segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Milionários falastrões

Milionários

Eu trabalhei para ELA durante uma semana. Fui demitido sem nenhuma explicação. Comecei na segunda e, na sexta, assim que cheguei no escritório – uma enorme e elegante casa em um bairro nobre de São Paulo –, a secretária me chamou, me deu um cheque com valor referente a ¼ do meu salário e, com expressão de tédio, falou que eu não precisava mais voltar.

Fiquei puto, claro. Mas, no caminho de casa, entendi que eu não pertencia àquele mundo de aparências. Minha função era escrever as colunas que ELA publica em um jornal. Seria uma espécie de “ghost writer” de madame.

O ambiente na mansão-escritório era melancólico. Trabalhávamos eu e outra jornalista que, assim que cheguei para o meu primeiro dia de trabalho, logo me avisou: ELA não permite música aqui. Agora imagine você passar oito horas por dia em uma sala imensa, toda branca, silenciosa e limpinha como galeria de arte? Eu me submeteria porque não sou bobo: o salário era bom. Mas, como disse, fui demitido sem saber até hoje o motivo.

Conto essa história porque li uma reportagem sobre ELA, onde ELA afirma que “o dinheiro pode atrapalhar a felicidade”. É bem fácil para alguém que tem muito, muito, muito dinheiro sair por aí falando coisas desse tipo. Todo milionário tem mania de “menosprezar” o que tem diante do incômodo da fome alheia. Afinal, não pega bem ostentar riqueza num país onde milhões vivem na pobreza do feijão com farinha, não é mesmo?

Mas pergunte a quem sobrevive com a grana do Bolsa Família se o dinheiro atrapalha a felicidade. Pergunte a quem sofre nas filas dos hospitais públicos se o dinheiro atrapalha a felicidade. Pergunte a quem se espreme no suador de um ônibus lotado se o dinheiro atrapalha a felicidade. Pergunte a quem trabalha 12 horas por dia para receber um salário mínimo no fim do mês se o dinheiro atrapalha a felicidade.

Não, não atrapalha. Muito pelo contrário. Se ter dinheiro não é certeza de felicidade, pelo menos ajudaria o coitado que não tem onde cair morto a ter uma vida mais digna.

Por isso, milionários falastrões, não me venham com esse papo furado de que o dinheiro pode atrapalhar a felicidade, enquanto passeiam com sua BMW à prova de pobres entre mortos e feridos de um país onde a desigualdade social é gritante.

Se o dinheiro está atrapalhando a sua felicidade, deposite sua fortuna – ou parte dela – na conta de quem necessita ou ajude o Brasil a progredir em vez de tentar se esconder sob essa atitude blasé de quem não está nem aí para o dinheiro que tem.

Antes de fingir "consciência social", coisa que nenhum milionário brasileiro tem, experimente ficar sem um tostão no bolso e saberá o que é penar por um prato de comida. E depois me diga se o dinheiro realmente atrapalha a felicidade?

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