domingo, 31 de outubro de 2010

Nem doce nem travessura

Halloween

Quando Carmen Miranda retornou de sua primeira turnê pelos EUA, em 1940, acusaram a cantora de ter voltado “americanizada”. Carmen respondeu aos críticos gravando um samba de Luiz Peixoto e Vicente Paiva: “Disseram que Eu Voltei Americanizada”.

Diz a letra: “Eu digo mesmo eu te amo/ e nunca I Love You/ Enquanto houver Brasil/ Na hora da comida/ Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu”.

Não sei se Carmen voltou “americanizada” como disseram. Era 1940... Eu nem existia. Mas sei que não é de hoje que a gente costuma baixar a cabeça para qualquer porcaria que vem lá dos Estados Unidos da América. Comemorar o Halloween, por exemplo, é apenas mais uma apropriação indevida (e um tanto ridícula) de tradição alheia.

Um coisa é assistir e se encantar com um filme de Clint Eastwood (a linguagem do cinema é universal), outra coisa, bem diferente, é botar máscara de monstro ou zumbi e macaquear uma festa norte-americana que nada tem a ver com Mula-Sem-Cabeça, Curupira ou Boitatá. Por fala nisso, alguém aí sabia que 31 de outubro – o Dia das Bruxas – é também o dia do "nosso" Saci Pererê?

Chama-se aculturação o processo de mudanças culturais de um grupo social sob a influência de outro. E os espertos ianques são bastante hábeis nisso. Em reportagem do “The New York Times”, soube que o Departamento de Estado norte-americano criou um novo programa, chamado “smART Power”, que tem como objetivo enviar artistas de lá para vários países. A ideia é que esses “artistas atuem como embaixadores culturais e mostrem às pessoas que os Estados Unidos são mais do que os filmes de Hollywood”.

Entendeu? Não é somente através da política, do comércio internacional e das guerras que se domina o outro. Acho até programas como o “smART Power” mais eficazes que esses outros meios, por exterminar na surdina com os valores tradicionais de determinada nação, “obrigando” essa nação a consumir BigMac, Mariah Carey e Mickey Mouse. Foi isso que os bárbaros portugueses fizeram com os índios. É isso que os petulantes norte-americanos sempre procuraram fazer com o planeta.

Quem acompanha O Idiota Feliz sabe que não sou de patriotices. O autoisolamento, para mim, é burrice. E o autoelogio das “maravilhas nacionais”, ingenuidade. O Brasil não é “o melhor lugar do mundo para se viver” nem a Ivete Sangalo, com seu sacolejo baiano, vai virar estrela internacional.

Há, porém, uma enooooorme diferença entre curtir Ramones, um ótimo “produto” norte-americano, e achar ok comemorar o Halloween como se estivesse em um "paradisíaco" subúrbio novaiorquino. 

Para esse Brazyl deslumbrado e vira-lata, nem doce nem travessura. Que tal um soco na fuça para esse povo criar vergonha na cara e aprender logo que nem tudo que é “estrangeiro” é melhor?

Vai chegar o dia em que ainda comemoraremos, na companhia do Tom Cruise e da Oprah, o 4 de Julho, o dia da independência norte-americana. Será?

Nenhum comentário:

Postar um comentário