quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Tô certo... Ou tô errado?

[Especial Telenovela - parte 3]

De Mauro Alencar, doutor em Telenovela pela USP: “Nenhum produto televisivo do mundo cria tantos comportamentos, modismos e expressões como a nossa telenovela”. Sim, o alcance desse produto cultural tão caceteado pela “inteligência” brasileira é real, imediato e irrestrito. Nesses mais de 50 anos de teledramaturgia, muitos são os momentos marcantes, aqueles que hoje fazem parte da nossa memória coletiva. “Tô certo... ou tô errado?”, perguntaria o inesquecível Sinhozinho Malta, balançando as pulseiras. Interpretado por Lima Duarte, o personagem da novela “Roque Santeiro” entrou para a história com o seu indefectível bordão. Assim como a espalhafatosa Viúva Porcina de Regina Duarte. Seu figurino – maquiagem exagerada, vestidos colantes e bijuterias extravagantes – foi copiado por centenas de telespectadoras.

Na história da teledramaturgia nacional, alguns bordões – como o de Sinhozinho Malta – acabam saindo das novelas e caem na boca do povo. A novela “O Clone”, de Glória Perez, foi recordista nesse quesito. “Né brinquedo não”, “Cada mergulho é um flash” e “Bom te ver” se popularizaram nas ruas. Telenovela também dita moda. Em 1978, as meias de lurex – fosforescentes, listradas, coloridíssimas – usadas por Sônia Braga em “Dancin’ Days” viraram febre entre as moças. Na verdade, a novela de Gilberto Braga lançou vários modismos. A boneca Pepa, companhia inseparável de Carminha (Pepita Rodrigues) vendeu 400 mil unidades; os vôos de asa-delta, praticado pelo personagem de Lauro Corona, ganharam adeptos em todo país; e o folhetim mereceu até reportagem na revista americana “Newsweek” sobre a influência que exercia sobre os hábitos de consumo do público.

Histórias de assassinatos

No capítulo 42 da novela “O Astro”, o personagem Salomão Hayalla (Dionísio Azevedo) foi assassinado. O país acompanhou por longos cinco meses os desdobramentos da trama criada por Janete Clair até parar – literalmente – para assistir ao último capítulo, quando foi revelada a identidade do assassino. Outro personagem que entrou para a história da teledramaturgia foi Odete Roitman. A vilã, interpretada por Beatriz Segall, na novela “Vale Tudo”, de Gilberto Braga, foi morta com três tiros à queima-roupa. O mistério sobre a autoria do crime durou apenas treze dias, mas mereceu a atenção geral da nação. Uma fabricante de caldo de galinha chegou a promover um concurso que premiava quem adivinhasse a identidade do assassino.

Em 1995, Silvio de Abreu levou esse recurso às últimas consequências. Em “A Próxima Vítima”, o autor criou uma trama de suspense em que, além do mistério sobre a identidade do assassino, o desafio colocado para o público era descobrir quem seria a próxima vítima. O último capítulo foi gravado meia hora antes de ir ao ar para evitar que o nome do culpado vazasse para a imprensa. De olho na comercialização do folhetim, a TV Globo criou outro desfecho para a telenovela, mas coerente com a trama.

Shazan e Xerife

Alguns personagens fizeram tanto sucesso entre o público que acabaram ganhando programas exclusivos. É o caso de Shazan e Xerife. A dupla apareceu na novela “O Primeiro Amor”, escrita por Walter Negrão em 1972. Interpretados por Paulo José e Flávio Migliaccio, os personagens voltaram um ano depois no seriado “Shazan, Xerife e Cia.”. Caso parecido aconteceu com Mário Fofoca (Luiz Gustavo). O personagem criado por Cassiano Gabus Mendes em 1982 para a novela “Elas por Elas” caiu nas graças do público e recebeu como prêmio um seriado todo seu. Transmitido aos domingos, a série, intitulada “Mário Fofoca”, não repetiu o sucesso que havia alcançado no folhetim.

