terça-feira, 19 de outubro de 2010

Syd Barrett: Belo & Maldito

Syd Barrett. Foto Mick Rock

Nascido em Cambridge no dia 6 de janeiro de 1946, Syd Barrett é o principal responsável por um disco fundamental do rock psicodélico: "The Piper at the Gates of Dawn", álbum inaugural do Pink Floyd, gravado no Abbey Road Studios e lançado em 1967. Autor da maioria das canções, Syd era vocalista e guitarrista da banda que começou inspirada pelo rock de garagem dos anos 1960 e pelo rhythm’n’blues original. Mas, ao descobrirem as viagens de LSD, os garotos piraram e o som do grupo foi se diluindo em algo mais colorido e excitante, dando início ao período mais alucinado da capital inglesa: a Swinging London.

Roger Waters, Rick Wright e Nick Mason, os outros integrantes do Pink Floyd, seguraram a onda. Syd não. Enlouqueceu total. Nos shows, ele costumava parar de tocar e ficava encarando a platéia, calado. A banda, então, decidiu substituí-lo por David Gilmour. Nos primeiros anos sem Syd, o grupo custou a encontrar um estilo, o que só aconteceria mesmo com "The Dark Side of the Moon", lançado em 1973. Obra conceitual saída da cabeça de Roger Waters, o “disco do prisma” jogaria o Pink Floyd numa viagem interestelar e progressiva que, alguns anos mais tarde, seria interrompida bruscamente com o surgimento do punk. “I hate Pink Floyd”, lia-se na camiseta de Johnny Rotten.

Enquanto seu ex-grupo seguia rumo ao megaestrelato, transformando-se em uma das mais importantes bandas daquela época, Syd Barrett continuava em um isolamento quase ideológico. Chegou a gravar dois (cultuados) discos solo: "The Madcap Laughs" e "Barrett", ambos em 1970. Produzidos por David Gilmour, os álbuns mostram um artista irremediavelmente fora do mainstream. Nas gravações, Syd tocava violão e cantava suas composições, que depois eram completadas por outros músicos. De acordo com Gilmour, era impossível gravar junto com ele, porque Syd mudava a canção a cada tomada. “Acho que deliberadamente ele nunca tocava a mesma coisa duas vezes.”

Bonito, de aparência frágil e olhar intenso, Syd Barrett foi um sobrevivente dos anos desvairados que fizeram de Londres a capital mais sacudida do planeta. No início da década de 1970, ele voltou para Cambridge, vivendo recluso até morrer em 2006, provavelmente em decorrência de diabetes, maus tratos físicos e solidão. Durante todo esse tempo, permaneceu como uma figura mítica do rock. Sua última entrevista, realizada em 1971, foi concedida ao fotógrafo Mick Rock e publicada na revista "Rolling Stone". Amigo de Syd, de quem foi colega de quarto na faculdade, Mick registrou em ensaio fotográfico a rápida passagem do garoto lisérgico que bagunçou os conceitos do rock inglês com seus grooves psicodélicos e que se lançou de modo intensamente poético numa trip autoral, solitária e sem concessões ao mercado. 

“Nós somos renegados psicodélicos. Vivemos numa dimensão paralela, onde todo mundo é belo e espiritualmente livre” (Syd Barrett) 

Não sou uma pessoa fácil de entender. Tenho uma cabeça irregular. De qualquer maneira, não sou nada do que você pensa que eu sou” (Syd Barrett) 

Syd morava em um amplo espaço apenas com um colchão e um gravador. Ele era uma espécie de poeta boêmio maluco. Pelo menos era assim que eu o via” (Mick Rock) 

“Depois que deixou o Pink Floyd, Syd Barrett foi se isolando cada vez mais, tornando-se um usuário pesado de Mandrax, um barbitúrico que causava euforia e deixava a fala muito lenta” (Mick Rock)

A maioria das pessoas conhece Syd Barrett como o príncipe enlouquecido da psicodelia. Para mim, o que ficou dele foi o seu sorriso. Ele gostava de rir, e tinha um dos mais incríveis sorrisos que conheci” (Mick Rock)  

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!

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