terça-feira, 19 de outubro de 2010

Gay, homossexual ou homoerótico?

Obra de Keith Haring

No Facebook, o Johann, depois de ler o post “Gay Contra Gay”, cismou com o termo “gay”. Segundo ele, “absurdamente preconceituoso” por descrever o homossexual como “alegre, saltitante, divertido, engraçado”. Ele considera o termo “abominável” e acha que “um grupo de pessoas que aceita e atende por um nome restritivo como ‘gay’ não está começando bem”. Johann acha “lésbica”, por exemplo, uma “palavra linda”, por remeter “a Lesbos, uma poeta”.

Em parte, concordo com o Johann. Se pensarmos no significado da palavra “gay” em inglês, percebemos que ela realmente nos enclausura no estereótipo mais comum do homossexual: “alegre, divertido, vistoso, brilhante, prazenteiro, festeiro”. E nem todo homossexual é uma “gazela saltitante”, certo, Johann?

Mas aqui está o X da questão. O termo “queer”, por exemplo, originalmente significa “estranho” e, na década de 1970, era usado nos Estados Unidos para ofender os homossexuais. Com o avanço da militância, o termo passou a ser usado pela comunidade homossexual com outro sentido: “diferente e singular”. O mesmo aconteceu com “gay”. Luis Mott, do Grupo Gay da Bahia, defende a permanência dos termos homossexual e gay. Acredita que evocam a historicidade ligada ao resgate e luta de sentidos propostos pelos movimentos norte-americano e brasileiro a partir das décadas de 1970 e 1980.

Na verdade, existe uma discussão tremenda sobre quais as nomenclaturas mais apropriadas para conceituar a comunidade LGBT: homossexual, gay, homoerótico, homoafetivo, homossexualismo, homossexualidade, homoerotismo ou homoafetividade.

No Brasil, até publicaram uma cartilha “proibindo” o uso de homossexualismo que, segundo o documento, “tem carga pejorativa ligada à crença de que a orientação homossexual seria uma doença, uma ideologia ou um movimento político”.

Acho essa discussão toda meio inútil. Afinal, não é o uso de uma palavra ou de outra que vai mudar a cabeça das pessoas. Por isso, concordo com o que diz o escritor José Silvério Trevisan: “Tanto faz utilizar os termos gay, homossexual ou homoerótico numa sociedade que ainda vê o homossexual como doente e anormal”. Outra coisa: é muito bom quando absorvemos um termo originalmente ofensivo e viramos o jogo, deixando os homofóbicos com “cara de tacho”.

Johann, o termo “gay” não é mais entendido no seu significado original há muito tempo. Virou denominação universal para definir um grupo específico da sociedade: os homossexuais. Na minha modesta opinião, não há nada de preconceituoso no termo. Muito pelo contrário. É a legitimação da nossa existência.

E, você, o que acha? Entre na discussão. Palpite. 

12 comentários:

  1. Muito bem sacado. Desculpe Johan, sabe que admiro muito você, mas tenho que concordar com o Marcos. A palavra gay perdeu o significado original. Concordo que ninguém quer ser esteriotipado por causa de uma palavrinha de 3 letras. Acho que 'queer', por exemplo, é muito mais ofensivo. Nos eua 'queer', 'faggot' seriam os nossos 'bichas' 'baitolas'....gay é universal, não creio que seja usado como ofensa, mas claro que existem exceções. O medo de um nome só faz aumentar o medo da própria coisa. Viajei? hehehe

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  2. "o termo “gay” não é mais entendido no seu significado original há muito tempo. "

    Veja bem, não acho que quem usa o termo gay seja preconceituoso. Acho o termo em si preconceituoso, é diferente. Nem tenho medo do nome em si. Às vezes até o uso em certas conversas só para não ficar aquele chato falando "estadunidense" em vez de americano (por mais que "americano" também me incomode).

    Mas eu não consigo evitar imaginar uma figura florida e saltitante (nada contra) ao ouvir a palavra "gay". Acho que é uma coisa pessoal mesmo. Não acho que ninguém deva se policiar para não usar o termo. Mas prefiro ser chamado de lésbica, acho mais poético, rsrsrs.

