sábado, 25 de setembro de 2010

entrevistei: Sérgio Vaz

Sarau da Cooperifa

Lá das quebradas, “pra depois da ponte”, Sérgio Vaz anuncia: “Povo lindo, povo inteligente”. É seu jeito de saudar aqueles que acessam o seu blog, o Colecionador de Pedras. Assim ele também se dirige ao “povo” da periferia, seja de São Paulo ou de outra grande cidade brasileira. Afinal, periferia é periferia. Todo mundo sabe o que é, todo mundo sabe onde fica e todo mundo acredita que por lá a violência corre solta. Não é bem assim. A maioria dos que vivem em regiões quase ignoradas pelo poder público sobrevive do jeito que dá, sem partir para o combate armado. Mas tanto falam e inventam, tanto excluem e discriminam que a periferia não teve como escapar do linchamento público, transformando-se em “território inimigo”, lugar onde tudo é resolvido no cano do revólver. E é contra essa distorção da realidade distante que o franco-rimador Sérgio Vaz dispara seus incisivos versos. Na métrica hip hop do poeta marginal, “a periferia, apesar de tudo e de todos, anda atrás de sonhos e conquistas”.

Morador do Taboão da Serra, município da região metropolitana de São Paulo, o mineiro Sérgio Vaz tem 45 anos e há 20 escreve poesia inspirada no cotidiano das pessoas que enfrentam a barra-pesada das periferias. Nesse tempo, publicou cinco livros: “Subindo a Ladeira Mora a Noite”, “A Margem do Vento”, “Pensamentos Vadios”, “A Poesia dos Deuses Inferiores” e “O Colecionador de Pedras”. Poderia ter continuado a viver no anonimato de um poeta dos confins. Mas no pensamento de Vaz mora a inquietude de “um artista a serviço da comunidade”, e ele resolveu formar “um exército de quixotes munidos de canetas de grosso calibre e muitos poemas nas mãos”. 

Assim surgiu, em 1999, o sarau da Cooperifa, grupo de escritores da periferia de São Paulo que edita os próprios livros e promove leituras. O encontro acontece nas noites de quarta-feira e chega a reunir até 400 pessoas. “Começamos no pátio de uma fábrica e lá ficamos por um ano. Mas tivemos de desocupar o lugar e pensei: ‘Espaço público na periferia é igreja ou boteco. Preferimos o boteco”, conta Vaz. O escolhido foi o bar do Zé Batidão, em Piraporinha, zona sul da capital paulista. É ali que os “guerreiros” se reúnem para soltar o verbo. E é ali que se tem a exata noção do poder da palavra como agente transformador. “As pessoas estão perdendo o medo do livro e a literatura tem se esparramado pela mesas dos bares”, acredita Vaz, um ex-auxiliar de escritório que diz ter várias ocupações, sem revelar quais.

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O evento literário organizado por Sérgio Vaz já rendeu um livro, “O Rastilho de Pólvora: Uma Antologia do Sarau da Cooperifa”, que reúne poemas de 43 artistas anônimos da periferia e contou com o apoio do Itaú Cultural para sua publicação. A iniciativa também recebeu o prêmio Educador Inventor, oferecido pela UNESCO e pelo Projeto Aprendiz. Na cerimônia de entrega do prêmio, o jornalista Gilberto Dimenstein ressaltou a importância das “pessoas que são capazes de reinventar a cidade”. Artista engajado, “com o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos”, Sérgio Vaz é uma dessas pessoas. Para ele, os contrastes sociais existentes em São Paulo só podem ser combatidos com educação. “Por meio da poesia, muitos começaram a se interessar pela leitura. E, por conta da literatura, vários jovens e adultos voltaram a estudar”.

[...]

Pra finalizar, vale citar um verso de Sérgio Vaz: “Enquanto eles capitalizam a realidade / Eu socializo meus sonhos”. É esse sentimento que parece mover quem se reúne em um boteco distante para se fazer ouvir sob o tumulto social de uma cidade como São Paulo. E, quando conseguimos ouvi-los, descobrimos que a periferia é logo ali.

Versos de Sérgio Vaz:

É preciso sugar da arte
um novo tipo de artista:
o artista-cidadão.
Aquele que, em sua arte,
não revoluciona
o mundo, mas também não
compactua com a
mediocridade que imbeciliza
um povo desprovido de oportunidades.
Um artista a serviço
da comunidade, do país.
Que, armado da verdade,
por si só, exercita a revolução.

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Escreva poemas,
mas, se te insultarem,
recite palavrões.

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!

Um comentário:

  1. Marcos,

    já tinha visto o post, fiquei contente na época, e estou feliz novamente.
    Obrigado pela generosidade.

    Abs.

    sergio vaz

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