quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Jovens, envelheçam!

Até quando?

Nunca pensei em suicídio. Mas, quando garoto, cogitei me mudar de mochila, boné e walkman para Marte. Yes, sou do tempo do walkman, seu Steve Jobs.

Marcianos são homenzinhos verdes aparentemente mais evoluídos do que a gente, certo?

Se, ao contrário de nós, já realizam viagens intergalácticas, devem ter superado qualquer tipo de preconceito há muito tempo. Eu pensava assim...

Queria habitar um mundo onde eu não fosse O ESTRANHO.

É assim que os meninos se sentem quando se descobrem homossexuais: “estranhos”, em desacordo com a “normalidade”, confusos em relação a esse “desejo proibido” de “estar” com alguém do mesmo sexo.

Se já é foda lidar com os próprios “fantasmas”, mais foda ainda é notar a rejeição dos outros. Percebi a tempo que abrir o jogo seria arriscado demais. Me adequei às normas. Namorei meninas. Virei um “machinho conquistador”, enquanto desejava... a-hã, você sabe muito bem o quê!

“Suicídio passa pela minha cabeça todos os dias, está cada vez mais difícil”, revelou um técnico de farmácia de 22 anos ao “Folhateen”, caderno da “Folha” dirigido aos adolescentes. Em reportagem chamada “Preconceito Fatal”, o caderno abordou um tema pouco discutido na imprensa e na sociedade: o suicídio entre jovens homossexuais.

Suicídio, como se sabe, é assunto tabu, condenado pela Igreja e reprovado pela sociedade da “saúde total”. Ninguém tem o direito de acabar com a própria vida. Deve aguardar o câncer, a bala perdida ou o motorista bêbado avançar o sinal vermelho. Enquanto isso, segundo dados do Ministério da Saúde, em 2008, 9.090 pessoas se mataram no Brasil – ou 25 suicídios diários. 

Discutir o problema acho mais inteligente do que fingir que ele não existe. 

Na mesma reportagem, Miguel Perosa, professor de psicologia da PUC-SP, explica: “O jovem pode sentir que não pertence a esse mundo que o discrimina”. Era assim que devia se sentir o namorado de Paulo que, aos 19 anos, pulou do sétimo andar de um prédio: “Ele achava que não tinha futuro sendo gay.”

Sim, o preconceito mata. Pesquisas norte-americanas indicam relação entre adolescência, homossexualidade e suicídio. E jovens gays são de duas a três vezes mais propensos a tentar o suicídio quando comparados a jovens heterossexuais.

Repito: discutir o problema acho mais inteligente do que fingir que ele não existe. 

Dado o alerta sobre a urgência de programas públicos para ajudar esses adolescentes a suportar/enfrentar a discriminação, vale citar um estudo da FIPE, de 2009, realizado em 500 escolas públicas brasileiras, onde os alunos entrevistados concordaram com as seguintes afirmações:

         - “Eu não aceito a homossexualidade” – 26,6%
         - “Pessoas homossexuais não são confiáveis” – 25,2%
         - “A homossexualidade é uma doença” – 23,2%
         - “Os alunos homossexuais não são alunos normais” – 21,1%
         - “Os alunos homossexuais deveriam estudar em salas separadas” – 17,6%

Ao me espantar cada vez mais com a absurda intolerância entre a molecada que, supostamente, deveria ser “prafrentex”, só me resta recorrer à ordem rodriguiniana: “Jovens, envelheçam!”. E quanto mais depressa, melhor.

Leia a reportagem "Preconceito Fatal" (para assinantes da Folha e do UOL)

Leia sobre "Os Famosos e Os Duendes da Morte", de Esmir Filho. 

6 comentários:

  1. Marcos!

    Tenho uma grande amiga que trabalha com jornalismo políticoe sempre me contou das barras de ser mulher naquele ambiente. Um dia ela me disse: neste meio, eles não aceitam gays de jeito nenhum.

    Foi a primeira vez que me dei conta que eu queria ser jornalista de política ou de cultura. E que virei jornalista de cultura. E que talvez não tenha sido por acaso.

    Agora, que ando falando de política pelos cotovelos na internet, volta e meia aparece alguém me dizendo "gostava mais quando você...", ou coisaa mais pesadas.

    É barra, companheiro! Se aparecer um desses por aí, não ligue! Se bem que fqlar de suicídio é TÃO tabu que geralmente ninguém responde nada...

    Alguém disse também no twitter (uma mulher) que a igreja se preocupa MUITO com a nossa vida durante nove meses, e depois nunca mais. Não é por acaso também.

    Só mais uma coisa que eu não falei ainda, nem pelos cotovelos, e que algo que você escreveu aí em cima me fez lembrar: entre as coisas que eu adoro, nos dias atuais, é ter uma presidente que já teve câncer. :-)))

    Parabéns pelo texto!

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  2. Oi, você precisa assistir ao filme "Os Famosos e os Duendes da Morte", porque discute exatemente esse tema, do jeito mais nebuloso como as coisas são, ou como os próprios jovens buscam reprimir-se para se proteger. Longe é o lugar onde se pode viver de verdade!

    | E.F |

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  3. Quero apenas reforçar o comentário acima. E parabenizá-lo pelo texto.

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  4. O assunto acaba sendo triste devido aos resultados que vemos no Brasil e em outros países.
    Mesmo assim, como pudermos, deveríamos nos preocupar e mover mais ações a respeito do assunto. Tanto dos que precisam de ajuda por pensar em suicídio, quanto os que sofrem preconceito.

    Tem de haver algo que possa ser feito e todos deveriam pensar mais sobre o assunto, o que infelizmente não acontece tanto.

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  5. Acabo de escrever um texto, citando seu blog. Esse grito ta na garganta desde que realizei o filme. Depois te mando.

    [ ]'s

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  6. Gente, vejam isso!

    http://www.dolado.com.br/noticias/governo-da-malasia-homossexualidade-causa-h1n1.html

    É pra rir ou pra chorar?

    Mais de 2 décadas após o erro dos "Grupos de Risco" da AIDS, ainda tem gente que acha que "gay tem mais chance de pegar".

    E agora isso?

    Meu deus, como tem gente que nutre um gosto mórbido pela ignorância neste mundo. Enquanto isso, os bons querem se matar.

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