segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A compaixão pelos animais

Cerveja em animais empalhados

Caramba! A primeira década do século 21 se foi e tem gente (gente?!) que ainda parece viver na Idade Média. E olha que não sou do tipo que fico indignado à toa. Para mim, o ser humano é e sempre será um completo idiota capaz de qualquer barbaridade para se dar bem. Mas essa foi demais!

Fiquei sabendo por meio da “Superinteressante”. Para chamar a atenção para a cerveja que estão lançando, dois jovens escoceses tiveram a “brilhante ideia” de comercializar o produto dentro de ANIMAIS EMPALHADOS.

Puta que o pariu! Que porra de ideia é essa?!

Queriam provocar polêmica? Ok, conseguiram. Mas isso não é um típico caso de antimarketing? Ou será que existem consumidores que vão achar “engraçadinho” beber uma cerveja que vem dentro de arminhos e esquilos mortos?

Sim, existem pessoas que não se importam.

E, para essas pessoas, eu aplicaria a seguinte sentença: morte por apedrejamento – a pior condenação possível. 

Aos dois jovens escoceses: morte por apedrejamento! 

Como escreveu o filósofo Arthur Schopenhauer: “A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e pode-se afirmar seguramente que, quem é cruel com os animais, não pode ser um bom homem.” 

Por isso, àqueles que maltratam animais: morte por apedrejamento!

**********

Abaixo, em homenagem ao Dia Mundial dos Animais, comemorado nesta segunda, 4 de outubro, reproduzo texto de Rafaella Chuahy publicado originalmente na revista ffwMAG! Chuahy é autora do livro “Manifesto pelos Direitos dos Animais”, 2009, editora Record.

O texto é longo, mas, para quem se importa, vale a leitura. 

ELES SENTEM MEDO E DOR

Não se pensa na liberdade e nos direitos dos animais porque isso desafia o nosso conforto social, colocando em dúvida certos princípios que há séculos se tornaram cotidianos na tradição ocidental. Descartes, no século XVII, através da tese mecanicista, já justificava experimentos com animais, excluindo-os de qualquer consideração moral e propagando a aceitação do seu uso como propriedade. Criou-se, então, um sistema judiciário e cultural que fortalece essa percepção, colocando o homem como centro do mundo e dominador de tudo aquilo que está a seu redor.

Hoje, é essa a mentalidade de uma indústria que extermina 50 bilhões de animais por ano, usando-os como entretenimento, comida, roupa etc. As modernas fazendas-fábricas, que substituíram fazendas de porte pequeno nos anos 1970, cometem torturas indescritíveis. O foie gras, por exemplo, já produzido no Brasil, resulta da alimentação forçada de patos e gansos. Os animais ficam confinados em gaiolas pequenas e são forçados a comer através de um tubo colocado diretamente na sua garganta e conectado a um sistema de pressão que empurra a comida com objetivo de engordar seu fígado. A pressão é tão forte que, às vezes, chega a romper seus órgãos internos, causando tanta dor que os impede de ficar em pé.

A mídia costuma retratar os defensores dos animais como pessoas radicais, excessivamente emotivas, pouco práticas e modistas. No entanto, o movimento pelos direitos dos animais tem raízes solidificadas tanto na emoção e na compaixão como na razão e na lógica. É importante mostrar que a causa animal é munida de princípios que definem o que é ser humano e o nosso lugar na natureza. Assim, venho abordar uma questão fundamental: por que os animais têm direito à liberdade?

Para responder a essa pergunta, primeiro defino liberdade como a ausência de submissão, de servidão e de determinação, devendo ser aplicada a todos os seres sencientes (capazes de sofrer). Dessa forma, aqueles que têm capacidade física ou psíquica de sofrer devem ser incluídos na esfera moral, tradicionalmente reduzida aos seres humanos. Também devem ter resguardados os direitos inatos ao seu bem-estar, sua liberdade física e seu interesse pela vida.

A segunda tarefa, então, é provar a capacidade dos animais de sentir dor. Hoje, mediante vários estudos, já se pode provar que animais vertebrados sentem dor. O mecanismo utilizado em animais para detectar a dor é parecido com o nosso, assim como a parte do cérebro que processa o sentimento de dor e o comportamento do animal ao sentir desconforto. Cientistas também concordam que sentir dor faz parte do processo de evolução biológica, nos protegendo contra perigos e ajudando em nossa sobrevivência. Outros estudos também medem a dor emocional do animal. Pesquisadores concordam que pelo menos cachorros, gatos, pássaros e macacos entram em depressão, sentem ansiedade e apresentam comportamentos similares ao humano como anorexia e falta de motivação.

