quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Pum de vaca


O gás metano, embora seja menos comum na atmosfera que o CO2, tem capacidade 20 vezes maior de reter o calor. Por isso, é considerado um dos principais vilões do efeito estufa. Mas o que as vacas têm a ver com essa história? A explicação é simples. De acordo com o professor da Universidade da Califórnia, Frank Mitloehner, em entrevista ao "New York Times", uma única vaca expele – principalmente nos arrotos, mas também na flatulência – de 90 a 180 quilos de metano anualmente. E como a estimativa é que a produção de leite e carne deverá dobrar nos próximos 30 anos, a ONU acendeu a luzinha vermelha: as vacas são uma das mais sérias ameaças ao clima global em curto prazo.

Segundo relatório da entidade publicado em 2006, elas podem ser mais perigosas à atmosfera que caminhões e carros juntos. É por esse motivo que algumas experiências estão sendo realizadas nos Estados Unidos e na Europa com o objetivo de fazer esses animais produzirem menos metano. A que deu mais certo até agora é a mudança na dieta. Em vez de milho e soja, alimentos predominantes na indústria de laticínios, as vacas são alimentadas com alfafa e sementes de linhaça – substâncias que imitam o capim. Resultado: as emissões diminuíram. A nova ração fez o complicado sistema digestivo das vacas, cheio de bactérias que as fazem soltar metano, funcionar mais suavemente.

“O problema não está na digestão das vacas. Mas, sim, no aumento exorbitante do rebanho mundial para suprir a demanda por alimentos e outros produtos”, afirma o professor alemão Michael Kreuzer, do Instituto de Ciências Animais da Escola Politécnica de Zurique (ETH Zürich). Kreuzer, em parceria com universidades de vários países, inclusive Brasil, comanda pesquisas em que foi constatado que a adição de substâncias provenientes de plantas tropicais – gordura de coco, linhaça, sementes de girassol – na dieta alimentar desses animais diminui a emissão de metano. O problema é tão grave que a Nova Zelândia, país onde a indústria animal representa boa parte do setor agrícola, chegou a instituir uma inusitada taxa, o “Imposto Flatulência”. A gritaria foi tanta que o governo voltou atrás.

De acordo com o IBGE, o Brasil possui o maior rebanho comercial de bovinos do mundo. Em 2007, eram 192 milhões de cabeças, sendo 89% bovinos, 7% ovinos, 3,5% caprinos e 0,5% bubalinos. Com esse número superlativo de ruminantes, o país tem obrigação de investir em pesquisas que encontrem maneiras baratas e eficientes de reduzir o metano do “pum das vacas”. A outra alternativa não deve agradar muita gente: que todos viremos comedores de alface imediatamente.

Texto publicado originalmente na revista SPOT.

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