sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Meu amigo Claudia

Por Bronie Lozneanu, para ffwMAG!

Claudia Wonder

Acho que o primeiro louvor que Claudia Wonder recebeu na vida foi “Meu amigo Claudia”, crônica escrita por Caio Fernando Abreu (1948-1996) e publicada no Estadão nos anos 1980. O escritor teve a ousadia de abordar no comecinho daquela década um assunto tabu: a transexualidade, que Claudia Wonder sempre soube personificar como ninguém. Naqueles anos em que a liberdade de expressão em assuntos como política, ideologia e sexo ainda era sistematicamente picotada pela censura, ser travesti equivalia quase a cometer um ato terrorista. Só o fato de Claudia se exibir com naturalidade pelas ruas de São Paulo era um ato revolucionário – passível, portanto, de insultos, agressões físicas e passagens pelo xadrez. E foram a história e as performances de Claudia que fascinaram o diretor Dácio Pinheiro. Em seu documentário, intitulado Meu Amigo Claudia, ele conta com sensibilidade não só a trajetória de Claudia Wonder, mas momentos importantes da cultura underground paulistana e cenas políticas e sociais brasileiras das últimas três décadas.

Seu filme foi recebido com entusiasmo no festival da diversidade sexual de São Francisco, o Frameline, um dos mais importantes do gênero no mundo, e foi considerado um dos sete melhores trabalhos da mostra. E Claudia Wonder se tornou, da noite para o dia, uma star, com shows e gritos de afeto dos fãs. Pois seu repertório glam 1980, incluindo hits como “Vomito do Mito”, comprova que travesti não serve só para dublar Judy Garland, Liza Minelli ou Marilyn Monroe. Claudia compõe e canta, com voz rouca, bem afinada e prá lá de sexy. É também atriz, arrancando críticas entusiasmadas do diretor José Celso Martinez Corrêa quando interpretou a Camarada Verdade, personagem do espetáculo O Homem e o Cavalo, substituindo Sonia Braga, que estava muito ocupada, filmando em Hollywood.

Leia a seguir a entrevista que “La Wonder” e o diretor Dácio Pinheiro concederam a MAG!, na ocasião do lançamento do filme no festival Mix Brasil.

ffwMAG! – Dácio, como surgiu a ideia de fazer o documentário?
Dácio Pinheiro – Eu já tinha ouvido falar da Claudia pelo festival Mix Brasil e pelo meu amigo Rick Castro. Entrei em contato com ela e realizamos um curta chamado Claudia Wonder International Show, em 2003. Depois disso, fiz algumas entrevistas com ela, mas com muitas idas e vindas, já que os recursos eram escassos. Em 2007, apresentei o projeto para a produtora Piloto, que me deu todo apoio necessário. Os donos da Piloto, Alexandre Chalabi, Daniel Soro e Biba Werdesheim, foram os produtores executivos; Daniel Chaia fez o roteiro; Pierre de Kerchove, a fotografia. A trilha sonora é do Paulo Beto e, claro, da Claudia. Este é meu primeiro trabalho profissional.

ffwMAG! – Como foi a pesquisa para o filme?
DP – Bem, eu adoro fazer pesquisa. Mas não foi nada fácil. Algumas coisas foram aparecendo nos arquivos da Folha, do Notícias Populares, no Centro Cultural São Paulo. A Claudia ajudou muito também. Fomos atrás das entrevistas mais antigas da Olhar Eletrônico. Terminamos o filme com muitas horas de material gravado e ficamos entusiasmados com o festival de São Francisco. Quando recebemos o sim, queríamos fazer o filme “acontecer”.

ffwMAG! – Claudia, como foi essa experiência em São Francisco?
Claudia Wonder – Foi incrível, principalmente como ser humano. Os americanos e a comunidade latina, especialmente as transexuais mexicanas, foram muito carinhosos comigo. Não é uma maravilha? Pois normalmente você só vê travesti fazendo sucesso pelas razões erradas, como bicha caricata, bandida, drogada, prostituta...

