ter sido um “noviço rebelde”, ter rodado a baiana como a Julie Andrews. Fui apenas um garoto medroso. E esse medo de viver engorda, acomoda, dá dor na coluna, deprime.

O mundo real, com suas ameaças e sensações, está lá fora. E é lá fora que devemos estar para que a vida nos surpreenda.

Lá fora nos apaixonamos, fazemos novas amizades, recebemos abraços apertados. É onde o sol brilha com mais intensidade, o vento sopra sem controle e o tempo passa de mansinho. Lá fora, tomamos banhos de chuva, lambemos sorvetes de limão, reencontramos velhos conhecidos.

É lá fora, enfim, que deixamos a vida nos balançar...

Hoje sei disso. Mas estou há tanto tempo deitado no meu sofá, me empanturrando de macarrão instantâneo, TV e rancor, que perdi o jeito, desaprendi a descontrair, a sair pelo mundo sem hora pra voltar. Por isso, recorro ao psiquiatra e ao antidepressivo pra ver se ainda tenho tempo e saúde pra uma reviravolta que me arranque desse buraco escuro onde me enfiei.

Quem sabe, um dia, você ainda me encontre lá fora, contemplando o mais lindo pôr-do-sol do mundo. Aquele que será o mais lindo simplesmente porque eu estarei lá: recuperado, de bem com a vida e pra sempre feliz.

Um comentário:

  1. Concordo e me identifico, mas enfim, o que fazer? estou vivendo em Exodus, estou me permitindo começar a fazer novos amigos, a sentir carinho com o relacionamento da minha 1ª namorada!!

    Mas não me sinto completo ainda, falta algo.... talvez paz ou felicidade!

    elnanotri@yahoo.com.br

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