terça-feira, 5 de outubro de 2010

A bruxa está solta

"A Bruxa de Blair"

Eis o que nos fizeram crer as histórias infantis: bruxas são criaturas narigudas, de pele encarquilhada e voz de travesti. Voam montadas em vassouras, usam chapéu em forma de cone e criam poções mágicas capazes de transformar príncipe em príncipe Charles. Mas bem diferente do que reza o maniqueísmo moralista contido nos livros infantis, bruxas não são necessariamente más nem velhotas descabeladas. Fossem assim, beldades como Nicole Kidman e Sandra Bullock jamais poderiam ter interpretado o papel de magas em “Da Magia à Sedução”, e Harry Potter, o bruxinho que já enfeitiçou milhares de leitores ao redor do mundo, não estaria nem aí para as malvadezas do vilão Voldemort.

O problema é que a palavra “bruxa” - do grego brouchos = larva de borboleta - continua carregada de maus agouros, e não deixa dúvidas quanto ao seu significado no imaginário popular. Segundo o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa: 1) mulher que faz bruxarias; feiticeira, maga, mágica; 2) mulher feia e/ou rabugenta, bruaca, canhão, carcaça, coruja, cuca, jabiraca, entre outros sinônimos pouco lisonjeiros. No folclore goiano, acrescenta o Dicionário, bruxa é a última das sete filhas de um mesmo casal que, ao não ser batizada pela irmã mais velha, vira coruja, e, à noite, entra pelo telhado e pelas janelas para chupar o sangue de crianças. Essa imagem pouco amistosa que hoje temos das bruxas é consequência de séculos de perseguição. Sim, a magia fascina e amedronta, por isso o melhor a fazer, segundo acreditam os "senhores da razão", é extinguir aqueles que supostamente são donos de alguma "varinha com poderes mágicos". Vamos à história.

Caça as bruxas

Vida de bruxa, como se sabe, nunca foi fácil. E quando o papa Gregório IX, em 1233, instituiu a tal da Inquisição, que perseguia, torturava e jogava na fogueira gente contrária aos dogmas da sempre intransigente Igreja Católica, caçar bruxas virou o "esporte" preferido dos europeus. Pior: essa "obsessão" contra as bruxas teve seu auge não durante a truculenta e supersticiosa Idade Média, mas em período posterior, já na Idade Moderna. Para se ter uma ideia do que foi aquela festa estranha com gente esquisita, “O Martelo das Bruxas”, livro escrito pelos monges alemães Heinrich Kramer e Jakob Sprenger, um tipo de manual padrão que ensinava como identificar, torturar e extorquir confissões de mulheres acusadas de bruxaria, só foi publicado em 1487, período inicial do Renascimento, a chamada Idade da Razão. O livro teve inúmeras edições e intensificou a caça às bruxas no continente europeu entre os anos de 1550 e 1650.

O curioso é que um dos fatos marcantes e mais conhecidos daquela barbárie toda tenha ocorrido fora da Europa, na pequena Salem, cidade localizada no estado de Massachusetts, Estados Unidos. Em janeiro de 1692, algumas raparigas do vilarejo adoeceram. William Griggs, médico local, foi chamado para curá-las. Sem saber a causa da doença, atribuiu o mal à bruxaria, o que desencadeou uma onda de denúncias que resultou na prisão de mais de cem mulheres. Dezenove morreram e outras tantas passaram o resto da vida na cadeia. Há um bom filme sobre o episódio - “As Bruxas de Salem” -, inspirado na peça homônima do dramaturgo Arthur Miller, e com Winona Ryder e Daniel Day-Lewis nos papéis principais. Vale observar que o cinema e, principalmente, as histórias infantis sempre usaram e abusaram do significado mítico das bruxas. Ou seja, na grande maioria das vezes, as feiticeiras são retratadas como seres horripilantes e cheias de intenções malévolas.

No Brasil, dezenas de mulheres também foram parar na fogueira, acusadas de bruxaria. Entre elas, a francesa Mima Reinard, em 1692, por “enfeitiçar” os homens; Ursulina de Jesus, em 1754, por “retirar” a fertilidade do marido; e Maria da Conceição, em 1798, por preparar remédios naturais e poções que “atraíam” espécimes do sexo oposto. Diante desses exemplos do que os inquisidores acreditavam ser “bruxaria”, é impossível não concordar com o que disse Albert Einstein sobre as constantes derrapadas desta bizarrice que chamamos de humanidade: “Só duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana, e quanto ao universo, eu não tenho certeza”.

Culto ao demônio

Bruxa, dizem as bruxas, é gente do bem. E se, de fato, cultuaram o “demônio”, como afirma o livro “Culto a Satã e Missa Negra”, de Gerhardt Zacharias, não era com o intuito de fazer mal a ninguém, mas uma maneira de reagir à discriminação religiosa e social, e também à repressão sexual, que determinavam o papel secundário das mulheres nas sociedades da época. Sob efeito de alucinógenos, realizavam reuniões com jantares festivos, orgias eróticas e "vôos mágicos" com a vassoura das bruxas.

Já o "sabá das bruxas", como eram chamadas algumas dessas reuniões, tem duas versões. Segundo a superstição medieval, era um encontro de bruxas, à meia-noite de sábado, sob a presidência do diabo. A outra versão diz que não passava de uma inofensiva reunião de homens e mulheres que conheciam os poderes terapêuticos de plantas e ervas para troca de ideias e discussão sobre questões profissionais.

Boas ou más, o certo é que as bruxas continuam soltas por aí. Em sua maioria, porém, sob nova denominação: Wicca, nome dado à bruxaria moderna, que mistura em um mesmo caldeirão várias formas de “magia branca”. Ou seja, “rituais” em que os objetivos, entre outros, são a cura psíquica ou física, o crescimento espiritual e a harmonização pessoal. Bem de acordo com as “necessidades” atuais, a bruxaria, antes tão temida, parece ter virado modalidade de “terapia alternativa”. E se este é o caso, as belas e bem-intencionadas que me desculpem, mas bruxa que é bruxa tem que ter pelo menos uma pitadinha de Malévola em sua misteriosa natureza.

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