sexta-feira, 8 de outubro de 2010

As garotas do calendário

Terry Richardson e modelo do Calendário Pirelli 2010

Pode-se analisar a evolução dos padrões de beleza feminina durante o século 20 por diversos meios. Nos últimos quarenta anos, essa transformação foi registrada com elegância e ousadia pela mais famosa folhinha do planeta: o Calendário Pirelli - ou "The Cal", no original em inglês. Por suas folhas passaram as mais belas modelos e atrizes dos mais diferentes países, clicadas por fotógrafos de renome, como o peruano Mario Testino e o norte-americano Richard Avedon. Assim, com o passar dos anos, o calendário virou referência no universo da moda e conquistou prestígio mundial, tornando-se verdadeiro objeto do desejo.

Apesar de a marca Pirelli ter origem e matriz italianas, a primeira versão do calendário surgiu em Londres, em 1963. Em busca de uma nova estratégia de marketing, a filial inglesa da companhia lançou uma folhinha promocional para distribuir para seus clientes. O calendário fez tanto sucesso que no ano seguinte a empresa resolveu editá-lo anualmente. Clicadas em Mallorca, Espanha, por Robert Freeman - o fotógrafo dos Beatles - as modelos Jane Lumb e Sonny Freeman Drane inauguraram oficialmente a primeira edição internacional do "The Cal", em 1964. De lá para cá, o calendário já soma 37 edições e é distribuído apenas para clientes especiais, colecionadores e formadores de opinião. Simples mortais, babem.

Entre os anos de 1975 e 1983, o calendário não foi lançado. A Guerra do Kippur, entre Israel e Egito, em 1973, fez com que as nações árabes que faziam parte da OPEP cancelassem a exportação do produto para os Estados Unidos e países da Europa que apoiavam os israelenses. A crise atingiu, em cheio, a economia mundial e, consequentemente, a Pirelli e dezenas de outras companhias.

Nos dez anos anteriores, o Calendário Pirelli cumpriu o papel de registrar em suas folhas o que era moda naquela época. Tendo como trilha sonora o rock de Beatles e Rolling Stones, modelos e atrizes encarnaram o espírito transgressor do período. E alguns fotógrafos aproveitaram para inovar, quebrando regras estabelecidas, como Harry Pecanotti que, em 1969, fotografou pela primeira vez as modelos em "imagens naturais", sem poses - algo até então inaceitável em catálogos de moda.

Nos anos posteriores à crise do petróleo, quando a Pirelli teve que interromper o lançamento do calendário por nove anos, várias outras inovações estéticas aconteceram e a "publicação" se estabeleceu como referência. Em 1984, ano de reestreia do calendário, o fotógrafo alemão Uwe Ommer buscou inspiração no principal produto da empresa ao clicar modelos ao lado de rastros de pneus estilizados. As fotos foram feitas nas Bahamas. Três anos depois, Terrence Donovan criou o primeiro calendário dedicado exclusivamente à beleza negra. Entre as modelos que posaram para o fotógrafo estava Naomi Campbell, na época com apenas 16 anos. No ano seguinte, ao lado de três modelos femininas, o primeiro homem é fotografado para o calendário. E, em 1990, em homenagem aos Jogos Olímpicos, foi lançada a primeira edição em preto-e-branco.

Ali no início da década de 1990, o mundo da moda já era dominado pelas "supermodelos", e a folhinha acompanhou de perto essa transformação. Em 1994, tops poderosas como Cindy Crawford e Kate Moss, clicadas por Herb Ritts, ilustraram as folhas do "The Cal". Um ano depois, Richard Avedon inova ao produzir um dos mais pirados calendários da Pirelli. Inspirado pelas quatro estações do ano, ele fotografou modelos com cabelos esvoaçantes, em meio a "vendavais" e "efeitos especiais" que, mais tarde, se tornariam comuns em ensaios fotográficos.

A chegada do novo século e a consolidação do circo da moda como indústria deu ainda mais fôlego para o calendário. Annie Leibovitz, Mario Testino e Bruce Weber estão entre os fotógrafos que já trabalharam para a folhinha nesta nova fase. Em 2004, no aniversário de 40 anos da publicação, o britânico Nick Knight escolheu como tema a tecnologia. Baseado em entrevistas feitas com personalidades femininas (Björk, Catherine Deneuve, Marianne Faithful, Courtney Love, entre outras), o fotógrafo produziu cada ensaio associado às ideias expressadas por essas mulheres. O resultado são imagens com cores vibrantes, numa mistura inspirada de fotografia tradicional e arte digital.

Gisele Bündchen, Mariana Weickert, Fernanda Tavares, Ana Cláudia Michels e Isabeli Fontana são algumas modelos brasileiras que já estamparam as folhas do Calendário Pirelli. Em 2005, em comemoração aos 75 anos de atuação da empresa no Brasil, a Pirelli prozudiu a folhinha em território nacional. Fotografadas pelo francês Patrick Demarchelier, trezes modelos (Adriana Lima, Liliane Ferrarezi, Isabeli Fontana, Naomi Campbell, Michelle Buswell e Diana Dondoe, entre outras) posaram em locações no Rio de Janeiro. A folhinha de 2006 é assinada pela dupla de fotógrafos anglo-turca Mert Alas e Marcus Piggot, especializados em moda. Entre as modelos, Giselle Bündchen, Kate Moss, Natalia Vadianova e Karen Elson, além da atriz Jennifer Lopez.

Em 2007, o casal de fotógrafos holandeses Inez van Lamsweerde e Winoodth Matadin clicou atrizes como Sophia Loren, Penélope Cruz, Naomi Watts e Hilary Swank. Pela primeira vez ambientado num país asiático, o calendário de 2008 foi fotografado por Patrick Demarchelier em Xangai, com a presença da brasileira Carol Trentini. No ano seguinte, o tema do calendário foi o meio ambiente, com fotos feitas em Botsuana, na África, pelo fotógrafo Peter Beard, que morou durante trinta anos no Quênia.

Em 2010, o escolhido para clicar as modelos foi Terry Richardson: “Eu prefiro as garotas naturais e não faço retoques, deixo os defeitos que não tiram a beleza.”

Bem distante daquelas vulgares folhinhas de borracharia, o tradicional Calendário Pirelli registra as mais belas mulheres do momento em imagens que misturam beleza, sensualidade e moda. Com qualidade artística acima de qualquer suspeita, a “publicação” é um colírio para os olhos. 

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