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  3. Aliás: palavras mudarem de significado é um fenômeno natural. "Formidável" antigamente era uma coisa pavorosa, assustadora. Hoje é algo sensacional, maravilhoso.

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  4. Finalizando:

    "É a legitimação da nossa existência."

    Aí discordo. Acho estranho legitimar um grupo com palavras originalmente ofensivas ou no mínimo restritivas (gay, queer etc.). Acho que isso sinaliza que se esperava e continua se esperando que o homossexual seja "diferente". Quando na verdade pessoas são pessoas, independente de nacionalidade, sexualidade etc.

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  5. sua interpretação foi muito formidável, johann hahaha... não adianta, os gays são preconceituosos com a própria 'espécie'...a discussão é longa. olha o exemplo mor de provincianismo 'cara, vc é efeminado? discreto?' #preguiça!

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  6. Johann, talvez eu esteja errado. Mas acho q as coisas só passam a existir no "mundo real" depois q elas são nomeadas. O peixe-boi, por exemplo, não existia, pelo menos para nós, seres humanos, antes de ser estudado e batizado. O mesmo acontece com os gays. Ao serem denominados "gays", deixaram de ser invisíveis, por isso a "legitimação".

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  7. Deus me livre de "gays discretos", rsrs.
    Eu concordo, Guinoza, que há um aspecto positivo e de legitimação através do nome. Por um lado não gosto do teor politicamente correto no discurso daqueles que policiam o linguajar alheio. Uma pessoa usar o verbo "judiar" não é necessariamente nazista, certo? Aliás, provavelmente NÃO será nazista. Então essa minha rejeição ao termo "gay" não é raivosa e nem de patrulha xiita. Posto isso, eu não uso o verbo "judiar", como não me sinto confortável com termo "gay" -- como aliás não me sinto nem um pouco representado pelas paradas gays (apesar de apoiar totalmente sua existência). O nome "gay" criou em torno de si toda uma cultura de guetos que não me interessa. Tenho preguiça da maioria dos rótulos associados à chamada "cultura gay". O que não me impede de gostar de Barbra Streisand e Madonna, de ter amigos ultramegahiperpintosas e tudo mais. Mas quando as pessoas vêm dizer (muitas dizem) "ah, vc não parece gay" eu respondo "e não sou mesmo. Ser casado há mais de uma década com um homem de fato não faz de mim um "gay".

    Só quero frisar que minha crítica não é xiita e não vejo nada demais no uso do termo, apesar de não me identificar com ele. Talvez o problema seja meu mesmo de não me identificar de verdade com nenhum grupo. #lobodaestepefeelings

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  8. Sem me ater à etimologia da palavra, vou-me aos pitacos despretenciosos:
    Entre a míriade de opções/definições oferecidas a que mais me apetece, sem dúvidas, é a expressão: "Gay". Não apenas pela universalidade dela (apesar de ser reticente quanto a estrangeirismos), mas muito pela sonoridade e principalmente por "sentir" a palavra como uma definição social, é como tirar a discussão da cama e ir para a vida cotidiana (divaguei?). As definições, mais sexuais e emocionais são muito excludentes do ser social e a palvra "gay" abarca comportamento e uma certa atitude afirmativa.

    Mas também não acredito ser a discussão das mais relevantes, penso que o livre uso dos termos não interfere na visão global do que é um ser Gay/Homossexual/Biba/Viado/Homoerótico/Lésbic@/Queer/Fresco... e afins.

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  9. Eu fecho com o termo "homo", assim como "hetero". Bem, eu particularmente me ligo muito no sentido (original) das palavras, talvez por trabalhar com elas.

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  10. Lesbos não é uma "poeta" é uma ilha onde a poeta Safo vivia.

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  11. Viu, Johann, o(a) anônimo(a) corrigiu a gente. Lesbos é uma ilha!

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  12. É verdade. Pior que eu já sabia, e paguei esse mico, rsrs. Mas no fogacho da narrativa acabei chamando de poeta a ilha da poeta.

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