segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O metrossexual, o übersexual e outros varões

George Clooney

Veja só. Até um tempo atrás queriam que a gente se lambuzasse de cremes. Depilação e tintura para cabelos viraram assuntos masculinos. Depois, três publicitárias espertalhonas anunciaram a morte precoce do metrossexual, o tal “homem sensível”, e inventaram outra espécie de macho, que ficou vulgarmente conhecido como übersexual. As autoras do livro “The Future of Men” (do qual saiu essa nova versão do príncipe encantado) diziam que o homem da vez era o ator George Clooney – o übersexual nato. Depois dele, como candidatos ao posto, estavam Bono (o vocalista do U2), o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, o cineasta Guy Ritchie (ex da Madonna), Arnold Schwarzenegger, os atores Brad Pitt e Pierce Brosnan e – acredite! – o milionário gabarola Donald Trump.

O prefixo alemão über significa “acima”, “além de”, “super”. Mas não se engane: übersexual não era simplesmente o sujeito bom de cama. Nas verdade, ele era mais, muito mais do que um Don Juan moderno. De acordo com as autoras do livro, o homem pós-David Beckham seria bom em tudo que faz. Seria mais atraente, dinâmico, confiante, masculino, bem informado e estiloso. Além, claro, de se manter vaidoso (na medida certa) e sensível aos saracoteios femininos. Em resumo, o übersexual seria como aquele papel higiênico de um antigo comercial de TV: super, hiper, maxi, mega, ultra, blaster, plus, advanced. Homem pra mulher nenhuma botar defeito. Se você, leitora, acredita em Papai Noel, assombração e que Elvis não morreu, embarque nessa.

LEVANTE FEMININO

Visto aqui da periferia – ambiente livre desses modismos bobocas – esse tal de übersexual cheirava a levante contra David Beckham e suas unhas pintadas. Um tanto afrescalhado demais para o gosto feminino, o metrossexual quis se aproximar da estética gay (desculpe pelo cacófato) e tropeçou no salto. Nem lá, nem cá, acabou por confundir o mulherio. E, no ímpeto de reencontrar o machão perdido, exageraram no conceito do übersexual. “Bom em tudo que faz” é pura falácia. Homem que é homem falha na hora H, desconhece os mistérios da TPM e está sujeito a uma cafajestada de vez em quando.

Em entrevista para a “Veja”, Marian Salzman, Ira Matathia e Ann O’Reilly, as autoras de “The Future of Men”, afirmaram que o übersexual marcaria a volta das características masculinas mais positivas, como força, decisão e imparcialidade. “Sem a insegurança comum aos dias de hoje.” De que insegurança elas falam, não sei. Só sei que na época da minha avó costumavam dizer que homem era tudo igual. Hoje, somos divididos em categorias. No mesmo livro, as publicitárias nos enfiam outros rótulos. A saber: novo machão (não vê problemas em chorar em público), metrogay (gay com traços masculinos), metro-hétero (o contrário do metrogay), snag (entende perfeitamente as mulheres), homem verdadeiro (só faz o que quer e quando quer), emo boy (extremamente sensível) e new bloke (liberal, não vê diferenças entre homens e mulheres). Nada disso é novidade. No entanto, embalado em polêmica, obras desse tipo costumam vender feito pão quente.

ESPELHO, ESPELHO MEU...

Está nos livros de história: o homem sempre se preocupou com a aparência. O hábito de se enfeitar nasceu nos antigos rituais religiosos e de guerra. Sabe quando? Há cerca de 8.000 anos. É tempo pra dedéu. E ainda hoje se discute a vaidade masculina. Vaidade, eis a palavra-chave de todo esse quiproquó. No início, homem nenhum quis assumi-la. Disfarçavam-na. Cuidados com saúde, higiene, bons modos e outros eufemismos “explicavam” o uso de cosméticos. Mas como cada época tem o David Beckham que merece, com o passar do tempo machos acima de qualquer suspeita também reivindicaram para si o direito à futilidade.

Os egípcios, sem exceção, tinham o próprio estojo de maquiagem e não se separavam dele por nada. Na tumba de Tutankhamon – a múmia popstar – foram encontrados cremes, batom, rouge e perfumes. Alexandre, o Grande, criou um jardim botânico todo seu para a produção de cosméticos. Na Roma de Calígula, os homens tinham o hábito mais do que natural de depilar o corpo com óleos e ceras. Adeptos da boa festa, os romanos usavam cremes e maquiagem no dia-a-dia. E pintavam as unhas com uma esquisita mistura à base de sangue de carneiro. Assim foi até entrar em vigor o Cristianismo, que tratou de acabar com as sessões de beleza na Europa medieval. Maquiar-se virou “coisa do diabo”.

A partir daí, a vaidade masculina intercalou momentos de aceitação e rejeição. No reinado de Elizabeth I (1533-1603), os rapazes puderam lavar seus cabelos com água de rosmarino e clarear os dentes com artemísia. Já na era vitoriana prevaleceu a ostentação na maneira de se vestir, com rígidos códigos de etiqueta moldando a conduta de homens e mulheres. Foi preciso a intervenção do bon-vivant George Bryan Brummel – o “Belo” Brummel – para que a elegância retornasse à moda. É ele o precursor de um movimento surgido no final do século 18 e chamado de dandismo. Rebelde em sua discrição, o dândi aspirava, sim, a chamar a atenção. Mas com o intuito de chocar a sociedade. Destacava-se pelo refinamento pessoal e pela dedicação às artes. Além de Brummel, o escritor Oscar Wilde foi outro dândi de fino trato.

Já no século 20, ali na década de 1980, o yuppie – young urban professional  – aparece como o grande representante de uma época marcada pelo individualismo. “Não existe essa coisa de sociedade, o individual é tudo”, bradou a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, ao mesmo tempo em que a Sony lançava o walkman. De terno Armani, a bordo de uma BMW, o yuppie foi a mais completa tradução do que a sociedade tem de pior. Para esse jovem executivo, não bastava ter, era preciso mostrar.

MACHO EM CRISE

Vê-se, ao longo da história, que o homem nem sempre foi esse troglodita feio, sujo e descabelado que costumam pintar. Vem de longe a pavonada masculina. É que de uns tempos pra cá inventaram de espalhar por aí que o homem está em crise, atordoado diante do triunfo feminino, indeciso com relação à sua masculinidade: depilação ou barba por fazer?; manicure ou futebol com os amigos?; “Rambo” ou “Titanic”?; discutir a relação ou arranjar outra amante?; aderir à mais recente novidade estética ou se manter fiel à tradição? O metrossexual, o übersexual e outros varões deste novo milênio que me desculpem, mas certo está o jornalista Xico Sá: “Chegar aos 50 sem barriga é atestado de péssima biografia”. Deixemos algo fora do lugar. É mais divertido.

Texto publicado originalmente na revista Vivo. 

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