terça-feira, 19 de outubro de 2010

Crime & Castigo

Milhem Cortaz em "Carandiru"

Soube por meio de uma reportagem apresentada pelo “Fantástico”, da TV Globo, que Anna Carolina Jatobá virou evangélica. Ela e Alexandre Nardoni foram condenados por matar a menina Isabella. Outra que se converteu dentro da cadeia foi Suzane von Richthofen, a garota que assassinou os próprios pais com golpes de barras de ferro e foi condenada a 39 anos de prisão.

Muitos duvidam dessa “religiosidade repentina” dos detentos. Afirmam que é fingimento, encenação. Não crêem na recuperação e/ou conversão de “gente ruim” que mata com “requintes de crueldade”. Não sei se esse é o caso de Anna Carolina e Suzane. Mas acredito no arrependimento. Em “Crime e Castigo”, o escritor russo Fiodor Dostoievski narra o calvário psicológico de Raskolnikov depois de cometer um duplo assassinato. O que lhe corrói a alma não é a possibilidade de ir para a cadeia, mas a sua consciência – consciência que produz a culpa; culpa que o leva ao arrependimento; arrependimento que o conduz à redenção.

Talvez seja exatamente essa busca por redenção que faça muitos assassinos “se aproximarem de Deus”, numa tentativa desesperada de sossegar a culpa que os consome e, assim, alcançar “o reino dos céus”. Assistimos isso no filme “Carandiru”, retratado pelo personagem Peixeira (Milhem Cortaz). Matador de aluguel, ele procura alívio entre os evangélicos da prisão para a sua alma atormentada por terríveis visões.

Oportunistas como sempre, as igrejas encontraram nos presídios um lugar perfeito para arrebanhar novos fiéis. Confinados entre quatro paredes, sem opções de lazer e com tempo livre de sobra, os condenados acabam por aceitar “as palavras do Senhor” com mais facilidade. E se, de fato, “descobrirem Deus”, vão descobrir também o pecado e a culpa. Não duvido que daí venha o arrependimento. “A consciência é como vesícula, a gente só se preocupa com ela quando dói”, escreveu Stanislaw Ponte Preta.

Para que ninguém me entenda mal, repito: não sei se esse é o caso de Anna Carolina e Suzane. Não tenho permissão nem vontade de livrá-las do castigo que merecem. Segundo os noticiários, as duas frequentam cultos, fazem orações e se comportam com discrição dentro da cadeia. Estão arrependidas? Isso só a consciência de cada uma pode responder. Sem Deus, agiram como se não houvesse crime nem pecado – e tudo era permitido. Com Deus, podem descobrir que a dor da culpa é mil vezes pior do que cem anos de prisão.

3 comentários:

  1. Muito bacana seu texto, Marcos!
    Sempre com referências e bem escrito ;)
    Acredito, sim, que as pessoas se arrependem, mas que nenhuma religião pode salvá-las de toda essa culpa.
    Beijão, se cuida! =****

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