sábado, 16 de outubro de 2010

No Brasil, o mal venceu

Cerejeiras no Japão

Primavera no Japão – As cerejeiras florescem e os apressados japoneses desaceleram para contemplar as flores. Essa tradição acontece há 18 séculos. Em grupos, eles fazem piquenique embaixo das árvores para celebrar a mudança de estação. Um dos símbolos do país, as flores das cerejeiras duram pouco mais de uma semana. Se chover forte, caem imediatamente. Para os japoneses, isso tem um significado filosófico. Mostra a brevidade da vida. Por isso, quando nos deparamos com coisas boas e belas, é preciso parar e aproveitar cada segundo.

Sábado de Aleluia no Brasil – Na tradicional festa de malhação de Judas, bonecos representando Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, condenados pela morte da menina Isabella, foram pendurados em postes e destruídos por adultos e crianças, em alusão à malhação de Judas, o apóstolo que traiu Jesus.

Esses dois “acontecimentos” foram noticiados pela TV. Na mesma noite, no mesmo telejornal. Ao ver as imagens das duas reportagens, percebe-se o quanto Brasil e Japão estão distantes – não apenas geograficamente. Enquanto os japoneses celebravam a vida; os selvagens celebravam a vingança e a morte. Enquanto, do outro lado do mundo, um país inteiro parava para admirar as flores que anunciavam a chegada da primavera; por aqui, a barbárie disfarçada de “brincadeira de criança” era comemorada com chutes, pontapés e pauladas.

Os dois episódios, colocados um diante do outro, dizem muito sobre o que somos. Brasileiros, ao contrário do que pensam os conformados, não sofrem da tal “síndrome de vira-lata”. Na verdade, acham-se superiores. Riem com escárnio das “babaquices” alheias. “Contemplar flores?! Que graça há nisso? Vamos espancar uns mendigos por aí!” De preferência, ao som do “rebolation” e na companhia do Marcelo Dourado.

As dificuldades de se viver em um país onde é preciso “matar um leão por dia” parece ter embrutecido a alma brasileira. Em meio à desordem e ao caos de todo dia, não há mais espaço para a poesia, o encantamento, a delicadeza, a contemplação. No Brasil, o mal venceu. Não apenas o mal extremo do assassino frio que atira a própria filha pela janela, mas principalmente o mal de quem acredita – ou finge – estar do lado bem. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário