segunda-feira, 27 de setembro de 2010

VERA

Vera era uma enfermeira em consulta por causa de um sentimento crônico de depressão e uma auto-imagem muito baixa. Ela se via como “gorda e feia” – “nojenta”, chegou a dizer – ao passo que, objetivamente, era até atraente e seu peso estava bem dentro do razoável. Como era naturalmente engraçada e cativante, era evidente que sua auto-imagem estava muito distorcida. Enquanto a escutava, compreendi que essa imagem de seu corpo tinha deitado suas raízes alguns anos antes, durante os últimos meses de sua gravidez.

Vera lembrava-se com grande lucidez do dia em que estava brigando com o namorado, o pai de seu filho. Ela se queixava de que ele não passava mais tempo com ela. Ele dizia que estava “ocupado demais”, mas Vera sabia que ele estava mentindo e continuou a pressioná-lo. Finalmente o namorado cedeu e gritou que a “verdadeira” razão pela qual ele a estava evitando era esta: “Você está gorda demais; você é a coisa mais feia que eu já vi na vida!”.

Vera não pôde controlar as lágrimas. “Achei que tinha superado isso”, ela começou dizendo. Em outras circunstâncias, talvez tivesse sido capaz de se livrar do comentário do namorado com seu habitual bom humor. Talvez replicasse que ele não era nenhum Brad Pitt. Mas sua gravidez fora difícil; ela parou de trabalhar no início da gestação e não tinha certeza de que seria capaz de achar um novo emprego quando fosse a hora de voltar ao trabalho. Temia que Jack pudesse deixá-la logo após o nascimento da criança, exatamente como seu pai fizera com sua mãe. Vera se sentiu impotente e vulnerável. A combinação era suficiente para que aquele comentário tóxico tomasse a dimensão traumatizante que jamais deveria ter tomado. 

Curar: histórias reais - Vera | Sarah | Lilian | As crianças de Kosovo | Paulina  

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Do livro “Curar – O stress, a ansiedade e a depressão sem medicamento nem psicanálise”, David Servan-Schreiber, tradução Luis Manuel Louceiro, Sá Editora, 2004.

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