quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sexo em movimento

[Especial Pornografia - parte 7]

Em 1895, os irmãos Lumière assombraram o mundo com a exibição de “A Saída dos Operários da Fábrica”. A partir dali, com a revolucionária invenção do cinema, a imagem ganhava movimento. E o sexo também. Apenas um ano após esse acontecimento histórico, alguns cineastas já utilizavam a novidade para fins sacanas. No início, os filmetes simplesmente mostravam mulheres tirando a roupa para a câmera. Ainda assim: um escândalo. O sucesso e o lucro dessas produções fizeram os diretores pensarem em algo ainda mais “estimulante”: filmes com cenas de sexo explícito.

Rodado em 1915, “A Free Ride” é a produção pornô mais antiga de que se tem notícia. O documentário “A History of Blue Movie”, de Alex de Renzy, parte desse filme para traçar a trajetória da pornografia no cinema americano. Na “trama” de “A Free Ride”, um rapaz dá carona para duas moças com quem, mais tarde, ele transa sob a sombra de uma árvore. Com duração que variava de 7 a 15 minutos, esses filmes foram produzidos, primeiramente, nos Estados Unidos, França e Argentina. Na tela, um repertório variado de “imoralidades”: sexo oral, lesbianismo, ménage-à-trois, entre outros. Mas logo os “beatos” perceberam o “perigo” de tais produções e trataram de proibi-las. O explícito cedeu lugar à insinuação. E os filmes “mais pesados” começaram a ser feitos na Suécia, onde a sacanagem era permitida.

Só na década de 1970 os filmes de sexo explícito voltaram a circular em alguns cinemas vagabundos. É desse período a produção pornô mais famosa de todos os tempos: “Garganta Profunda”, protagonizada pela gulosa Linda Lovelace. O sucesso comercial do filme, que custou US$ 25 mil e faturou cerca de US$ 600 milhões, transformou a “atriz” em celebridade mundial. Na trama – esdrúxula e divertida – Linda faz o papel de uma ex-engolidora de espadas que tem o clitóris na traquéia. Para resolver o “problema”, ela pega todo elenco masculino do filme. A história de “Garganta Profunda” virou documentário em 2004. Sob o título “Inside Deep Throat”, os cineastas Fenton Bailey e Randy Barbato mostram o impacto cultural causado pelo filme e como ele influenciou a revolução sexual que ocorria na época do seu lançamento.

Das picantes aventuras sexuais de Linda Lovelace até os dias atuais, o cinema pornô evoluiu e se transformou num dos mais rentáveis do mercado do entretenimento. Hoje, estima-se que a pornografia filmada – incluindo DVDs, fitas VHS e canais de TV a cabo dedicados a filmes de sexo explícito – movimente, por ano, cerca de US$ 15 bilhões. E como você deve ter percebido, o cinema foi excluído dessa matemática. Explico: com o surgimento do videocassete no começo dos anos de 1980, esse tipo de filme deixou as mal-cheirosas salas de cinema “para adultos” e foi parar definitivamente nas prateleiras das videolocadoras, onde estão entre os gêneros mais alugados. Foi o videocassete, esse “dinossauro”, o responsável pela consolidação da indústria dos vídeos pornôs.

Atualmente, no circuito comercial, nada de pornografia “hardcore”, só os chamados “filmes eróticos” – aqueles que abusam da nudez e das cenas de sexo, mas sem mostrá-los às claras. Alguns cineastas, no entanto, vêm extrapolando essa definição, incluindo cenas de hiper-realismo sexual em seus filmes – assim como fez em 1976 o japonês Nagisa Oshima em “O Império dos Sentidos” – e intensificando ainda mais a discussão entre o que é pornográfico e o que é erótico, o que é apelação e o que é arte. Com certeza, uma questão bastante controversa. O crítico francês André Bazin, um dos defensores do realismo no cinema, repudiava cenas sexuais. Dizia que, assim como a morte, sexo é algo íntimo, sagrado, que não se presta a ser filmado. Para Jean Baudrillard, a pornografia matou a sedução e o erotismo. De acordo com o pensador francês, “somos a cultura da ejaculação precoce”, em que prevalece “a instantaneidade do visual”.

Aqueles que repudiam a pornografia atentam para o que chamam de “banalidade do sexo” e afirmam que quanto mais explícitas as representações, menos eróticas elas o são. Pode até ser, mas a julgar pela quantidade de pornografia à disposição – na TV, nas bancas de jornal, nas videolocadoras e na internet – parece que ninguém está nteressado em teorizar o sexo e, sim, em vê-lo e experimentá-lo nos seus mais íntimos detalhes. E o cinema, ao longo de sua história, sempre soube como despertar a libido da platéia: do polêmico “O Último Tango em Paris” (1972), de Bernardo Bertolucci, ao polêmico “9 Canções” (2005), de Michael Winterbottom. O tempo passa e o sexo continua dando o que falar. 

[Especial Pornografia]
Parte 1 - A Invenção da Pornografia
Parte 2 - Sexo na Grécia Antiga
Parte 3 - Orgias Romanas
Parte 4 - Idade Média e Casta
Parte 5 - Os Libertinos
Parte 6 - A Nudez e a Fotografia
Parte 7 - Sexo em Movimento

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