Rejeição

Se alguns personagens agradam, outros acabam rejeitados pelo público, que chega a mudar de emissora e colocar a audiência da telenovela em risco. Aí o autor tem que se virar para arrumar um jeito de acertar os ponteiros da trama. Dois casos são exemplares. Em “Anastácia, A Mulher Sem Destino”, de 1967, a autora Janete Clair teve que inventar um furacão que eliminou boa parte do elenco. A partir daí, a história deu um salto de vinte anos e recomeçou com apenas quatro personagens originais. Mais recentemente, em 1999, Silvio de Abreu também foi obrigado a explodir um shopping center, em “Torre de Babel”, com o único objetivo de tirar da trama quatro personagens que não estavam agradando o público: o violento Agenor (Juca de Oliveira), o drogado Guilherme (Marcello Antony) e o casal de lésbicas Rafaela e Leila (Christiane Torloni e Silvia Pfeifer).

E por falar em homossexualidade, esse é tema sempre controverso quando incluído nos folhetins. A reação do público – pelo que já se viu nas muitas novelas que abordaram o assunto – nunca é igual. Sandrinho (André Gonçalves) e Jéferson (Luis Mendes), de “A Próxima Vítima”, foram apresentados em doses homeopáticas e não causaram problemas. Mesma situação das meninas Rafaela (Paula Picarelli) e Clara (Aline Moraes), de “Mulheres Apaixonadas”, novela de Manoel Carlos. Neste caso, a TV Globo encomendou pesquisa que comprovava a simpatia do público pelas personagens, desde que não houvesse cenas de beijo.

Beijo gay em telenovela. O tema voltou à carga com o personagem Junior (Bruno Gagliasso), de “América”, escrita por Glória Perez. Divulgado aos quatro ventos que a cena iria ao ar, no último momento a emissora “amarelou” e o anunciado “primeiro beijo gay da teledramaturgia brasileira” não aconteceu. De qualquer maneira, algum avanço já ocorreu. Se antes o público só aceitava personagens caricatos, hoje não é mais assim. E isso graças à ousadia de alguns autores.

Discussão de questões sociais

A telenovela é uma obra aberta. Isto é: vai sendo escrita à medida que é veiculada. Por isso, a trama constantemente sofre interferência dos telespectadores. Para a antropóloga Mirian Goldenberg, em entrevista para a revista “Época”, o maior trunfo do folhetim eletrônico tem sido trabalhar questões mal resolvidas na cultura brasileira. “A Globo tem consciência de seu alcance e o usa de forma positiva, trazendo à tona discussões como a emancipação da mulher, cujo marco é a série ‘Malu Mulher’ (1979), as drogas e a homossexualidade”, diz. É verdade. Desde que deixou de lado os dramalhões latinos, as telenovelas vêm metendo o dedo nas feridas que afligem a vida do brasileiro. O chamado merchandising social cresce – o que às vezes chateia, mas na maioria dos casos é bem-vindo.

Em “Explode Coração” (1996), Glória Perez chamou a atenção do país para o problema das crianças desaparecidas. A mesma autora falou das drogas em “O Clone” (2002) e de imigração ilegal e deficiência visual em “América” (2005). Outro pioneiro nas questões sociais, o autor Manoel Carlos aumentou as inscrições mensais de doação de medula de 90 para 200 ao falar de leucemia em “Laços de Família” (2000). Três anos depois, em “Mulheres Apaixonadas”, ele denunciou os maus-tratos aos idosos. A repercussão foi tanta que o Estatuto do Idoso, engavetado por seis anos, foi aprovado pelo Congresso Nacional.

Assim, a telenovela brasileira, mais do que apenas entreter, cumpre o papel de conscientizar o telespectador sobre questões ainda pendentes em nossa sociedade. Muitas vezes, derrapa. Mas é inegável a sua importância num país iletrado e culturalmente atrasado como o Brasil. Basta saber fazê-la. 

[Especial Telenovela]
Parte 4 - Química Perfeita 
Parte 5 - Autores

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