quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Videogame também é cultura

Video Gamers, de Phillip Toledano

Aos ranzinzas, um aviso: videogame também é cultura! E não adianta mais estereotipar os jogadores no intuito de diminuir a importância de uma atividade de entretenimento como outra qualquer: adolescentes abobalhados; geeks amantes de computadores; adultos que insistem em não amadurecer. Isso é puro preconceito de quem desconhece o assunto. Aproveitam o “hype” e, “marias vão com as outras”, atiram para todos os lados, culpando os jogos por qualquer desvio de conduta. A TV também já foi (e continua sendo) bastante criticada. Há pessoas que ainda a chamam de “babá eletrônica”. Esquecem que no Brasil a televisão é muito mais relevante do que o cinema nacional – considerado pela “intelligentsia” uma arte maior. Sim, o cinema, em alguns casos, pode ser mais “culto”. Mas assista, por exemplo, à “Guerra dos Rocha” (2008), com Ary Fontoura e elenco global, e veja o ABACAXI produzido com dinheiro público.

Assim como há filmes bons e ruins, existem games bons e ruins. Simples assim. E se os jogos ainda não atingiram níveis artísticos comparáveis às construções literárias de um Machado de Assis, à direção memorável de um Truffaut, também não se pode ignorar as suas qualidades: visuais gráficos cada vez mais inovadores, enredos que exigem do jogador raciocínio rápido, coordenação motora e senso de estratégia. E – por que não? – ótima diversão para as tardes chuvosas de domingo. Dostoievski e Mario Kart, a meu ver, podem conviver numa boa, sem que um anule o outro. Insistir numa separação rígida entre “alta” e “baixa cultura” em um momento histórico em que o pop e o erudito se misturam para o surgimento de algo novo parece coisa de gente que ficou presa ao século passado. Veja o caso de “Valsa com Bashir”, documentário do israelense Ari Folman: um dos piores massacres sofridos pelos palestinos em ritmo de desenho animado.

A violência de alguns jogos também é usada pelos críticos para depreciar os videogames. Muitos acreditam que esse tipo de jogo é o causador de tragédias como a de Columbine, ignorando fatores determinantes como, por exemplo, problemas psicológicos e a cultura da arma nos EUA. Há, sim, games que exageram na violência. Mas responsabilizá-los pelos males do mundo é um pouco demais!

Talvez os jogos, ao contrário do que pensam os patrulhadores, sirvam exatamente para catalisar nossas frustrações: em vez de sairmos por aí atirando à esmo, usamos o joystick para fuzilar alguns alienígenas e, assim, acalmar nossas angústias. É uma boa tese, mas deixo para os especialistas em psicologia humana.

NERVOS À FLOR DA PELE

Com o objetivo de avaliar o impacto que os videogames podem ter sobre as crianças, o fotojornalista Robbie Cooper resolveu registrar suas expressões enquanto jogam games considerados violentos: Halo 3, Grand Theft Auto IV e Call of Duty. O projeto, chamado “Immersion”, inclui uma pesquisa acadêmica realizada pelo Centro de Mídia da Universidade Bournemouth, na Grã-Bretanha, e deve estudar um grupo de 75 crianças escolhidas com base em seus perfis sócio-econômicos. Em entrevista para o jornal “The Sunday Telegraph”, Cooper disse que seu projeto não parte de nenhuma ideia pré-concebida: “É possível que haja uma ligação entre os jogos violentos e agressão social, mas é difícil dizer se os jogos são um fator importante nisso. Eu acho que muito do que se disse até hoje sobre o efeito da violência da mídia sobre as crianças não leva em consideração a formação psicológica de cada um.”

Algumas expressões já captadas por Cooper mostram crianças literalmente imersas nos jogos: olhos vidrados, bocas retorcidas, nervos à flor da pele. São imagens reveladoras, conseguidas por meio de uma técnica desenvolvida pelo documentarista americano Errol Morris e chamada “Interrotron”. Ao adaptar a técnica, Cooper instalou uma tela que transmite as imagens dos games entre a câmera fotográfica e as crianças. Assim, ao mesmo tempo em que jogam, as crianças olham diretamente para a lente da câmera.

Outro fotógrafo que registrou expressões de jogadores de games foi o inglês Phillip Toledano. Para “fotografar pessoas que revelassem cantos ocultos de suas personalidades”, ele as colocou para jogar videogame. Chamou o projeto de “Video Gamers” e conseguiu divertidas e inesperadas expressões de rostos distorcidos pela emoção causada pelos jogos.

Mais do que mero passatempo, o videogame hoje inspira trabalhos acadêmicos e artísticos, e influencia outras mídias – principalmente a música e o cinema. “Final Fantasy”, “Resident Evil” e “Alone in The Dark” são adaptações cinematográficas de jogos. E várias estrelas do pop-rock internacional têm canções em trilhas sonoras de games. Isso sem contar o fenômeno Guitar Hero. Feito com a ajuda de músicos como Dave Navarro, Slash e Gene Simmons, o jogo se tornou um sucesso instantâneo ao transformar os jogadores em “heróis da guitarra”. O Metallica, em ação pioneira na indústria da música, lançou seu mais recente álbum, “Death Magnetic”, em três formatos: CD, vinil e game (todas as canções do disco estão em uma versão do Guitar Hero dedicada ao grupo).

A indústria de jogos eletrônicos já movimenta mais dinheiro que a bilheteria dos cinemas, e títulos como Grand Theft Auto IV (recorde de produto de entretenimento mais vendido no dia do lançamento, com faturamento de US$ 310 milhões) estão se tornando referências culturais tão marcantes como alguns clássicos de Hollywood.

Este é apenas um exemplo da força de um setor que não pode ser desprezado e, muito menos, analisado de forma ligeira, preconceituosa e arrogante. Os videogames já fazem parte da nossa cultura globalizada. Estão aí para mudar comportamentos, ditar tendências e, quem sabe, revolucionar as artes. E se você acha que as crianças estão muito viciadas nos jogos, saiba que o problema não é o jogo, mas a ausência de limites. Tudo que é exagerado – até a leitura – bitola, desvia e confunde. Game over.

Texto publicado originalmente na revista SPOT.

Um comentário:

  1. Não é algo preso ao passado não. É a própria definição mais aceita sobre o que realmente é cultura. Vídeo game é cultura, mas baixa cultura. Pelo menos até o momento.

    ResponderExcluir