domingo, 17 de outubro de 2010

Eu sou aquilo que critico

Preconceito: quem não tem?

Vinha da avenida Aricanduva para entrar na Radial Leste, sentido centro. O semáforo fechou. Era quase 10 da noite. Percebi um rapaz negro se aproximando perigosamente do meu carro. Não, ele não se aproximava do meu carro. Estava apenas atravessando a rua. Mas não me contive: por segurança, subi o vidro do carro.

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Estava em um boteco no Arouche, quando ele entrou todo serelepe, magrinho, com a bunda empinada, cabelos descoloridos e trejeitos afeminados. Caminhou de uma ponta a outra do bar, como quem procurava alguém. Enfim, encontrou. Soltou um grito agudo e, com voz melosa, exclamou: “Ai, bicha, estou te procurando há horas!”. Olhei para JK com cara de reprovação e resmunguei: “Que horror!”

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Eu não queria duas meninas para trabalhar comigo, mas meu chefe, um velho babão safado, contratou duas meninas bonitas, recém-formadas em jornalismo, como minhas assistentes. Logo percebi o despreparo delas, com erros primários de português. Num dia de fúria, quando uma se revoltou contra mim, perdi a elegância: “Porra, garota, lugar de patricinha cabeça oca é no shopping! Vai pro shopping comprar sapato, vai!”

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Abomino o racismo, a homofobia, o sexismo. Mas, depois de refletir sobre as minhas reações nesses episódios que revelei aí em cima, concluo envergonhado que sou aquilo que critico. É como se esses preconceitos estivessem de tocaia no meu inconsciente, à espreita, prontos para se manifestar a qualquer vacilo meu. E é isso mesmo que acontece quando nos desconcentramos.

Em maior ou menor grau, acho que todos somos preconceituosos. São séculos de “lavagem cerebral”, de “catecismo” cruel e burro sobre a suposta inferioridade dos negros ou das mulheres, sobre a ideia torta de que os homossexuais são “coisa do Diabo” ou “doentes” que necessitam de “tratamento”.

Escapar desse bombardeio falacioso não é moleza. Quantos negros, mulheres e homossexuais – vítimas do preconceito mais mesquinho – não acabam se achando menos seres humanos porque os “verdadeiros” seres humanos (brancos/machos/reprodutores) os vêem como seres inferiores?

Li em algum lugar que “o preconceito está na maldade dos olhos de quem vê”. É a mais pura verdade. O inferno não são os outros, mas nós mesmos, que olhamos para o próximo apoiados exclusivamente nas nossas equivocadas convicções.

Existe apenas um jeito de combater o preconceito que existe dentro de cada um de nós: o policiamento constante. Antes de atirar pedra no seu vizinho porque ele tratou mal o porteiro pobre e preto do prédio onde você mora, é preciso vigiar com rigor as suas próprias reações quando, de repente, você é confrontado aos seus medos, à sua arrogância, às suas crenças.

É no susto, na surpresa, que costumamos revelar quem realmente somos: se tolerantes com quem é “diferente” de nós ou se furiosos botinudos de um grupo de extermínio que deseja varrer do mundo aqueles que os incomodam apenas por existirem.

Parafraseando Bernard Shaw, quem diz não ter preconceitos, odeia a todos igualmente. É mais honesto assumir os seus prenconceitos e fazer o impossível para "curá-los".

2 comentários:

  1. Me sinto uma anta as vezes! Odeio quando faço coisas assim...mas o caso das patricinhas eu apóio! hehehe

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