quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Um cigarro de maconha e duas horas na prisão

Folha de maconha

Eu morava em Santos. Tinha 18 anos. Em Santos, como em qualquer cidade litorânea, local bom pra puxar fumo é na areia da praia, à noite, com o vento a despistar os vigilantes. Eu não era maconheiro. Era usuário esporádico. Mas, naquela longínqua noite de verão, me dei mal.

Estávamos eu e R. Fumamos um e guardamos o outro baseado para mais tarde. Tínhamos combinado de encontrar amigos em frente ao shopping. Ao seguirmos para lá, resolvemos cortar caminho por uma ruazinha escura e deserta. Quando estávamos na metade da rua, dois policiais apareceram do outro lado. Não havia como voltar. Deu no que deu. Os policiais nos encurralaram contra a parede e, naquela tradicional revista de apertar nossos sacos, encontraram o tal baseado.

Fomos algemados e levados para o camburão como bandidos. Com o intuito claro de nos humilhar, os policiais ainda nos deixaram plantados em meio à multidão aglomerada na frente de uma famosa danceteria da época. Todos olhavam para nós como se fôssemos marginais. Riam, comentavam, perguntavam-se o que aqueles dois moleques haviam feito para serem presos.

Dentro do camburão a sensação é perturbadora. Havia apenas uma minúscula janela por onde não se consegue enxergar nada. Queria ver para onde estávamos sendo levados. Essa era a minha preocupação. Vai que aqueles policiais estivessem numa noite ruim e quisessem exterminar uns babacas apenas por diversão.

Enfim, chegamos ao DP. Outro garoto veio junto com a gente no camburão. E nós três fomos enjaulados numa pequena cela fechada com um pesado portão de ferro. O outro garoto parecia acostumado com a cadeia. Sentou no fundo da cela, cerrou os olhos e relaxou. Eu e R ficamos em silêncio. E agora? O que aconteceria? Será que chamariam nossos pais?

Duas horas depois, um homem (não sei quem era) abriu a porta da cela e avisou que o delegado queria falar com a gente. Fomos até a sala dele. Lá, depois de ouvir um breve sermão sobre o mal que as drogas causam à juventude, o delegado, sorrindo, entregou nossas carteiras e pediu para verificarmos se estava tudo certo. Ao vasculhar a minha carteira, percebi que meu dinheiro havia sumido. Por um instante, quase reclamei. Mas me toquei que aquele era o preço da nossa liberdade.

Sabe quanto havia na minha carteira? R$ 50!

Falei para o delegado que estava tudo ok. R também. Saímos da delegacia aliviados.

Por causa de um único cigarro de maconha fui algemado, tratado como bandido, encarcerado por duas horas numa cela imunda e roubado por um delegado de merda. Desde aquela noite, sou a favor da descriminalização da maconha e de outras drogas. Desde aquela noite, também passei a desconfiar da polícia. Instituição em que há, sim, alguns brutamontes mal-educados com “sangue nos olhos”.

Minha prisão relâmpago não foi traumática nem nada. Mas me ajudou a enxergar o mundo e, principalmente, o Brasil com suspeita redobrada. Tem muito filho da puta por aí agindo em nome "do bem". Por isso, prefiro me abster. Inclusive das eleições presidenciais. Assim, se causo algum mal, causo mal apenas a mim mesmo. 

2 comentários:

  1. Que história fantástica. A gente sempre aprende com as experiências.

    Também sou a favor da descriminalização da maconha e de outras drogas. Se até quando são proibidas o pessoal usa, se for liberado, dará na mesma. E se o cara quer estragar o cérebro, problema dele, não é mesmo? Pena que, quando se trata de leis, aqui no Brasil é complicado demais ;)

    Beijos, Marcos! Até a próxima! =****

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  2. VC É QUEM FINANCIA ESSA MERDA PLAYBOY, JÁ DEVE TER OUVIDO ESSA FAMOSA FRASE, NÃO É?
    HÁ MUITA TRISTEZA PELO CAMINHO QUE SEU CIGARRINHO DE MACONHA FAZ ATÉ CHEGAR A VOCÊ... ESPERO QUE TENHAS AMADURECIDO E HOJE ENTENDA ISSO!

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