ffwMAG! – Onde aconteceu a mostra?
CW – No magnífico Castro Theatre, todo art nouveau, com cortinas de veludo se abrindo, o teto decorado de bronze. Realmente uma avant-première maravilhosa! E o filme foi considerado um dos sete que não se podiam perder no festival.
DP – Eles armaram um show para a Claudia na festa Tingle Tangle e, depois, ela ainda se apresentou na Trans March, em Dolores Park, um festival que dura o dia todo, com um palco montado no parque. A Claudia fez um estardalhaço na cidade, foi vista por todos. E o pôster ficou bem legal na porta do cinema [o pôster mostra uma foto do show da Claudia nos anos 1980, com aquela estética bem característica, que voltou a fazer furor, muito branco e preto, quadriculado e pink]. A Suzy Capó, do Mix Brasil, está interessada em distribuir o filme fora do Brasil, e a Claudia sempre foi muito ligada ao Mix, assim tudo fica bem amarrado.

ffwMAG! – Qual foi a reação das pessoas depois da projeção?
CW – Eles tinham muita curiosidade em saber como está a situação no Brasil nos dias atuais, sobretudo as travestis e uma trupe de transexuais masculinos mexicanos. É uma tendência forte lá fora. Os trans masculinos vibraram [travestis mulheres, com barba, totalmente masculinizadas]. Teve uma rodada de perguntas, em que falamos sobre o que tinha mudado da época da ditadura militar até hoje. Eles se espantaram com o número de pessoas na Parada Gay de São Paulo e queriam saber se ainda havia muita homofobia, por causa da bomba no largo da Arouche [na Parada Gay deste ano uma bomba caseira feriu alguns participantes reunidos no largo do Arouche]. Acho que não adianta ter tanta visibilidade se esta não vem acompanhada de informação. Senão, as pessoas interpretam como pouca vergonha.

ffwMAG! – Você acha que era melhor nos anos 1980?
CW – Acho que naquela época tinha mais espaço para a cultura underground, fazíamos parte do movimento de abertura. Hoje, talvez com tanta massificação, vivemos uma retração sexual e cultural, o mundo está mais acomodado, parece que as pessoas daquele tempo tinham mais vontade de mudar.

ffwMAG! – Mas, por outro lado, a informação era escassa...
CW – É verdade. Mas foram essas barreiras que nos possibilitaram criar uma ideologia. A gente tinha apenas notícias que a TV aberta mostrava e a informação era um artigo de luxo, muito cara porque importada. Mas agora você me fez lembrar da passeata dos travestis, que foi um flop: aconteceu exatamente no dia em que o Tancredo Neves morreu. Eu tinha feito a faixa com um vestido meu, fiz uma figura inspirada no costureiro Erté. Foi um fiasco, pois todos estavam preocupados com o futuro do país e temiam a volta da ditadura. Só saiu uma notinha no Notícias Populares, de uma jornalista amiga que assinava como Julian Gray.

ffwMAG! – Como era a sua relação com a imprensa?
CW – Sempre tive apoio e simpatia da imprensa. Me lembro da Barbara Gancia, ela sempre deu espaço para eu me expressar. Mesmo o Estado de S.Paulo, que era bastante conservador, publicou várias reportagens. A Folha também. Na época, em qualquer lugar público, se percebessem que você era travesti, imediatamente choviam insultos: “Veado, filho da puta”.

ffwMAG! – Como é hoje?
CW – As pessoas estão menos primitivas, ao menos aqui na zona sul. Não sei se no Capão Redondo é igual [risos]. Por exemplo: sou síndica do meu prédio! O tratamento é até carinhoso. As mulheres têm mais simpatia pelos travestis, os homens têm medo. Acho que é de sentir desejo e virar veado!

ffwMAG! – E como é a nova geração?
DC – Acho que ela é mais desencanada, todos são mais andróginos, difícil dizer quem é quem. É mais dúbio. O Sérgio, um amigo meu, tem cabelo curto e franja, parece mais um menino vestido de mulher. É uma estética do não gênero, tem até a cultura “queer”, que prega o não gênero, justamente para ser apenas humano.
CW – Esta nova geração está bem representada no cartoon Drogaria e com a turminha do Fudêncio, com garotos e uma travesti chamada Zé Maria, com peitinho e voz grossa!

ffwMAG! – Por falar nesse assunto, como é quando você viaja, qual nome está escrito no seu passaporte?
CW – Meu nome de batismo, Marco Antonio, com minha foto de mulher. Sempre que viajo sozinha, sei que vão me perguntar sobre minha identidade sexual.
DP – O oficial da alfândega encanou com a Claudia, perguntando se ela era atriz pornô. É um estranhamento, mas hoje em dia eles têm medo de barrar. A Sophia Lamar [outra transexual que atuou em um curta de Dácio] processou uma empresa e ganhou uma indenização de US$ 150 mil porque foi discriminada.

