quinta-feira, 30 de setembro de 2010

TELENOVELA: UMA PAIXÃO NACIONAL

[Especial Telenovela - parte 1]

Que futebol que nada. A grande paixão nacional é a telenovela. Que outro produto é consumido por tanta gente, diariamente, por meses a fio, sem intervalo? E nem adianta vir com aquele papo de que a fórmula está desgastada. Se fosse verdade, “América” – uma das piores novelas de todos os tempos – não teria terminado seus dias com índices de audiência que ultrapassaram os 60 pontos. “Ti Ti Ti” e “Passione” não estariam na boca do povo. Nem a abusada TV Record estaria investindo tanto em teledramaturgia.

Faz tempo, o folhetim televisivo deixou de ser “coisa de mulher”. Hoje, “escraviza” a todos, sem distinção de classe, gênero, cor, religião ou idade. Aos detratores desse fino e requintado produto nacional, aqui vai um aviso: a telenovela já está enraizada na cultura brasileira, é melhor do que grande parte do cinema produzido por aqui e vai continuar rendendo ótimas histórias, personagens inesquecíveis e conversas fiadas. Popular sim. Mas quem disse que o que é popular é ruim? Só aqueles que adoram “frequentar” a fila do Espaço Unibanco de Cinema – um dos locais de aglomeração da jovem intelectualidade paulistana.

A origem da telenovela está na chamada literatura folhetinesca. Criado em 1836 por Émile de Girardin, dono do periódico “La Presse”, primeiro jornal a publicar um romance inteiro (“Le Rhin”, de Victor Hugo) em suas páginas, o folhetim (“feuilleton-roman”), além de alavancar as vendas das publicações, reestruturou a narrativa tradicional, ao prender a atenção dos leitores por meio de “ganchos” no final de cada capítulo publicado, mantendo-os curiosos sobre o que viria depois, como acontece até hoje nas telenovelas. É importante ressaltar que o surgimento do folhetim rompeu a barreira que existia entre alta literatura e literatura de massa. Mestres da palavra escrita como Honoré de Balzac (“A Comédia Humana”), Alexandre Dumas (“Os Três Mosqueteiros”), Gustave Flaubert (“Madame Bovary”), Charles Dickens (“Oliver Twist”) e o brasileiro Machado de Assis (“Quincas Borba”) dedicaram-se também às novelas seriadas – sem qualquer prejuízo à excepcional qualidade de suas obras literárias.

A passagem do folhetim para os meios eletrônicos aconteceu com a chegada do rádio. No Brasil, as radionovelas apareceram nos primeiros anos da década de 1940. No início, adaptadas de obras estrangeiras, como são os casos da mexicana “Em Busca da Felicidade” e da cubana “O Direito de Nascer”, transmitidas pela Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. Em 1947, a Rádio São Paulo apresentou “Fatalidade”, a primeira radionovela genuinamente brasileira, escrita por Oduvaldo Viana. “Cada cena era peculiar a cada ouvinte. Cada um, da sua maneira, dava rostos e figurinos aos personagens. Criavam seus próprios cenários, tendo, como únicos estímulos, a voz dos atores e a sonoplastia da produção”, escreve Wilma Morais no livro “Sonoras Imagens” (1987). Sucesso absoluto, as radionovelas chegavam a atingir 80% de audiência.

Enfim, a telenovela

A televisão foi inventada por acidente. Os cientistas estavam mais interessados em criar uma evolução técnica do princípio do telefone, com uma comunicação visual individualizada. Erraram nos cálculos e acabaram dando origem a um dos maiores fenômenos tecnológicos e culturais da história. É na TV – mais do que no jornal ou no rádio – que o romance em série encontrou morada definitiva. Com o auxílio das imagens, o que cabia à imaginação de cada um se tornou comum a todos. Bastava ligar a televisão e tudo estava ali, escancarado, decodificado, pronto para consumo imediato.

A primeira telenovela nacional, “Sua Vida me Pertence”, de autoria de Walter Foster, começou a ser transmitida, em São Paulo, pela TV Tupi, em dezembro de 1951 – apenas um ano e três meses depois da inauguração da televisão brasileira. Até o início de 1963, as telenovelas eram apresentadas “ao vivo” (ainda não havia o videotape), duas ou três vezes por semana, em capítulos com cerca de vinte minutos. Em julho desse mesmo ano, estreou a primeira telenovela diária da TV brasileira: “2-5499 Ocupado”, apresentada de segunda a sexta, às 20h, na TV Excelsior. Com roteiro do argentino Alberto Migré, a trama – protagonizada pelos embalsamados Gloria Menezes e Tarcísio Meira – contava a história de uma ex-presidiária que trabalha como telefonista e se apaixona pela voz de um desconhecido.

De lá para cá, a telenovela se transformou num dos mais rentáveis produtos de entretenimento da TV nacional. Só a colossal Rede Globo – 227 produções, segundo contas de Mauro Alencar, doutor em Telenovela pela USP – já exportou mais de 60 folhetins eletrônicos para cerca de 30 países. Um único capítulo de uma telenovela da mesma emissora chega a custar entre R$ 150 mil e R$ 200 mil. Girando nessa roda da fortuna, nós, telespectadores, vamos sendo engolidos, dia após dia, para dentro da telinha.

[Especial Telenovela]
Parte 4 - Química Perfeita 
Parte 5 - Autores

Nenhum comentário:

Postar um comentário