sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Viver é surfar o caos

Celebração do Santo Daime

Nem lembro mais qual foi o motivo que me levou até Rio Branco, a capital do Acre. Lembro apenas que, num dos dias que permaneci lá, me enfiei dentro de um carro, acompanhado de dois amigos, e fui parar em um centro religioso do Santo Daime. Era um barracão simples, com um amplo espaço, onde os daimistas, todos vestidos de branco, dançavam, oravam e cantavam hinos num ritmo repetitivo e hipnotizante. Foram 12 horas ininterruptas de um estranho ritual movido à ayahuasca.

Para quem não sabe, a ayahuasca é a bebida sagrada dos índios. Foi sob efeito desse alucinógeno poderoso que Mestre Irineu criou a doutrina do Santo Daime, baseada na cristianização das tradições indígenas e caboclas.

Durante o ritual, os daimistas, de hora em hora, se reabasteciam de ayahuasca para se manter de pé durante a interminável e exaustiva celebração.

Eu estava lá para experimentar a bebida cinzento-esverdeada de gosto bastante amargo. Tomei ayahuasca três vezes. E, nas três vezes, fui transportado para um mundo de cores e imagens indecifráveis. Não tive nenhuma visão, nenhuma revelação transcendental. Apenas “viajei” sei lá pra onde. Um dos meus amigos desistiu de tomar a bebida e contou que eu ficava tateando o ar com as mãos. Não! Eu estava tentando tocar as cores e as imagens que surgiam descontroladas na minha mente.

O efeito da ayahuasca dura uns 30 ou 40 minutos. Depois, você volta ao normal, como se nada tivesse acontecido. Em algumas pessoas, a bebida pode provocar vômitos. O legal é que, depois que as visões desaparecem, você lembra direitinho da incrível sensação de estar dentro de um sonho, flutuando e completamente desconectado da realidade.

Nunca mais voltei a Rio Branco, nem tomei ayahuasca. Mas, desde aquela noite, entendo caras que piram em alucinar. Timothy Leary, o guru do LSD, dizia que “viver é surfar o caos. Você não pode modificar a realidade, mas pode surfá-la”. Em manhãs doloridas em que me seguro para não me abandonar, tudo que eu queria era pegar essa onda novamente. Surfar o caos. Me desligar de mim. Meter um foda-se, tá ligado?

Vida real demais é um porre!

Nenhum comentário:

Postar um comentário