Há os que discordam que a dor seja razão suficiente para lhes dar certos direitos e argumentam a falta de inteligência ou consciência do animal. Donos de animais de estimação há muito tempo já perceberam a ingenuidade de seus companheiros, mas hoje há evidências de que muitos animais raciocinam, em diferentes níveis. Donald Griffin, o grande pioneiro no campo da etologia cognitiva, afirma que mesmo os animais considerados mais primitivos podem ter consciência. Há mais de 30 anos, o biólogo relata a capacidade de certos animais de se adaptarem a desafios novos, apresentarem versatilidade em suas reações, aproveitarem experiências passadas e se comunicarem. Tudo isso constata uma consciência evidente. Afirma também que atualmente não há nenhuma prova mostrando algo único no cérebro humano responsável por sua consciência.

De qualquer maneira, a inteligência não é pré-requisito para a liberdade. O filósofo Peter Singer argumenta que um bebê ou um deficiente mental não apresentam uma grande inteligência ou métodos de comunicação elaborados, entretanto existem leis que os protegem. Por que então é moralmente correto submeter macacos a testes de laboratório e não um deficiente mental, cujo nível de inteligência é o mesmo? Nós sabemos que crianças e deficientes, por serem mais vulneráveis, devem ser protegidos por leis estritas. No entanto, em vez de reforçarmos também as leis contra o abuso aos animais, fazemos exatamente o contrário, privando-os de qualquer defesa. Singer compara o tratamento dos animais ao racismo europeu na época dos escravos. Os europeus não se importavam com a dor que os escravos negros sentiam, pois o interesse da raça branca sempre prevalecia. Hoje, procedemos da mesma forma com relação aos animais. Em vez de racismo, praticamos o “especismo”.

Outro argumento usado para o uso e abuso do animal é o seu benefício no campo das pesquisas. Calcula-se que hoje morram entre 70 e 100 milhões de animais em laboratórios. Cães, gatos, macacos, ratos, coelhos e vários outros são utilizados em experiências nas áreas da genética e da estética, descobertas de novos remédios, tratamentos, vacinas e em universidades. O teste Draize, por exemplo, utilizado pela indústria de cosméticos e de limpeza, consiste em colocar uma solução ou substância sólida do cosmético que está sendo testado, em forma concentrada, nos olhos ou na pele de coelhos. Quando as substâncias químicas são injetadas em seus olhos, os coelhos pulam, choram e se contorcem de dor. Para evitar que esfreguem os olhos e retirem a substância, eles são presos em compartimentos onde não podem se mexer – exceto a cabeça, única parte do corpo visível. Às vezes é necessário até o uso de clipes de metal para que as pálpebras sejam forçadas a ficarem permanentemente abertas. Nos dias que se sucedem ao teste, observa-se então as reações causadas, com a finalidade de vender um produto de qualidade. O sofrimento do animal é absolutamente irrelevante.

Além da indústria da beleza, os animais servem de cobaia em vários outros tipos de experimentos. São utilizados na área de psicologia para testes de comportamento e de aprendizagem. É comum provocar medo no animal e deixá-lo estressado para estudar sua reação. Colocá-lo isolado para estudar mudanças em seu comportamento ou usar choques elétricos como método de aprendizagem. Eles também são usados em testes para medir a radiação de armas químicas e biológicas. Na área de aprendizado, são submetidos a cirurgias e outras experiências.

Atualmente, existem divergências entre os grupos de proteção do animal em relação ao uso de animais em laboratórios. Alguns defendem a completa eliminação da prática. Outros, entretanto, aprovam a sua atuação em testes específicos para vacinas, mas não em testes para cosméticos ou para comportamento. De qualquer maneira, há uma unanimidade no que diz respeito à inadequação do seu uso excessivo.

Vários testes alternativos já foram criados e aperfeiçoados. Testes in vitro (realizados em tecidos e células vivas), utilização de vegetais, simulações em computador, modelos matemáticos, estudos feitos em voluntários humanos, técnicas físico-químicas (como a tomografia), estudos microbiológicos e estudos em cadáveres. Mas o maior problema não é a falta de tecnologia, e sim de incentivo econômico para as companhias farmacêuticas e químicas utilizarem outros testes ou procurarem novas alternativas. Os animais continuam sendo as principais cobaias, pois esse tipo de pesquisa é a mais fácil e a mais barata. Quando falamos sobre a vivisseção, a pergunta certa não é: “Quanto as pesquisas com animais beneficiam a maioria da sociedade?”; e sim: “Quanto as pesquisas importantes, e que só podem ser feitas em animais, beneficiam a maioria da sociedade?”.

