quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Viva a sociedade alternativa

Morador da Vila Yamaguishi - Foto Douglas Garcia

Dinheiro traz felicidade? Para um grupo de pessoas que mora numa vila agrícola no interior de São Paulo a resposta é um sonoro NÃO. Localizada no quilômetro 138 da rodovia Adhemar de Barros, entre os municípios de Jaguariúna e Holambra, a Vila Yamaguishi funciona de acordo com um sistema social e econômico próprio, que busca se distanciar o máximo possível da avareza implacável que move a “sociedade do consumo”. Segundo o veterinário Romeu Mattos Leite, um dos fundadores da vila, o sistema é baseado no convívio harmonioso entre as pessoas, com divisão igualitária de bens e tarefas, e onde essa tal felicidade é medida por critérios não monetários. Utopia? Nem tanto.

A placa que anuncia que chegamos à Vila Yamaguishi é bem discreta. A melhor referência para não errar o caminho é o motel que fica do outro lado da rodovia. De início, Romeu, responsável por nos apresentar o terreno com 60 hectares, demonstra certa desconfiança. Ele sabia que o tema desta ffwMAG! seria “crença” e, preocupado com as intenções deste repórter, logo deixa claro que não é integrante de nenhuma seita religiosa. Seita, com certeza, não. Mas a Vila Yamaguishi tem algo notável que combina com a proposta desta edição: é uma associação formada por pessoas que realmente acreditam que podem construir uma sociedade mais feliz. E acreditar em algo ou alguém, em termos religiosos ou não, define o que é “crença”. Por isso, vamos em frente: “A vila é um laboratório, um experimento”, explica Romeu. “Não propagamos nenhuma verdade. Não queremos convencer ninguém de que estamos certos. Apenas acreditamos que uma sociedade em que as pessoas são obrigadas a receber ordens, a obedecer hierarquias, gera muitas insatisfações”, opina o veterinário. Para escapar desse controle, Romeu e mais quatro amigos resolveram criar a Vila Yamaguishi seguindo princípios que fariam Adam Smith, o mais importante teórico do liberalismo econômico, se revirar no túmulo: “Nada deve ser feito contra a própria vontade”; “Vila de alegria e amizade onde não é preciso dinheiro”; “Não existem chefes, portanto não há ordens a serem obedecidas”.

Essa “sociedade ideal” não saiu da cabeça de Romeu nem de seus amigos. É invenção do japonês Miyozo Yamaguishi. Em 1956, esse agricultor com ideias anarquistas resolveu fundar uma associação baseada no equilíbrio entre a natureza e as ações humanas. Assim nasceu o Movimento Yamaguishismo, representado hoje por grupos que seguem os seus preceitos em países como Suíça, Alemanha, Estados Unidos, Coreia do Sul e Tailândia. No Japão, são mais de 40 vilas. E foi numa dessas vilas que Romeu e sua turma ficaram instalados durante dois anos. Ali, aprenderam que “é impossível ter felicidade completa enquanto houver pessoas infelizes” e, na volta ao Brasil, trouxeram na bagagem as ideias de Miyozo. Em 1988, era inaugurada a primeira e única Vila Yamaguishi no país.

OS OVOS DAS GALINHAS FELIZES

Atualmente vivem na vila 27 adultos e oito crianças. As casas, todas de paredes brancas com janelas verdes, simples e espaçosas, são comunitárias. Em uma delas, o casal Cristina e Pietro Bergamo e o filho, Eduardo, de 6 anos, dividem o mesmo espaço com outras duas famílias. Os dois conheceram o Yamaguishismo através de um curso realizado na vila. Acabaram ficando. “Quando comecei a faculdade de música, resolvemos nos mudar para São Paulo”, conta Pietro. Esse período de volta aos congestionamentos diários foi determinante para o casal. Eles perceberam que não havia mais fôlego para suportar a correria de cidade grande. Retornaram à vila e, de lá, não querem sair tão cedo. Músico formado, Pietro hoje trabalha com criação de galinhas. A agrônoma Cristina integra a equipe administrativa. Mesma ocupação da japonesa Nanako Minowa. Ela morava em uma Vila Yamaguishi no Japão, onde conheceu seu marido, o brasileiro Lúcio Shogo Minowa. Há 15 anos, decidiram vir para o Brasil. Nanako ainda se enrola um pouco com o português, mas seu jeito descontraído mostra que se adaptou bem ao clima dos trópicos. Numa comparação entre o Brasil e seu país de origem, é lacônica: “Diferentes”. E, com um sorriso brejeiro, define os brasileiros como “expansivos, alegres e um pouco irresponsáveis”. Boa observadora essa Nanako.

“Na Vila Yamaguishi, cada um faz o que quer, de acordo com suas aptidões e vontades”, afirma Romeu. Seguindo esse princípio, os moradores formam grupos de trabalho divididos por setores que eles chamam de órgãos: lavanderia, cozinha, escritório, criação de galinhas, plantações de verduras, legumes e frutas. A produção é vendida na região de Campinas e em São Paulo. E os lucros obtidos vão para um caixa único. Quando alguém precisa de dinheiro, vai lá e pega. Simples assim. Carros e computadores portáteis também são de uso comum. A vila ainda conta com o trabalho de 12 funcionários – mão de obra necessária para atender ao crescimento da demanda. Segundo Romeu, não há planos de expansão: “Queremos produzir apenas aquilo que seja suficiente para nos proporcionar algum conforto”. Por isso, um aviso: se o seu objetivo é enriquecer, passe longe da Vila Yamaguishi.

Além de uma organização social, digamos, “alternativa”, a vila recebe visitas monitoradas e é caso exemplar de agroecologia, ciência multidisciplinar criada na década de 1970 e que busca novas formas de relação entre sociedade e natureza. Lá, não se usam agrotóxicos nas plantações e as galinhas poedeiras se alimentam de ração orgânica. Tudo é natural. A grande variedade de legumes, verduras e folhas produzidas permite que se plante sem a necessidade de aplicação de “defensivos agrícolas”. No setor de avicultura, os ovos conquistaram boa fama. São conhecidos como “ovos das galinhas felizes”. E basta visitar o galinheiro para perceber que o método de criação é outro: as aves não ficam confinadas como nas granjas industriais. A vila também implantou um sistema chamado agrofloresta – cultura agrícola que combina árvores nativas com plantações que tenham valor econômico.

EM BUSCA DA FELICIDADE

Os moradores da vila se reúnem diariamente. De manhã, organizam as tarefas do dia. Ao anoitecer se encontram para discutir temas relacionados à convivência. É nessa hora que eles expressam seus descontentamentos e, a partir daí, buscam um consenso – difícil, mas imprescindível para que a associação se mantenha nessa busca constante pela felicidade.

A Vila Yamaguishi parece um microcosmo do comunismo, sistema econômico, político e social baseado na extinção da propriedade privada e sem diferenciação de classes. Em alguns aspectos, sim, a vila pende para a esquerda. Afinal, abomina o capitalismo tal qual ele é: cada um por si e Deus por todos. Mas há uma diferença fundamental: o respeito às individualidades. “Uma sociedade que não leva em conta que somos diferentes é uma sociedade que escraviza as pessoas”, argumenta Romeu. E, para quem acredita na teoria de que a história acabou quando o Muro de Berlim caiu, vale lembrar que são pessoas como Romeu e seus companheiros de roça que fazem o mundo se transformar. Idealistas, subversivos, atentos às questões atuais, eles, ao contrário de nós, têm coragem de acreditar que há um outro caminho além deste que nos conformamos em trilhar. Que caminho é esse? Cada um que escolha o seu.

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!

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