terça-feira, 28 de setembro de 2010

Reflexões de uma bicicleta ergométrica

Estava lá, mas você não me enxergava mais

Cá estou, empoeirada, esquecida num canto da sala.
Logo eu que me empenhei tanto para deixá-lo magro, esbelto, bonito, com a auto-estima nas alturas.
Lembra do início, quando nos conhecemos? Toda manhã você corria pra mim, cheio de vitalidade e entusiasmo.
Me tratava com gentileza, cuidava de mim. Fazia questão de me apresentar para os seus amigos. Sorria feliz toda vez que alguém elogiava a sua nova silhueta.

Eu passei a ocupar o centro da sua vida.

Com o tempo, não sei o que aconteceu. Você começou a me rejeitar. Acho que foi cansando de mim.
Ainda lembro do dia em que você me encostou na parede e me deixou lá. Fiquei cismada. Mas achei que havia sido apenas distração sua.
Na manhã seguinte, você não me procurou. Nem na outra. Nem na próxima. E, assim, as semanas passaram.
De repente, eu tinha virado uma espécie de “cabide” improvisado, onde você amontoava suas roupas sujas.
Enferrujei. Perdi alguns parafusos. E você nem ligou.

Estava lá, mas você não me enxergava mais.

Sua barriga cresceu.
E tudo o que você fazia era deitar no sofá, ligar a TV com uma lata de cerveja na mão e o controle remoto na outra.
Nunca mais correu pra mim com o entusiasmo de antes.

Hoje, percebo que às vezes você me espia de canto de olho, meio envergonhado, meio sem saber o que fazer comigo.
Sinto que sou um estorvo em sua vida, ocupando um espaço desnecessário em sua sala.
Mas se eu incomodo tanto, por que você me mantém ao seu lado?
Será a lembrança do tempo em que estávamos sempre juntos?
Ou mera acomodação?

Sei que você se acostumou a me ter por perto. 
Mas se é para me tratar como sucata, que tal deixar eu seguir em frente?
Talvez eu ainda seja útil para outro.
Talvez eu ainda possa começar de novo.

Deixa eu ir embora, vai!

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