sábado, 2 de outubro de 2010

A Apple, o iPad e as espalhafatosas peruas

A applemaníaca

Na última edição da Campus Party, principal evento de tecnologia do país, fiz uma reportagem com nerds e geeks para a revista "ffwMAG!". Ao responder a uma das minhas perguntas – qual o gadget do momento? – a maioria citou o iPad, o tablet da Apple lançado no dia 3 de abril, nos Estados Unidos.

Outra vez, como sempre acontece quando a empresa de Steve Jobs aparece com um novo produto, houve correria de applemaníacos para adquirir o aparelho. E, outra vez, a mídia tratou de transformar o episódio em acontecimento cultural, noticiando o riso triunfal de quem comprou o computador portátil no exato instante em que ele chegava às prateleiras das lojas.

Nesse mundo de hiperconsumismo, já não basta comprar, é preciso estar entre os primeiros a comprar, numa corrida maluca por posse, poder e status.

Os produtos da Apple, mais do que qualquer outro, traduzem com perfeição essa disputa por visibilidade. Quem é dono de um iPhone, iPod ou iPad sente-se “diferenciado”, acima do resto dos mortais. Quer parecer atual, descolado, fashion. E que se dane se o aparelho é necessário ou não para suas atividades diárias. A utilidade, neste caso, cede lugar para a vaidade. “Ter para mostrar” é o que realmente importa.

Ao transformar tecnologia em fetiche, Steve Jobs atiçou a compulsão consumista de pessoas que preferem transitar por um mundo de aparências. Seus produtos não são apenas produtos, mas símbolos de um “bom-gosto” acima de qualquer suspeita. É Apple, é ok, é belo, é imprescindível para a sobrevivência do “homem-anúncio itinerante”. Aquele que – como diz Drummond no poema “Eu, etiqueta” – nega sua identidade para andar na moda e pede para que o seu nome retifiquem: "Já não me convém o título de homem / meu nome novo é Coisa".

Tanto hype, no entanto, pode enjoar. Ou afastar aqueles que percebem a armadilha da ostentação. Pensando estar abafando com seu iPad novinho, os exibicionistas correm o risco de serem confundidos com espalhafatosas peruas, dessas que não saem de casa sem um penduricalho extra.

Não é bem essa a ideia por trás do "design inovador e elegante" da Apple, é? 

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