quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Spray days


A cena mais emblemática de PIXO, documentário dirigido por João Wainer e Roberto T. Oliveira, mostra a reação histérica de uma artista plástica à invasão de um grupo de pixadores no Centro Universitário Belas Artes, em São Paulo. Ao perceber que sua “obra de arte” é alvo do spray do rapaz encapuzado, a mulher-escândalo esbraveja: “Prende esse filho da puta!”. Impossível permanecer indiferente ao efeito desestabilizador que o ataque provoca na instituição. Horrorizado, o senhor de gravatas & bravatas contra-ataca: “Isso [o pixo] é uma porcaria!”.

Estão ali, na mesma cena, a ação desafiadora do pixador e a reação descontrolada da “vítima”. E é sobre esse barulhento embate entre oprimidos & opressores que fala o filme, tendo como cenário a caótica paisagem de São Paulo e como personagens garotos vindos de cantões inseguros da periferia. PIXO explica o PIXO. E, depois de assistir ao documentário, somos até capazes de legitimar o movimento.

Sim, o PIXO incomoda. É crime. Agride. Mas é também o mais explosivo manifesto de quem sobrevive à margem dos meios de produção. Não será fácil “amansá-lo”, como fez a cultura pop com o rap, o grafite e o funk carioca. Nem há como dissociá-lo de certa marginalidade embrutecida pela total falta de perspectivas. Fala Cripta Djan logo no início do documentário: “É pra afrontar mesmo, é não estar nem aí mesmo, pixador quer escancarar, é anarquia pura, é ódio”.

Iniciado como protesto político no período militar. Adotado pelo movimento punk. E transformado, a partir da década de 1980, em linguagem cifrada, o PIXO não quer se comunicar. Quer esculhambar. Sua tipografia – indecifrável para os intrusos – surgiu da runa, antigo alfabeto céltico. Hoje, cada pixador tem “assinatura” própria. Riscos & rabiscos que, de repente, viraram indagação acadêmica: PIXO é arte? 

João Wainer: “Não sei. Mas acho forma de expressão das mais sofisticadas. Aquelas letras estampadas nos muros não são garranchos. São logotipos elaborados, que demandam muito treino para serem feitos e decifrados.” 

Tiago Mesquita, crítico de arte: “Muita coisa boa no mundo não é arte. Por que as pessoas acham que qualquer experiência expressiva precisa ser arte?”

PIXO na Fundação Cartier, em Paris, onde o filme fez parte da exposição “Né Dans La Rue”. PIXO na 29a Bienal de São Paulo, atacada por pixadores em 2008. “PIXO é arte da pobreza”, dispara a garota no documentário. A questão, claro, divide opiniões no circuito das galerias. Uns acham que sim: PIXO é arte. Para outros, não passa de “vandalismo”. O debate deixa outra pergunta no ar: será que estão tentando “capitalizar” o PIXO? 

João Wainer: “Existe o risco. Mas, se a sociedade passar a gostar da pixação, ela perde o sentido. O PIXO só existe porque é ilegal, gera ódio. Torço para que não seja incorporado.”

Em tempo: será que toda essa discussão ainda é válida num momento em que fazer “arte” é atividade cada vez mais voltada ao lucro e ao entretenimento?

PIXO, o filme, demorou dois anos para ser finalizado. Foi feito “na raça”, sem grana. E conta com imagens do acervo de Cripta Djan, que registrava suas ações e a de outros pixadores com uma câmera Hi-8. Esse material, explica Wainer, tornou o filme mais visceral, de dentro pra fora. “Djan captava imagens espontâneas, que nenhum outro cinegrafista conseguiria.”

O perigo de escalar prédios correndo o risco de despencar lá de cima move o pixador. Quanto maior o desafio, mais alto ele sobe para “tirar onda” daqueles que vivem sob a proteção de muros e grades. PIXO é provocação, disputa, visibilidade. E combina perfeitamente com a metrópole improvisada. 

João Wainer: “Enxergo São Paulo refletida no PIXO. A cidade é feia, agressiva, caótica, exatamente como são as pixações. O poeta Sérgio Vaz diz que São Paulo é feia e, como toda feia, trepa bem pra caralho. A beleza de São Paulo e a da pixação não são óbvias. Ao perceber isso, você passa a aceitar melhor a cidade em que vive e vê certo charme em sua feiura.”

Se o PIXO vai se manter como expressão de rua ou será “domesticado”, ninguém sabe. 

Com visão de mundo inversa, novos “combatentes” começam a surgir no horizonte. Em vez da avacalhação, preferem a conscientização. A pegada é a mesma: agir às escondidas na madrugada. É o que faz o Guerrilla Gardening, movimento que tem como objetivo plantar jardins não autorizados em espaços públicos. O PIXO quer destruir. Os “jardineiros” querem transformar. É da oposição entre essas duas forças que se definirá a nova linguagem urbana do futuro. 

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!

Nenhum comentário:

Postar um comentário