quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Rentato Russo: as canções que você fez pra mim

Renato Russo

Renato Russo virou assunto tabu. Hoje, quem assume que curte o cara paga mico. Os “patrulheiros do bom gosto” olham torto. E citam dezenas de motivos para convencê-lo de que não é legal apreciar o autor de "Eduardo e Mônica". O principal, acho eu, é que Renato virou espécie de Raul Seixas, com seguidores que literalmente o idolatram. Uma turma que também me incomoda por cultuá-lo como se ele fosse um “messias”.

Deixo isso pra lá. Não cultuo Renato, nem Raul, nem ninguém. Apenas aproveito a reedição de luxo dos oito álbuns de estúdio da Legião Urbana para relembrar a banda do Renato e a época em que vivi as minhas primeiras descobertas. Era adolescente quando o rock nacional explodiu nas rádios. E, entre os muitos grupos que surgiram naquele período, a Legião foi a que mais combinou com as minhas incertezas e frustrações. "Acrilic on Canvas", "Ainda é Cedo", "Será", "Andrea Doria", "Que País é Este", "Quase Sem Querer", "Tempo Perdido" e um punhado de outras canções passaram a me acompanhar nessa complicada travessia entre a infância e a vida adulta.

"Daniel na Cova dos Leões" revelou muito sobre as minhas aflições.

Me amarrava nas melodias simples, no vozeirão do Renato, mas, principalmente, nas letras. Eram como se tivessem sido escritas especialmente para mim, descrevendo, com beleza (in)comum, o que experimentava naquele momento. Nesse sentido, posso dizer, Renato foi porta-voz dos meus mais profundos sentimentos. Xi, que coisa mais cafona! Pois é. Ouvindo as músicas hoje, sinto uma pontinha de vergonha por perceber o quanto algumas daquelas letras/canções eram exageradas, melosas, pueris. Havia gente melhor: Cazuza, Lobão, Júlio Barroso. Mas "quando o sol bateu na janela do meu quarto..."

A Legião lançou oito álbuns de estúdio entre 1985 e 1997 – "Legião Urbana", "Dois", "Que País é Este?", "As Quatro Estações", "V", "O Descobrimento do Brasil", "A Tempestade" e "Uma Outra Estação". Tenho todos, atualizados para o formato CD. Apesar do que escrevi acima, não posso simplesmente apagar da memória canções que embalaram os melhores/piores anos da minha vida. Se sentimental eu sou, pois bem, assumo. Claro que não ouço mais Legião. Me dói o ouvido. Apenas guardo os discos como lembranças anuviadas de um tempo em que eu era mais mais honesto comigo.  

Alguns amigos preferiam Picassos Falsos, Gang 90, Camisa de Vênus, Mercenárias. Eu, sozinho, trancado no meu quarto, com o encarte do álbum nas mãos, acompanhava a cantoria do Renato e, vinte e poucos anos depois, confesso: cheguei a chorar algumas vezes. Ninguém é perfeito!

"A Legião Urbana é os Beatles do Brasil." Hum, menos, né, senhor EMI. A Legião se foi. Renato morreu. E tudo que eu sinto é essa saudade daquilo que eu ainda não vi...

Um comentário:

  1. Confissão, ainda escuto aquela voz ímpar do renato, e Legião ainda caminha comigo. Não pratiquei o desapego,e "Andrea Doria" é fantástica.

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