terça-feira, 12 de outubro de 2010

Minha querida diarista

Mulheres no poder

Ela foi traída pelo marido. Sem pestanejar, deu um pé na bunda do safado. Não é mulher de baixar a cabeça. Nunca foi sustentada por ninguém. Trabalha para criar os três filhos numa quitinete onde não caberiam mais do que duas pessoas.

No aperto, a maranhense da pá virada segue em frente, intrépida, resolvida a virar a página. O marido safado desapareceu no mundo. Ela namora outro.

“Mulheres, na vida pública, precisam ter pele de rinoceronte”, disse Eleanor, mulher do ex-presidente norte-americano Franklin Roosevelt.

Acho que não apenas na vida pública, mas em qualquer situação cotidiana, as mulheres precisam ter “pele de rinoceronte”, o dobro de dentes, garras afiadas.

Eleanor, assim como a minha querida diarista, foi mulher de personalidade forte. Não engoliu as traições conjugais do marido. Estabeleceu que dormiriam em quartos separados, e seguiu suas próprias orientações sexuais sob o teto da Casa Branca.

Embora as mulheres estejam conquistando cada vez mais espaço e autonomia, não deve ser moleza, em pleno século 21, suportar a desconfiança dos machos ressabiados que ainda as avaliam segundo critérios meramente anatômicos.

Pior: há barbudos que ainda acham as mulheres menos capazes.

No programa “A Liga”, da Band, um grupo de “chifrudos” reunidos numa mesa de bar tripudiou sobre o papel das mulheres na sociedade, com comentários infames do tipo: “lugar de mulher é na cozinha”. Pensei que já tivéssemos superado “o homem de neanderthal”. Parece que não.

O comercial da cerveja Devassa, com Paris Hilton, é outro exemplo de picaretagem sexista, com dois idiotas de pau pequeno vibrando ao lado da “loura diaba” que nada faz além de usar a própria imagem de “mulher gostosa” como trampolim para a fama.

Quero deixar claro que não apoio as feministas bigodudas. São extremistas demais para o meu espírito conciliador. Mas admiro mulheres como Eleanor e a minha querida diarista. São mulheres “olho por olho, dente por dente”. Preferem gozar com o sabonete do que conviver com a “ejaculação precoce” dos trogloditas.

Próximo de, quem sabe, eleger a primeira mulher para a presidência da República, o Brasil tem a chance de experimentar um governo feminino, como já fizeram Chile, Libéria, Argentina e Alemanha.

Vale lembrar que, se Dilma for eleita, precisará corresponder às expectativas, saber que será duplamente cobrada (por ser mulher) e provar que tem competência para realizar um governo que, pelo menos, nada fique devendo aos anteriores. E tudo sem perder a feminilidade, o salto alto, as unhas pintadas. Porque se for para subir ao poder e agir com a mesma “truculência” masculina, tudo fica exatamente do jeito que sempre foi.

Ainda é cedo para afirmar que entramos em uma nova era, com as mulheres assumindo definitivamente o comando do “joystick”. Afinal, desde que o mundo é mundo, os homens sempre estiveram no topo da pirâmide social. E mudar esse cenário é processo demorado.

Por enquanto, saber que existem mulheres determinadas e valentes como a minha querida diarista me sossega o coração. Ela não sabe ler nem escrever, mas sabe que é capaz de se virar sozinha, sem ter que se submeter às cafajestadas do marido safado. 

Mulheres, não caiam nessa conversa fiada de que "um tapinha não dói". Dói sim! Mirem-se no exemplo da minha querida diarista e botem pra correr quem desdenha da sua capacidade de dar a volta por cima e seguir adiante.

Para mim, não há nada mais aconchegante do que um colo feminino.

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