domingo, 12 de setembro de 2010

Por que tanto lixo?


Atol de Midway, norte do oceano Pacífico. Ali vivem milhares de albatrozes, a mais de 2 mil quilômetros longe do continente. Em 2009, o fotógrafo norte-americano Chris Jordan foi até lá para documentar o desastre ambiental que ocorre naquela região. Pode parecer absurdo, mas estamos matando as aves a distância. Efeito devastador do lixo que produzimos e que se espalha pelo planeta levado pelas correntes marítimas.

As imagens dos albatrozes mortos são desoladoras. Em decomposição, os corpos dos pássaros expõem a situação alarmante no atol: pedaços de plástico, seringas, tampas de garrafas, botões de camisa, isqueiros, restos de redes de pescar são ingeridos pelas aves como se fossem alimento. Resultado: milhares de albatrozes mortos por asfixia, intoxicação e fome. Chris Jordan alerta: “Vivemos em uma sociedade onde tudo parece ser descartável e que está causando um dos piores problemas do nosso tempo: a grande quantidade de lixo que jogamos diariamente nos oceanos”.

De acordo com dados do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), o lixo plástico é responsável pela morte de mais de 1 milhão de aves marinhas por ano – além de tartarugas, tubarões e centenas de espécies de peixes.

Fotógrafo que tem o consumo de massa como tema central do seu trabalho, Jordan é autor de outra obra focada na poluição do maior oceano do planeta. Chama-se Gyre e foi baseada na xilogravura A Grande Onda de Kanagawa, de Katsushika Hokusai. Para elaborar os três painéis que formam o desenho de uma onda gigante com o monte Fuji, no Japão, ao fundo, ele juntou 2,4 milhões de pedaços de plástico recolhidos do Pacífico.

Repare: o plástico está no centro do debate sobre a preservação ambiental. Revolucionária em sua origem, a invenção, ao mesmo tempo em que conquistou o globo, virou pesadelo ecológico. Subproduto do petróleo, o plástico demora, em média, 40 anos para se decompor. Se fosse reciclado, OK. Mas a maior parte da produção mundial de 180 milhões de toneladas/ano continua descartada sem controle algum.

No mesmo oceano Pacífico, o navegador Charles Moore, numa viagem entre Havaí e Califórnia, descobriu o que ambientalistas chamam de “Lixão do Pacífico”: área onde uma massa gigantesca de detritos forma espécie de “sopão” com bilhões de pedaços de plástico e que se movimenta com as marés. Ao se aproximar da terra, e isso acontece no arquipélago havaiano, o resultado é dramático: o lixo se derrama sobre as praias.

Atenção: essa gosma de resíduos plásticos já ocupa uma área maior que a soma dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. Fala Charles Moore: “Temos que mudar se quisermos sobreviver”. O apelo do navegador encontra respaldo no relatório “State of The World”, publicado pelo Worldwatch Institute. Na edição de 2010, o documento adverte: mudanças extremas nos hábitos de consumo são necessárias para enfrentar os desafios ambientais.

Agora se liga nos números: desde a década de 1960, o consumo aumentou mais de seis vezes. Em 2006, a humanidade consumiu US$ 30,5 trilhões em mercadorias e serviços. Esse valor é 28% maior que o registrado há uma década e fez explodir a extração de recursos naturais. Segue o relatório: as pessoas mais ricas do mundo, cerca de 7% da população, são responsáveis por 50% das emissões de gases de efeito estufa, enquanto as 3 bilhões mais pobres emitem apenas 6%. Conclusão: quem tem grana consome mais e, ao consumir mais, produz mais lixo. São essas pessoas, portanto, que devem estar à frente dessas mudanças proposta pelo instituto norte-americano.

A ERA DO DESCARTÁVEL

A necessidade compulsiva de consumir “prestígio”, dando mais importância ao supérfluo, define esta época de supervalorização do descartável, em que os produtos são programados para se tornarem obsoletos em poucos meses. Esse veloz “sucateamento” das coisas é o principal culpado por elevar os níveis de consumo e, consequentemente, o aumento do lixo.

Na série Running The Numbers, Chris Jordan questiona os excessos do consumismo norte-americano. Em uma das imagens, ele fotografa 106 mil latas de alumínio – ou a quantidade de enlatados consumida nos EUA a cada 30 segundos. Em outra, são 15 milhões de folhas de papel A4 – ou a quantidade de papel usada a cada 15 minutos naquele país. Superlativos, os números mostram uma sociedade que não vacila em “devorar” o que encontra pela frente.

É esse “padrão cultural” que deve mudar, recomenda o relatório do Worldwatch Institute. Resistir à sedução do “novo” e ter consciência de que o simples ato de efetuar uma compra tem consequências na natureza são cruciais para o futuro sustentável do planeta. Vale repetir: tudo que consumimos e, depois, descartamos vira lixo. E esse lixo está matando albatrozes em lugares antes imunes à ação do homem.

Reduzir (o consumo), reutilizar (o que é aproveitável), reciclar (o que é descartável), renovar (as ideias). Pense nisso. Estar conectado ao século XXI é negar toda forma de desperdício.

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!

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