terça-feira, 9 de novembro de 2010

Baleias: porque sim e porque não

Foto da série "The Whale Hunt", de Jonathan Harris

Em maio de 2007, Jonathan Harris embarcou para Barrow, no extremo norte do Alasca. Passou nove dias na cidade. A viagem iniciava o projeto "The Whale Hunt", em que o designer norte-americano documentou a caça de baleias realizada por esquimós da etnia inupiat no oceano Ártico. “Estava buscando histórias épicas, e a caça de baleias me pareceu algo desse gênero.”

Sob temperatura de –22 oC, Harris permaneceu a maior parte dos dias acampado com os nativos, à espera das baleias. É na primavera, com o degelo do oceano, quando baleias da espécie bowhead rumam para o norte do Círculo Polar Ártico, que a caçada acontece. Arpões preparados, os esquimós apenas aguardam a aproximação de uma delas para abatê-la. O designer testemunhou a morte de duas. “São necessários 75 homens, em um trabalho que dura mais de uma hora, para retirar o animal da água.” Uma bowhead mede cerca de 36 metros e pesa 40 toneladas. Depois de abatida, a baleia é fatiada ali mesmo, sobre o gelo. E, como acontece há séculos, a carne e a gordura são distribuídas entre os habitantes de Barrow.

A aventura épica de Harris rendeu 3.214 imagens. Do táxi para o aeroporto de Newark, em Nova York, até o desmembramento da segunda baleia, sete dias depois, tudo foi registrado. As fotos foram tiradas a cada 5 minutos – inclusive à noite, com a ajuda de um disparador automático. Ao serem publicadas no site "The Whale Hunt", resultaram em inovadora narrativa on-line.

As imagens formam um mosaico em que o internauta pode acompanhar a viagem em ordem cronológica (cada foto contém data e hora) ou entrar no roteiro aleatoriamente. O fluxo das imagens segue o ritmo das batidas do coração e aumenta de frequência em situações mais tensas – com pico de 37 fotos em 5 minutos. “Apresento as imagens de uma maneira que permite mostrar a história toda.”

PEGADA PREDATÓRIA

A caça comercial de baleias é proibida desde 1986. A resolução foi estabelecida pela International Whaling Commission (IWC), única instituição mundial dedicada às baleias e única reconhecida pela ONU. Mas há exceções, como no caso dos inupiat. Por lei, esse povo que habita a costa ocidental do Alasca desde tempos pré-históricos podem matar até 22 baleias por ano. É caça de subsistência, sem fins comerciais, e que garante a sobrevivência de pessoas que vivem em um dos lugares mais inóspitos do planeta, onde não é possível plantar absolutamente nada e não há luz durante os três meses de inverno.

Ainda assim, algum ecochato pode reclamar. Pois bem, o aquecimento global já coloca em risco o estilo de vida dos povos do Ártico. O mar começa a engolir cidades inteiras, a espessura do gelo está cada vez mais fina e os depósitos naturais que conservam a carne estão desaparecendo. Parece piada, mas tem esquimó comprando freezer. E a caça de baleias pode se tornar inviável caso o gelo continue a derreter.

Quer chiar? Tenha como alvo os japoneses. Eles, sim, merecem repúdio mundial. Na resolução que proíbe a caça comercial de baleias existe uma cláusula que permite matá-las tendo como finalidade a pesquisa científica. É essa brecha que os japoneses usam para explicar o extermínio de aproximadamente mil espécies por ano. O documentário "A Enseada" (The Cove, 2009), de Louie Psihoyos, revela a artimanha nipônica para conseguir apoio dos membros da IWC e, assim, continuar com a matança: “O governo japonês e suas agências vão até pequenas nações falidas e lhes oferecem apoio financeiro, o que for preciso. Primeiro para fazer essas nações aderirem ao IWC e, depois, para elas votarem a favor do Japão. É assim que funciona a pesca de baleias no século XXI”. Os países que fazem parte do esquema são: Camboja, Equador, Eritreia, Guiné-Bissau, Kiribati, Laos, Ilhas Marshall, San Kitts & Nevis, Antigua e Barbuda, Granada, Granadinas e Santa Lúcia.

De acordo com o documentário, a Dominica, que se propaga ao mundo como um “pequeno paraíso ecológico”, deixou de integrar a máfia pesqueira japonesa. Mas é exemplo dos mais absurdos desse conluio de politicanalhas. Veja só: nessa pequena nação do Caribe existe um complexo de pesca avaliado em US$ 22 milhões usado pelos comerciantes locais para guardar frango importado. Entendeu? Nada a ver com baleias ou qualquer outro animal marinho. Então, o que fazia a Dominica na IWC? Simples: vendia-se.

Outra justificativa dos japoneses para convencer o mundo de que não fazem nada demais ao matar baleias beira o surreal. Eles culpam esses mamíferos – e também os golfinhos, outra vítima da barbárie nipônica – pelo declínio da pesca. Afirmam que esses animais estão consumindo grandes quantidades de peixes. Fala sério! É claro que a oferta de pescado vem diminuindo em ritmo acelerado, mas por ação direta do homem. Artigo publicado na revista "Science", em 2006, prevê o colapso total das reservas de pescado em 40 anos se a atividade pesqueira continuar nessa pegada predatória. E o Japão, para quem não sabe, controla o mercado mundial de peixes.

ARGUMENTO COVARDE

Foi o projeto inovador de Jonathan Harris que nos levou até as baleias. Pode-se até dizer que o seu "The Whale Hunt" é o "Moby Dick" (1851) do século XXI. Assim como o clássico do norte-americano Herman Melville (1819-1891), o projeto do designer narra a aventura de pescadores em sua luta para capturar o maior animal da Terra. A diferença é que, no lugar da palavra escrita, Harris utiliza imagens e uma plataforma que combina melhor com os novos tempos: a internet.

O problema é que a caça de baleias – mesmo a praticada pelos esquimós – continua a gerar discussão, tornando necessário contextualizar o tema. A liberação total e irrestrita da caça comercial é reivindicada não apenas pelo Japão, mas também por países como Noruega, Rússia, China e Coreia do Sul. Todos recorrem à tradição para justificar a carnificina. É argumento covarde. Agir por osmose não isenta o assassino de culpa.

Com arpões que levam cargas explosivas na ponta e navios equipados com instrumentos capazes de dilacerar uma baleia em menos de duas horas, os balaieiros reagem com fúria quando são contrariados. Em resposta à resolução que proibiu a caça de baleias, o Japão, no ano seguinte, matou milhares de golfinhos. Resquício da prepotência imperialista que, infelizmente, ainda contamina o espírito nipônico.

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!

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