terça-feira, 23 de novembro de 2010

Dor elegante

"Quem não vive tem medo da morte"

Na “Carta Capital”, Pedro Alexandre Sanches escreve sobre Itamar Assumpção. No texto, intitulado “O Intérprete do Não”, Sanches transcreve vários trechos de canções do compositor morto em 2003. Lembrei de DOR ELEGANTE:

“Um homem com uma dor/ é muito mais elegante/ Carrega o peso da dor/ como se portasse medalhas/ uma coroa/ um milhão de dólares/ ou coisa que os valha/ Ópios, edens, analgésicos/ não me toquem nessa dor/ ela é tudo que me sobra/ sofrer vai ser/ a minha última obra”.

Lindo isso, não? E triste...

Tristeza que une aqueles que vivem na “Terra dos Zumbis Felizes”.

Amiga virtual, ela entrou em contato comigo para falar sobre a sua DOR. Uma DOR que nos conecta. DOR invisível, fugidia, fantasmagórica. Se fosse fratura exposta, bastava um remendo. Se fosse loucura, bastava o hospício. Mas é DOR que dói em silêncio, sem sangue nem ossos quebrados. E só quem carrega o seu peso é capaz de identificá-la.

Trocamos mensagens. Tentamos compartilhar nossas dores a fim de exorcizá-las. Sou depressivo. Ela é eufórica. Extremidades de uma mesma DOR com nomes diferentes: depressão, ansiedade, síndrome do pânico, transtorno afetivo bipolar...

Não sei se “um homem com uma dor é muito mais elegante”, como cantou Itamar Assumpção. Mas, ao contrário dele, preciso de “ópios, edens, analgésicos” capazes de domar essa DOR que me morde por dentro. Ela também. E outros leitores que desembarcam neste blog em busca de “socorro”.

Tomo Êxodus, o tal oxalato de escitalopram. Terei que tomá-lo a vida inteira? Talvez sim. Demorei para reconhecer minha DOR como doença. Achava a melancolia bonita e poética, algo que me mantinha à distância segura da alegria bundalelê das dançarinas de axé. Era uma DOR ELEGANTE, europeia, discreta. Mas DOR é DOR. E chega um momento em que não mais a suportamos.

Fracassei? Talvez. Mas ainda bem que existem remédios que podem reverter esse fracasso em esperança de dias melhores. Hoje, estou bem. Não corro o risco de cortar os pulsos nem me envergonho mais do meu sofrimento. Afinal, quem não os têm? 

"Entre o sim e o não existe um vão", cantava Itamar. É nesse vão que eu me enfio agora para lembrar sempre que "quem não vive tem medo da morte".

Ei, amiga, vamos nessa?

Um comentário:

  1. Tomo uma substância com nome elegantemente complexo, parece algo do espaço: carbolithium...que injeta doses de metal no meu superconsciente! Valeu querido, adorei o texto!

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