quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Terra estrangeira

Tokyo - Foto Ricardo Yamamoto

Tem japonês demais no Japão. Tantos que num determinado momento, já aborrecido com a entediante homogeneidade nipônica, eu até evitava me olhar no espelho. Acostumado à baderna étnica que é o Brasil, país de mestiçagens variadas – “paraíso racial”, como acreditam alguns – estranhei me ver replicado em cada rosto que surgia a minha frente. Não: os japoneses não são todos iguais. Sim: os japoneses – assim como outros povos asiáticos – têm características físicas que os tornam prontamente reconhecíveis e “parecidos”. É uma marca genética indisfarçável. Eu, por exemplo, sou brasileiro no RG e na desordem. Mas, se caio no samba, logo me identificam como “japonês”. Pior é quando me chamam de “chinês” ou “coreano”. Dá vontade de socar o sujeito!

Resignado com a minha “dupla identidade” no Brasil, fui para o Japão acreditando que na terra dos meus antepassados estaria “em casa”. Breve engano. Em poucos dias percebi que, apesar da minha aparência, sempre seria tratado e reconhecido como gaijin. Estrangeiro lá, “japonês” cá, permaneço com a incômoda sensação de que “nenhuma pátria me pariu”. E ainda tive que ouvir acusações contra os meus avós. Com história marcada por conflitos bélicos, o Japão passou por períodos barra-pesada. Para escapar da miséria, milhares de japoneses deram no pé. Aqueles que ficaram culpam os imigrantes de terem abandonado o Japão em um momento em que o país mais necessitava deles e, agora que o pior já passou, enviam seus filhos e netos de volta para se aproveitarem da bonança nipônica. Mal sabem eles dos perrengues que meus avós enfrentaram para se adaptar a uma cultura totalmente diferente, com outro idioma, novos valores e intolerantes manifestações de preconceito racial que hoje se escondem sob a festança que celebrou o centenário da imigração japonesa no Brasil. Para quem não sabe, já disseram que o japonês, entre outras ideias racistas, “é como enxofre: insolúvel”.

A VIAGEM

Foi pá-pum. Nem parei pra pensar. A ideia de ir para o Japão me pareceu providencial. Naquela época, com pouco mais de 20 anos, tudo que eu desejava era sair da casa dos meus pais – mesmo que para isso eu tivesse que me mudar para o outro lado do planeta. Foi o que fiz. E sem saber mais do que duas palavras em japonês. Sansei (neto de japoneses), tive pouco contato com meus avós e, pra ser honesto, nunca me interessei pela cultura nipônica. Meus pais não falam o idioma e, fora alguns pratos típicos que sempre fizeram parte das nossas refeições, nada lá em casa lembrava o Japão. Por isso, não se engane: nem todo “japonês” é inteligente ou tem o pinto pequeno.

Depois de horas estatelado no pau-de-arara da classe econômica, nem mesmo a expectativa de pisar pela primeira vez em um país estrangeiro foi capaz de levantar o meu ânimo. Ao aterrissar no aeroporto de Narita, em Tóquio, o Japão me pareceu qualquer coisa. Mas a mais desagradável das surpresas ainda estava por vir. Foi quando cheguei ao lugar onde eu iria morar por longos cinco anos. Chamada Akechi, a pequena cidade – quase uma vila – está localizada a duas horas de Nagoya, a terceira maior metrópole nipônica. Jogado nos confins do Japão, senti na pele o que é viver distante dos grandes centros, isolado entre montanhas e sem ter absolutamente nada para fazer nas horas de folga. Era 1991. Não havia nem internet nem Globo Internacional. E muito menos restaurantes especializados em comida brasileira. Regalias com que os dekasseguis de hoje podem contar para matar o tempo livre.