Finalmente, as grandes propagadoras da escravidão animal são as agroindústrias. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, principalmente em países ricos, houve uma dramática transformação no setor agropecuário, devido a novas tecnologias, prosperidade e aumento do consumo de alimentos. Nos anos 1970, houve um considerável crescimento na área de fast-food. Grandes companhias, como o McDonald’s, com o objetivo de baixarem o custo, começaram a comprar carne de alguns poucos grandes fornecedores, em vez de vários pequenos fazendeiros. Assim, as fazendas de porte pequeno faliram e outras se agruparam, tornando-se grandes fábricas. Hoje, apenas algumas enormes fazendas modernas, já estruturadas como agroindústrias onde são criados principalmente porcos, galinhas e vacas, fornecem a maioria da carne e laticínios vendidos em países industrializados.

O objetivo das fazendas-fábricas é produzir a maior quantidade de carne, leite e ovos da forma mais rápida e barata possível. Funcionam como uma fábrica de carros, onde quase tudo é automatizado para baixar o custo da mão de obra. Os animais são confinados, marcados com ferro em brasa, presos com cordas para ficarem imóveis, castrados sem nenhuma anestesia, eletrocutados, mutilados e forçados a tomar hormônios e outras substâncias que lhes causam desconforto. Eles sofrem constante dor, ansiedade, medo, desespero, revolta e até canibalismo. O pesadelo começa nas fazendas e segue até os matadouros ou abatedouros. Para diminuir os custos, os fazendeiros colocam o maior número possível de animais em caminhões para transporte. Apertados nesses caminhões, eles passam horas sobre excrementos, sem comida, luz, ar ou água.

Por causa do grande número de animais confinados em pequenos espaços, da imundície do lugar e, consequentemente, da alta probabilidade de doenças, os fazendeiros usam grandes quantidades de pesticidas e antibióticos nos animais – essas substâncias permanecem no corpo dos animais e são transmitidas para as pessoas que ingerem sua carne, gerando problemas de saúde e baixa defesa imunológica. A Organização Mundial de Saúde e a Associação Americana de Medicina já publicaram relatórios apoiando o fim da prática de dar antibióticos aos animais.

Para entendermos melhor até que ponto chega a ganância da indústria, é só olhar para o tratamento dado aos empregados das fazendas e matadouros. Assim como os animais, eles são tratados como unidades econômicas e meras fontes de renda, recebendo baixíssimos salários e sob risco constante de acidentes. Nos Estados Unidos, o número de acidentes envolvendo trabalhadores de abatedouros é três vezes maior do que numa fábrica americana comum. Além disso, os empregados trabalham entre 50 e 60 horas por semana em lugares fechados, sendo diariamente expostos a produtos químicos com alta periculosidade: pesticidas e amônia, além de bactérias, fungos e gases vindos das fezes dos animais, sulfato de hidrogênio, doenças e animais mortos.

A obsessão pelo ganho financeiro leva à desvalorização da vida – seja ela humana ou não. É importante não só respeitar os direitos dos animais, mas mudar as ações humanas, baseadas unicamente em lucro rápido. É necessário uma avaliação de nossa estrutura ética, moral e cultural. Dar liberdade e certos direitos aos animais nos capacita a mudar nossas atitudes diante dos outros, humanos ou não. Ensinar uma criança a não jogar pedra numa pomba, respeitando-a, faz com que ela cresça sabendo que não temos o direito de sacrificar outros seres vivos para satisfazer nossos desejos, prazeres, luxo ou conveniência. Uma criança que aprende a respeitar e valorizar a vida de um animal crescerá com um maior entendimento sobre o valor da vida, seja ela qual for.

Qualquer teoria moral defende a noção do “princípio de igualdade de consideração” (regra segundo a qual devemos tratar de modo igual os casos semelhantes). A libertação do animais é oportuna e a justificativa de abuso ao animal, baseada em sua falta de inteligência ou pouca inteligência, não tem o menor fundamento. Sua sensibilidade, inteligência e capacidade emocional, ou mesmo apenas a sua capacidade de sofrer, já são suficientes para exigirmos que eles sejam tratados com dignidade e que a eles seja dada a liberdade que merecem.

Um comentário: