quarta-feira, 29 de setembro de 2010

PAULINA

Conheci Paulina quando ela tinha sessenta anos. Estava procurando ajuda porque se sentia irracionalmente desconfortável na presença de seu novo chefe. Duas semanas mais tarde, quando ele se postou atrás dela no escritório, Paulina começou a suar incontrolavelmente e não foi capaz de continuar sua conversa telefônica com um importante cliente. Dez anos antes havia perdido um emprego devido a um problema semelhante. Agora estava determinada a fazer alguma coisa a respeito.

Logo descobri que seu pai, alcoólatra e violento, a espancara diversas vezes quando era criança. Pedi que descrevesse uma das piores cenas. Ela me contou como, quando tinha cinco anos, seu pai tinha chegado em casa com um carro novo e parecia estar de bom humor. Paulina quis se aproveitar disso para se aproximar dele. Quando ele entrou em casa, ela achou que, para fazê-lo feliz, poderia deixar o carro brilhando ainda mais, lavando-o. Encontrou um balde e uma esponja e começou a lavar o carro com todo o entusiasmo que uma garotinha que quer agradar o pai é capaz de ter. Infelizmente não notou que havia areia no fundo do balde e que ela havia grudado na esponja. Quando o pai saiu para ver o carro, percebeu que ele fora riscado de ponta a ponta, dos dois lados. Foi tomado de uma tremenda fúria que pareceu completamente incompreensível para a garotinha. Apavorada com o que ele pudesse fazer, Paulina correu para o quarto, no andar superior, e se escondeu debaixo da cama. Pensar naquela memória trouxe-lhe de volta a imagem que parecia ter sido imprimida em seu cérebro tão claramente quanto um quadro: os pés de seu pai vindo em sua direção enquanto ela se aninhava debaixo da cama, o mais próximo possível da parede, como um pequeno animal.

Junto com esse quadro, a emoção daquele momento voltava com toda a força. Na minha frente, 55 anos depois, pude ver o rosto de Paulina deformado pelo medo. Sua respiração estava agitada, todos os músculos pareciam tensos, e lembro-me de ter tido medo de que ela sofresse um ataque cardíaco em meu consultório. Cinqüenta e cinco anos depois, todo o seu cérebro, todo o seu corpo ficaram possuídos pelo medo, pela cicatriz deixada por aquele evento.

Para Paulina, bastava seu chefe parecer, ainda que vagamente, com seu pai para torná-la extremamente desconfortável, mesmo décadas depois. 

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Do livro “Curar – O stress, a ansiedade e a depressão sem medicamento nem psicanálise”, David Servan-Schreiber, tradução Luis Manuel Louceiro, Sá Editora, 2004. 

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