sábado, 23 de outubro de 2010

467 filmes “imperdíveis”

Cinéfilos de periquitas acesas: está em cartaz a 34a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. São 467 filmes espalhados por 22 salas e centros culturais da cidade. O evento permanece no Topic Trending paulistano durante duas semanas.

E o que são essas duas semanas? Longos dias de correria tresloucada para não perder o início do filme. Angústia. Ácidos gástricos em ebulição. Filas intermináveis. Pipoca. Blá-blá-blá cinematográfico. Terríveis dúvidas existenciais: Woody Allen ou Abbas Kiarostami? Amos Gitai ou Manoel de Oliveira?

Em recente pesquisa, 40% dos paulistas assumiram que não costumam ir ao cinema. Motivo principal: falta de interesse. Mas paulista não é paulistano. Paulista é araraquarense, piracicabano, “jeca tatu”. Paulistano não! Paulistano pertence à “categoria superior”, vive na cidade grande e consome a cidade grande iluminada barulhenta cosmopolita com gulodice compulsiva. Quer ser “culto”, ora bolas!

E quanto mais filmes da Mostra assistir, mais “culto” parecerá aos olhos bisbilhoteiros. Afinal, é isso o que importa em São Paulo: parecer “culto”, “inteligente”, “bem informado”. Para sobreviver na metrópole gabarola é preciso estar em vários espaços ao mesmo tempo, saber quem é o cineasta norueguês Bent Hamer (homenageado na Mostra) e, com sorriso triunfal, espalhar por aí que viu, sei lá, metade dos filmes da Mostra.

Até nisso São Paulo é competição. Até quando deveríamos apenas relaxar e nos divertir, competimos para saber quem assistiu mais, quem assistiu primeiro, quem entendeu o maior número de filmes.

Tanto fuxicam tanto pentelham que nos sentimos quase “obrigados” a participar. E se alguém diz que a algazarra cinéfila da Mostra não o interessa, recebe um “cala boca” zombeteiro. Na cabeça mole dos obsessivos-compulsivos-por-eventos-culturais, quem não participa se trumbica.

Como sou do tipo que prefiro qualidade em vez de quantidade, aconchego em vez de badalação, silêncio em vez de falatório, estou nem aí para a Mostra. Para mim, nenhum filme é “imperdível”. Já perdi tanta coisa mais importante ao longo da vida e continuo aqui, respirando sem ajuda de aparelhos.

O Woody Allen e seu novo filme que me desculpem, mas eu tô fora!

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