terça-feira, 28 de setembro de 2010

SARAH

Após um ano de idílio, Mark, o homem com quem Sarah tinha certeza de que iria se casar, a deixou de repente. Não houvera um probleminha sequer em seu relacionamento. Seus corpos pareciam ter sido feitos um para o outro e suas mentes vivazes – eram ambos advogados – estavam de acordo em tudo. Ela amava tantas coisas nele: a voz, o cheiro, a risada que ele dava sempre. Até gostava dos futuros sogros. Tudo já estava planejado. Um dia, Mark bateu à sua porta com uma laranjeira nos braços, com uma enorme faixa. Em suas mãos estava uma carta que dizia o que ele não poderia lhe dizer pessoalmente. As palavras eram frias e duras. Mark voltara para a antiga namorada, que era católica como ele, e ela seria a mulher com quem se casaria. Sua decisão era definitiva, dizia a carta.

Depois daquela tarde, Sarah nunca mais foi a mesma. Sempre fora forte como uma rocha, mas começou a ter ataques de ansiedade quando se lembrava do que havia lhe acontecido. Não era mais capaz de se sentar perto de uma árvore em um jardim, especialmente de uma laranjeira. Seu coração começava a pular no peito assim que pegava um envelope com seu nome escrito nele. Às vezes, sem razão aparente, tinha flashbacks: revia a cena da despedida como se Mark estivesse bem diante de seus olhos, como se tudo estivesse acontecendo de novo. À noite, costumava sonhar com ele e acordar assustada. Não se vestia mais como antes, não falava mais do mesmo jeito, nem sequer sorria mais. Durante muito tempo, seria incapaz de falar sobre o que tinha acontecido com ela, tomada por uma mistura de vergonha – como pudera estar tão errada a respeito de Mark? – e constrangimento, pois seus olhos se enchiam de lágrimas assim que evocava a memória. Falar sobre isso era impossível; era incapaz de elaborar uma única frase para descrever o que lhe acontecera. As poucas palavras que lhe vinham pareciam tão insuficientes, tão pouco convincentes.

Como a história de Sarah ilustra bem – e como todos nós sabemos por experiência própria – eventos traumáticos deixam marcas em nosso cérebro.

Curar: histórias reais - Vera | Sarah | Lilian | As crianças de Kosovo | Paulina

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Do livro “Curar – O stress, a ansiedade e a depressão sem medicamento nem psicanálise”, David Servan-Schreiber, tradução Luis Manuel Louceiro, Sá Editora, 2004. 

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