ffwMAG! – É uma lei?
DP – Sim, de identidade de gênero no trabalho, e a multa é bem pesada, de US$ 250 mil.

ffwMAG! – Dácio, vi no seu currículo um monte de filmes ligados ao mundo GLS. Prefere abordar essa temática?
DP – Não, tenho outros trabalhos, como o curta Ne pleure pas Jeanette, inspirado numa canção medieval francesa.

ffwMAG! – Você é um rato de arquivo?
DP – Guardo todas as pesquisas. Comecei minha vida profissional como programador dos canais HBO Brasil e Cinemax, adoro cinema.
CW – Eu gostaria muito de recuperar meus trabalhos sociais, principalmente o documentário suíço Dores de Amor, que foi feito em 1988 com todas as travestis da época: Brenda Lee, Andréia de Maio, Telma Lip, a Condessa. Todas elas tiveram um destino trágico. Brenda foi assassinada por um policial que trabalhava em seu abrigo, que tinha diversos apelidos, inicialmente Casa da Caetana, que era o nome dela, Palácio das Princesas e, depois, maldosamente apelidado de Castelo das Bruxas, por abrigar travestis com Aids. Naquela época, a doença não tinha nenhum tratamento eficaz, o medo e o preconceito eram enormes.

ffwMAG! – A Brenda foi muito corajosa.
CW – Ela foi a primeira pessoa a ter essa consciência social, pois até na mídia o medo era enorme, não se sabia direito como a doença era transmitida, sendo chamada de “peste gay”. Na época, ser gay era ser doente. Foram o Glauco Matoso e a Ruth Escobar que acabaram com esse estigma. Demorou muito para derrubar do código penal o transtorno de identidade de gênero.

ffwMAG! – Afinal, quem manda no próprio corpo: o ser humano ou o Estado?
CW – Esta é uma das funções da psiquiatria, ser um veículo de controle social. Recebi uma tese muito interessante, mostrando que isso se deu logo após a Revolução Francesa. Nos livros medievais, havia três qualificações: homem, mulher e hermafrodita. O termo travesti começou a ser utilizado na época da Revolução, pois os espiões eram travestis. Já que não devia ser nada fácil se infiltrar na corte russa, seduzir homens e mulheres e ter a força física e mental que o trabalho exigia. O Chevalier d’Or é um exemplo famoso, ele se introduzia na corte vestido de mulher e, depois, conquistava as rainhas e obtinha seus segredos.

ffwMAG! – A avenida Paulista tem se destacado por ter uma cena GLS bem forte...
DP – É verdade. As pessoas começam a ter medo de interferir na privacidade dos outros, é comum presenciar casais do mesmo sexo se beijando e trocando carinhos. Na Holanda, não existe mais essa denominação de cena gay, pois todo mundo é livre, não tem mais essa necessidade de qualificar as pessoas, foi um processo natural.

ffwMAG! – Claudia, como era na Suíça, país que você morou nos anos 1990, quando a cena underground paulistana acabou?
CW – Na Europa, desde os anos 1970, a vida de um travesti ou de um gay é bem mais fácil. Lá, você não pode simplesmente insultar ou agredir uma pessoa. Você é preso e ainda tem que pagar uma multa. Comigo era sempre madame para lá e madame para cá. Sempre fui tratada com respeito na Suíça. É tão chique, né?

ffwMAG! – Você se casou por lá?
CW – Tive vários casamentos, mas com o Claude foi o mais longo, durou seis anos. Lá, eu era sozinha, e ele foi um pai para mim, companheiro, amigo. Depois, todo casamento vira uma sociedade, e a mulher, quando traída, sempre reage da mesma maneira. Comigo não foi diferente. Pensei: “Para que brigar?”. Eu o levei a uma joalheria e ele entendeu tudo, me presenteou com um lindo relógio! Vou mandar o DVD para ele. Somos amigos até hoje. Já imagino seu comentário: “Agora você é uma star de cinema, bravo!”.

ffwMAG! – Claudia, fale um pouco sobre seu outro lado que aparece no filme, o de assistência social.
CW – Em 2002, eu estava passando uma temporada com o Claude na Suíça e vim para o Brasil participar da Parada Gay. Foi aí que percebi que não havia nenhuma coluna voltada para esse público. Comecei, então, a escrever para a G Magazine. Devido ao grande número de correspondência que recebia, percebi que não havia nenhum centro de apoio para transexuais e gays em situação de dificuldade, morando na rua, se prostituindo, se drogando. Pensei num centro de referência. Nessa época, foi lançado o orçamento participativo na gestão da prefeita Marta Suplicy. Nós conseguimos o dinheiro, mas não conseguimos viabilizar o projeto.

