terça-feira, 12 de outubro de 2010

Em carne viva

Vício em sofrer

Querida Isa...

O mundo está um pouco mais ensolarado depois que comecei a tomar o antidepressivo Êxodus receitado pelo psquiatra.

É um sol entre nuvens – ora intenso, ora esmaecido por uma “frente fria” que chega de repente e insiste em congelar os meus dedos.

O que me acalma neste momento turbulento de transição é sentir que a luz desse sol hesitante vem se insinuando pelas frestas da janela do meu quarto, de mansinho, quase pedindo licença para entrar.

Talvez, ao engolir mais alguns comprimidos de oxalato de escitalopram, eu escancare de vez os meus sorrisos e deixe o sol me iluminar por inteiro. Quem sabe, Isa, quem sabe...

Por enquanto, ainda me sinto mais confortável à meia-luz, na quietude da madrugada, carregando as minhas aflições de um canto para o outro no bolso da calça.

É como um “vício em sofrer”.

Acostumado a conviver com essa dor incessante que parece entranhada na minha natureza desajustada, não consigo abandoná-la ao primeiro sinal de melhora.

Ainda preciso dessa dor para me sentir em “carne viva”, atento, ligado à realidade que me cerca. Será o medo de me tornar um “idiota feliz” que me faz resistir aos efeitos tranquilizantes do antidepressivo?

Ah, Isa, hoje eu sei que “é melhor ser alegre que ser triste”. Mas depois de anos armazenando um bocado de tristeza dentro de mim, acho normal que demore um tempo até eu conseguir me descarregar desse peso.

Infelizmente, não há mágica possível. Apenas uma urgente vontade de ser feliz antes que seja tarde demais. Com paciência, acho que a gente chega lá.

4 comentários:

  1. Muito, muito, muito obrigada pelo post, Marcos! Nem preciso dizer que fiquei super feliz com a sua atenção :D

    Concordo com você, quem já passou anos sofrendo com depressão se acostuma com a dor e fica meio viciado nela. Acho que a gente se culpa por ser feliz e continua se entregando, mas não pode.

    Esses dias, percebi que nem o remédio é capaz de curar a minha "depressão ambiental", aquela que nós mesmos provocamos, por um ou outro fato que aconteceu e que não foi legal. Até mesmo a atitude de uma pessoa é capaz de nos tornar depressivos por um dia inteiro, mesmo que isso seja 1% do que a vida toda representa.

    O que me preocupa não é apenas esperar anos de tratamento para tornar-se uma pessoa razoável, mas ter que encarar os efeitos colaterais da medicação. Sabemos que não são poucos, a curto prazo, você até escreveu sobre, mas e a longo? Se valer a pena, vamos em frente. Com paciência, é isso aí.

    Boa sorte pra você e felicidades! :D
    Beijão!

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  2. Oi...Hoje tomei minha segunda pílula de Exodus, depois de ter acreditado estar curada há 3 anos atrás, abandonei por conta própria o "comprimidinho da época". Resultado: além de não achar graça em nada, conflitava com comentários dizendo que "você está desanimada, isso logo passa..."
    Em julho deste ano recomecei o tratamento com outro medicamento depois de levar um "puxão de orelha" do psiquiatra, a bala da vez foi Maxapram. Feliz no primeiro mês, com uma paciência de Jó, tudo estava maravilhoso, mas novamente a ampulheta de alegria foi esvaziando...Fui apresentada ao Exodus e escrevendo este texto estou meio zzzonza, porém muito mais serena. Vamos ver daqui duas semanas.

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  3. É assim mesmo. No início do tratamento, as reações adversas são terríveis. Mas aguenta firme. Depois de duas semanas, esses efeitos passam e você se sente melhor. Boa sorte!

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  4. Eu precisava ler isso,uma amiga me mostrou e achei muito bom..
    Fiz tratamento com sertralina por 4 meses,mas minha psiquiatra trocou agora,estou aparentemente melhor,mas esses suadores que me dá,me deixa mal,tenho esperança que passe rápdo,pois quando eu estava tomando sertalina,tbm tinha,mas depois passou..
    Agora estou fazendo uso de Citalopram..

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