É isso. Embarquei para o Japão para ser dekassegui – palavra japonesa usada para designar aqueles que trabalham temporariamente fora do seu lugar de origem. Essa fuga de nipo-brasileiros para o Japão teve início na década de 1980 – período em que o Brasil andava mal das pernas e o Japão surgia como nova potência econômica. Sem mão-de-obra para sustentar o próprio crescimento, o governo japonês resolveu “importá-la”. Para isso, impôs apenas uma condição: só seriam aceitos descendentes de japoneses – e gaijins casados com descendentes (brecha que gerou dezenas de matrimônios de fachada). O que poucos sabem é que ninguém vira dekassegui por conta própria. Para conseguir um emprego no Japão é necessária a intermediação de uma agência aqui no Brasil, que custeia a viagem, determina onde vamos morar e trabalhar e “sequestra” os nossos passaportes até que as dívidas sejam pagas. Atualmente, com cerca de 350 mil brasileiros vivendo no Japão como dekasseguis, ficou mais fácil arrumar trabalho diretamente nas fábricas, sem a necessidade de “atravessadores”.

EXILADOS ECONÔMICOS

Ser dekassegui é ser um exilado econômico. Não há nenhum glamour ou aventura em atravessar meio mundo para realizar tarefas que qualquer idiota é capaz de cumprir usando apenas meia dúzia de neurônios. A maioria dos empregos é em linhas de montagem, onde a carga horária é de 8 a 12 horas por dia, seis dias por semana. Para juntar um dinheiro razoável é preciso fazer zangueo (hora extra). Ou seja, trabalhar as 12. Caso contrário, tudo que se ganha é gasto lá mesmo, com moradia, alimentação e quinquilharias eletrônicas. Para evitar o desperdício, os dekasseguis costumam enviar suas economias para o Brasil. Em 2007, essas remessas totalizaram US$ 647,4 milhões.

Exílio, ensina o Houaiss, é “expatriação forçada ou por livre escolha”. No meu caso, forçado pela falta de perspectivas profissionais, escolhi partir. Encarava minha temporada no Japão como um “atalho”, uma maneira mais rápida de alcançar o sonho pequeno-burguês da casa própria – desejo de 90% dos que vão para lá. Hoje penso que devia ter “perdido o juízo” num sushi-bar qualquer e caído na vida. Ao me preocupar demais com o futuro, desperdicei a chance de aproveitar melhor a viagem.

Não me adaptei. Essa é a verdade. Embora tenha permanecido cinco anos no Japão, sempre mantive certa distância da cultura local. Não me envolvia. A comida, o riso envergonhado das meninas, o idioma, o andar desengonçado, a ginástica obrigatória todas as manhãs, o preconceito, usar o banheiro de cócoras, a rigidez profissional, o café gelado (que tomei achando que fosse Coca-Cola), o lero-lero dos cinco “S” (seiri = utilização, seiton = ordem, seisou = limpeza, seiketsu = saúde e shitsuke = autodisciplina), tudo fazia com eu me sentisse “fora de lugar”. Há quem volte de lá com problemas de saúde – depressão, síndrome do pânico. Outros se encaixam tão bem aos costumes japoneses que não retornam mais. É como se diz por aí: “cada um, cada um”. Eu – mais torresmo do que tofu – posso dizer que nem gostei nem desgostei. Apenas fui.

PAPEL DE BALA

Morar fora expande a nossa visão de mundo. Foi a partir do momento em que voltei do Japão que comecei a enxergar o Brasil com olhos mais críticos e a questionar suas imperfeições. Depois de viver em um país onde as pessoas entendem conceitos como cidadania e respeito ao próximo, percebi o quanto estávamos – e ainda estamos – distantes do G8. O Japão não é perfeito. Tem lá seus problemas, como qualquer nação. Mas o Japão me ensinou algo fundamental e que nunca mais esqueci. Estava a poucos metros da casa onde morei em Akechi e joguei o papel de bala no chão. Um senhor de uns 70 anos parou na minha frente, olhou para mim com cara de enfezado e, com o dedo em riste, apontou para o papel de bala. Na hora saquei o que ele queria “dizer” e, envergonhado, me abaixei para apanhar o papel. Nunca mais joguei coisa alguma na rua. E nunca mais me arrisquei a habitar outros “planetas”. 

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!
 

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