ffwMAG! – Mas, mesmo assim, vocês realizaram palestras de sensibilização com funcionários da rede pública de saúde?
CW – Sim. Mas ainda é preciso percorrer um longo caminho, a sociedade tem muitos preconceitos. O projeto se efetivou em 2005, quando foi entregue ao Cads [Coordenadoria dos Assuntos sobre a Diversidade Sexual], na gestão do Celso Cury. E, a partir de 2008, eu passei a ser orientadora educativa pela Secretaria de Assistência Social. Agora, acabo de assumir uma função no Casarão Brasil, uma associação GLS que dá apoio a outras ONGs voltadas para a diversidade, incluindo mulheres e deficientes físicos. Estou superempolgada, fazendo um monte de cursos de gestão social.

ffwMAG! – Dácio, você imaginava que seu documentário fosse fazer tanto sucesso?
DP – Acho que hoje ficou muito mais fácil fazer um documentário. São tantos os recursos, e bem mais baratos do que na época em que fiz o curta Pencas de Bicuda [sobre a hilariante e debochada Bianca Exótica]. É um registro da época, que depois vira material de pesquisa. Mas, voltando ao meu filme, acho que as pessoas gostam de histórias com conteúdo. Só sobrevive quem faz a diferença, não adianta ter uma fotografia incrível, um filme benfeito tecnicamente e não ter nada para dizer.

ffwMAG! – Você já participou de um monte de festivais importantes sobre diversidade sexual, como o de Londres, Melbourne, Auckland, Mundo Mix. Você vai se especializar no assunto?
DP – Na verdade, adoro saber a história das pessoas. É um pretexto para pesquisar uma época, um universo. Eu comecei a sair com 16 anos, no começo dos anos 1990. Ainda peguei o fim do Satã, Rose Bom Bom, Carbono 14. Eu sempre fui fascinado pela cena underground, que frequento até hoje, e me concentrei na investigação desse universo do travesti com a Bianca Exótica, em Equê de Vuiton e Pencas de Bicuda. Fiz três filmes com ela e adoro essa mistura de linguagens passeando pelo submundo alternativo da rua Augusta, meio ficção, meio documentário

ffwMAG! – Sinto que você gosta da estética dos anos 1970...
DP – Sou um cinéfilo obcecado. A fase da pornochanchada me interessa, adoro resgatar e homenagear esse cinema, que eu acho mais anárquico, mais livre, e eu consegui vários DVDs no mercado americano, como o incrível Volúpia de Mulher.

ffwMAG! – No caso da Claudia, o que te empolgou?
DP – Ver a Claudia em programas para donas de casa, como o Mulheres em Desfile, que na reprise foi cortado por ser “muito chocante” para o público. Tive acesso a esse material através do arquivo da Claudia. Como este país não tem memória, os programas da TV Gazeta e muitos outros foram apagados! Também é incrível a cena que aparece no filme, de um show da Claudia, cantando e mergulhando na banheira de groselha, no auge da Aids. Era um corajoso símbolo de protesto: vou espirrar sangue em todo mundo!
CW – Naquele momento, nos anos 1980, tudo tinha seu motivo. O José Celso estava voltando do exílio, era o começo da abertura política, um momento empolgante e ao mesmo tempo muito triste, pois a maioria de meus amigos morreu de Aids, quase todo o elenco da peça Nossa Senhora das Flores não sobreviveu para contar a história.

ffwMAG! – Dácio, qual seu próximo projeto?
DP – Meu sonho é dirigir um filme de terror psicológico. Sou superfã desse gênero de cinema. E continuar minhas aventuras no underground, adoro filmar em super-8. 

Entrevista publicada originalmente na revista ffwMAG! (2009) 

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Conheci Claudia Wonder numa festa. Conversamos pouco. Mas foi suficiente para perceber sua enorme generosidade. Em 2009, ffwMAG! publicou entrevista com ela e com o diretor Dácio Pinheiro, autor do documentário "Meu Amigo Claudia". Reproduzo aqui em homenagem a "inenarrável diva da cena paulistana"  

Um comentário:

  1. amei a entrevista.

    devidamente guardada p/ pesquisa próxima.

    bj.

    adelaide

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