domingo, 26 de setembro de 2010

A sereníssima da Filadélfia (Grace Kelly)

Por Eduardo Logullo*

Grace Kelly

Até meados dos anos 1950, Grace Kelly, de rosto angelical e alma safada, já rodara por vários galãs de Hollywood. Pouco antes, a atriz se tornara a loura gelada favorita de Alfred Hitchcock, desde que fora dirigida pelo charutão do mestre em "Janela Indiscreta" (Rear Window, 1954). Em 18 de abril de 1956, ela conseguiu o que milhões de mulheres sonhavam: casar-se com um príncipe. Irrealidade, sonho, sétimo céu. A garota da Filadélfia vira princesa. O destino quis. Ela viajara em 1955 ao Festival de Cannes e estivera em Mônaco para uma sessão de fotos. Lá conheceu o monegasco Rainier III. O monarca precisava se casar: um tratado firmado em 1918 com a França dizia que, caso o regente do principado não gerasse herdeiros, o enclave voltaria a se tornar território francês. Rainier Louis Henri Maxence Bertrand Grimaldi, o conde de Polignac, então com 32 anos, zarpou atrás de Grace nos Estados Unidos. Conheceu a família Kelly e a pediu em casamento dias depois. A cerimônia foi assistida ao vivo por 30 milhões de europeus, com pencas de estrelas entre os convidados. Começava ali a deglutição do príncipe por sua princesa. Sua Alteza Sereníssima se torna a efígie de Mônaco, apagando a presença do regente, que passou a coadjuvante de novela das seis. Grace chegava: 500 fotógrafos sobre ela. O príncipe chegava: todos viravam o rosto e perguntavam o que aquele chato de fraque fazia por ali. Grace surgia com chapéus mirabolantes, imensos: o importante era tampar a cara do marido. Ela deixou três herdeiros, fundou uma organização mundial para proteger crianças, coordenou milhares de bailes beneficentes, portou joias que cegavam outras mulheres, visitava papas, abria cerimônias oficiais e acenava para multidões. Num dia de setembro de 1982, lá vinha Grace dirigindo seu Rover P6 pelas curvas da Riviera, quando o carro despencou ribanceira abaixo e ploft. Morreu linda e loura. Surgia o mito eterno. O marido, engolido por ela 26 anos antes, era um espectro invisível. Morreu, também. Mas quem se importou? 

Da série Engoli Meu Marido: Imelda Marcos | Tina Turner | Elizabeth Taylor | Nancy Reagan | Grace Kelly | Eva Perón | Madonna | Paris Hilton  


*Eduardo Logullo é jornalista e maluco. 

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG! 

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